O poeta que carregava a cidade na maleta

O poeta que carregava a cidade na maleta

Quem atravessou o centro de João Pessoa em outros tempos talvez ainda consiga reencontrar, entre as lembranças que a cidade guarda, a figura de Mané Caixa d’Água. De terno branco, gravata e passos tranquilos, ele parecia pertencer à própria paisagem das ruas. A maleta surrada vinha sempre por perto; nas mãos, um jornal ou um livro. Caminhava como quem não tinha pressa, como quem conhecia cada esquina, cada rosto e cada silêncio da cidade. E talvez seja por isso que, mesmo depois de tantos anos, sua imagem continue aparecendo na memória de quem viveu aquela João Pessoa — uma cidade que ele não apenas percorreu, mas transformou em matéria de poesia.

Quem conheceu o centro de João Pessoa em outros tempos talvez ainda consiga enxergar, no movimento das ruas, a figura de Mané Caixa d’Água. O terno branco se destacava entre os passantes. A maleta estava sempre por perto. Nas mãos, quase sempre um jornal ou um livro. Ele caminhava sem pressa, como se conhecesse cada esquina e tivesse tempo para observar a cidade.

À noite, a Lagoa era um de seus lugares preferidos. Ali, sentava-se para ler e conversar. Cumprimentava conhecidos, encontrava escritores, jornalistas, artistas e antigos companheiros de boemia. As ruas do centro também faziam parte de sua rotina. Ele conhecia seus movimentos, suas esquinas e suas histórias. Talvez por isso sua trajetória esteja tão ligada à memória da capital paraibana.

Manoel José de Lima nasceu em Cruz do Espírito Santo e chegou a João Pessoa aos treze anos. Foi aqui que construiu sua vida. Ainda menino, depois da morte da mãe, escreveu seu primeiro poema. A experiência da perda parece ter deixado uma marca profunda em sua escrita. Nas palavras, encontrou um lugar para aquilo que a vida não conseguia devolver.

Essa relação aparece com força em Caminhos Perdidos. O poema revisita a infância e transforma a lembrança em paisagem. Surgem as ruas, a noite, os fantasmas, o mar, os navios e o vento. Tudo parece pertencer a um passado distante. A cidade permanece, mas o menino que a percorreu ficou para trás.

Em determinado momento, o poeta escreve:

A cidade sem porta.
As ruas brancas de minha infância
que eu não volto mais.

O verso carrega uma tristeza silenciosa. Não se trata apenas de uma infância que passou. São também os caminhos que deixaram de existir, os lugares que a memória ainda alcança, mas que a vida já não permite reencontrar. A cidade muda. As pessoas mudam. E algumas ruas continuam apenas dentro de nós.

É nesse mesmo poema que surge outro verso, quase como uma confissão:

Eu tinha nas minhas mãos somente sonhos.
Eu tinha nas minhas mãos somente sonhos.

Depois das perdas, restam os sonhos. Eles não podem substituir o que desapareceu, mas permitem que a memória continue viva. A poesia transforma essa falta em imagem e sentimento.

Talvez essa seja uma das chaves para compreender sua obra. Caixa d’Água escrevia a partir da experiência. Observava o mundo ao redor e transformava suas impressões em versos. Sua poesia não precisava de distância da vida cotidiana. Nascia das ruas, das lembranças, das conversas e das inquietações de um homem profundamente ligado ao lugar onde vivia.

Sua relação com a literatura também acontecia fora dos livros. Caixa d’Água circulava pelos bares, pelas bancas de jornal e pelos encontros culturais. Conhecia escritores, jornalistas e artistas e fazia questão de prestigiar lançamentos e eventos literários. Não precisava de um palco para participar da vida cultural da cidade. Uma mesa de bar, uma conversa na Lagoa ou uma banca de jornal podiam se transformar em espaço de encontro e troca.

É assim que sua presença cultural se transforma em memória. As cidades mudam. Lugares desaparecem, outros surgem e os antigos frequentadores envelhecem. O que fica nem sempre pode ser encontrado nos registros oficiais. Às vezes, sobrevive na lembrança de quem compartilhou uma época.

Caixa d’Água sobrevive dessa maneira: nas histórias contadas por quem o conheceu, nas fotografias, nos livros e nas lembranças de uma cidade que ele percorreu durante décadas.

Mas há uma imagem que talvez diga ainda mais sobre essa memória. Ao lado do antigo Grupo Escolar Thomaz Mindelo, na Praça Aristides Lobo, havia uma estátua do poeta. Com o tempo, a obra foi sendo vandalizada até que acabou retirada do local. Hoje, segundo relatos de antigos frequentadores, resta apenas o pedestal. Um vazio de concreto onde deveria estar a figura de um homem que fez da cidade matéria de poesia.

Os boêmios reclamam da ausência. A reclamação, mais do que uma questão sobre uma estátua, revela uma inquietação maior: o que fazemos com aqueles que ajudaram a construir a memória de uma cidade?

A ausência da estátua cria uma ironia difícil de ignorar. O poeta escreveu sobre caminhos que se perderam. Agora, seu próprio rosto parece ter desaparecido de um lugar da cidade. Restou o pedestal, como uma espécie de frase interrompida.

Talvez seja justamente aí que a memória de Caixa d’Água encontre seu sentido mais profundo. Uma estátua pode ser retirada, uma praça pode mudar, uma fotografia pode envelhecer. Mas aquilo que alguém deixou na experiência de outras pessoas é mais difícil de apagar.

Os caminhos podem se perder. As ruas da infância podem desaparecer. Até o bronze pode ser retirado. Mas a poesia encontra outros caminhos para permanecer.

Palmarí H. de Lucena