O poder, a paz e o peso da soberania

O poder, a paz e o peso da soberania

As instituições criadas para garantir a paz mundial nasceram do mesmo ideal: substituir a lógica da força pela da razão. Mas a história mostra que, sempre que a soberania nacional é tratada como um direito absoluto, o diálogo internacional torna-se refém dos interesses de poucos. Essa contradição atravessa o século e ainda limita a capacidade das Nações Unidas de agir de forma efetiva diante dos conflitos.

A antiga Liga das Nações foi a primeira tentativa moderna de institucionalizar a paz. Seu pacto previa que toda ameaça à estabilidade global seria uma preocupação comum, a ser resolvida coletivamente. Na prática, porém, prevaleceu o cálculo político de cada país. As grandes potências conservaram o privilégio de agir conforme seus interesses e esvaziaram o propósito de um sistema de segurança compartilhada. A guerra que deveria ser contida acabou sendo o caminho mais rápido para reafirmar poder e influência.

Com a criação da ONU, esperava-se uma correção desse desequilíbrio. No entanto, o desenho institucional manteve as assimetrias: o Conselho de Segurança concentrou o poder de decisão nas mãos de poucos Estados, e o direito de veto transformou a busca por consenso em paralisia. A igualdade formal entre os países não impediu que a desigualdade real determinasse as regras do jogo. O resultado é um organismo que, embora simbólico e necessário, frequentemente assiste aos desastres sem poder detê-los.

A questão não é abolir a soberania, mas redefini-la. Num mundo interdependente, insistir na soberania como licença para agir isoladamente é perpetuar o risco de novas guerras. O verdadeiro exercício da autonomia nacional deveria incluir a disposição de se submeter a mecanismos de mediação e arbitragem. Assim como as sociedades civilizadas recorrem a tribunais para resolver disputas, as nações precisam aceitar a autoridade de instâncias internacionais capazes de equilibrar poder e justiça.

A resistência a esse princípio é antiga e previsível. Nenhum Estado deseja limitar sua liberdade de ação, sobretudo quando dispõe de força militar ou influência econômica. Mas a experiência do século XX demonstra que a ausência de regras comuns produz apenas ciclos de violência. A segurança global não pode depender do veto de cinco países nem da boa vontade de alianças temporárias. Ela exige compromisso moral e jurídico com a solução pacífica dos conflitos.

Apesar de suas imperfeições, a ONU continua sendo a melhor ferramenta disponível para evitar o colapso da cooperação internacional. O desafio é resgatar sua credibilidade, fortalecendo a transparência das decisões, ampliando a representatividade e substituindo privilégios políticos por responsabilidade coletiva. A paz não se impõe; constrói-se dia após dia, por meio de instituições que mereçam confiança.

O mundo ainda não superou o dilema que marcou o nascimento dessas organizações: o conflito entre o poder e a lei. Enquanto o primeiro prevalecer sobre o segundo, a promessa de paz será sempre provisória. A tarefa essencial da diplomacia contemporânea é transformar essa promessa em realidade, antes que o peso da soberania volte a esmagar o próprio ideal que pretendia proteger.

Por Palmarí H. de Lucena