Os Estados Unidos atravessam uma curiosa mutação histórica: deixaram de ser governados prioritariamente por partidos e passaram a ser governados por estados emocionais.
No Texas, essa transformação ganhou contornos quase barrocos. A ascensão de figuras políticas que sobrevivem sucessivamente a escândalos, investigações e crises públicas não representa um acidente da democracia contemporânea, mas talvez sua expressão mais coerente. Durante décadas, acreditou-se que a democracia americana possuía mecanismos automáticos de autocorreção: instituições sólidas, imprensa livre, freios constitucionais e um eleitorado razoavelmente pragmático. A teoria parecia convincente enquanto o país ainda acreditava que vergonha pública produzia consequências.
Já não acredita.
Na nova gramática política, escândalos passaram a funcionar menos como feridas morais e mais como credenciais tribais. Cada acusação reforça vínculos emocionais entre líderes e seguidores. Cada denúncia converte-se em prova de pertencimento. O político deixa de representar apenas projetos administrativos e passa a encarnar ressentimentos coletivos, ansiedades culturais e desejos difusos de revanche simbólica.
A política transforma-se, então, numa espécie de religião secular para uma época incapaz de sustentar transcendência.
Há algo profundamente revelador no fato de eleições internas, frequentemente dominadas por minorias altamente mobilizadas e emocionalmente intensas, terem adquirido tamanho poder sobre o destino nacional. A maior democracia do Ocidente começou, aos poucos, a terceirizar sua estabilidade justamente para seus setores mais indignados.
Os moderados desapareceram não necessariamente porque perderam argumentos, mas porque perderam utilidade dramática.
A televisão, as redes sociais e a economia da atenção exigem personagens excessivos. Governar bem produz poucos cliques. A administração eficiente raramente viraliza. Já a indignação permanente gera audiência contínua. O conflito tornou-se economicamente rentável, culturalmente estimulante e politicamente produtivo. Em consequência, a política passou a fabricar tensão em escala industrial.
Enquanto isso, cidades consideradas vitrines do progresso oferecem a versão espelhada da mesma crise. Décadas de estabilidade administrativa e hegemonia ideológica frequentemente produziram estruturas burocráticas sofisticadas no discurso, mas frágeis na mecânica concreta da vida urbana: habitação, segurança, infraestrutura, mobilidade, ordem pública. A linguagem moral permanece eloquente; a experiência cotidiana do cidadão, nem sempre.
Nesse ambiente de fadiga institucional, celebridades improvisadas começam a parecer alternativas plausíveis ao establishment. Não necessariamente porque possuam experiência administrativa, mas porque transmitem energia vital. Em democracias cansadas, carisma frequentemente se disfarça de competência.
O eleitor contemporâneo não procura apenas soluções. Procura sensação.
Talvez por isso provoque tanto fascínio o surgimento ocasional de figuras públicas capazes de falar em tom mais lento, menos histérico, mais humano. Em meio ao espetáculo nervoso da política contemporânea, ouvir alguém refletir pausadamente sobre dignidade humana, responsabilidade ética ou limites tecnológicos produz quase um efeito acústico: como silêncio depois de uma sirene.
Quando líderes intelectuais e religiosos descrevem nosso tempo como uma era de “progresso material e regressão antropológica”, formulam algo que muitos já intuíram sem conseguir nomear. Nunca produzimos tanta tecnologia para economizar tempo — e, paradoxalmente, nunca parecemos tão incapazes de habitar o próprio tempo.
As universidades formam jovens cada vez mais eficientes em processar informação, mas frequentemente menos habituados à contemplação profunda. Algoritmos começam a terceirizar não apenas tarefas, mas parcelas inteiras do próprio pensamento. As redes sociais converteram personalidade em performance contínua. A esfera pública tornou-se uma sucessão infinita de reações instantâneas, como se a civilização inteira estivesse aprisionada dentro de um gigantesco painel de comentários.
E, ainda assim, persistem pequenos gestos de resistência cultural.
Alguém lendo poesia tarde da noite. Um estudante abrindo um romance num metrô silencioso. Uma pessoa sublinhando frases num livro enquanto o telefone vibra inutilmente ao lado.
Talvez o futuro da inteligência humana dependa precisamente dessas cenas menores, quase invisíveis.
Porque livros ainda exigem aquilo que o mundo digital lentamente corrói: atenção prolongada, imaginação moral, paciência cognitiva e capacidade de permanecer sozinho sem entrar em pânico. Ler continua sendo uma forma de desacelerar a mente até que ela volte a reconhecer nuances.
E nuances, hoje, tornaram-se subversivas.
Fenômeno semelhante pode ser percebido em diversas democracias contemporâneas, inclusive no Brasil. Também aqui a política passou a operar frequentemente por estímulos emocionais permanentes, identidades tribais e guerras simbólicas contínuas. A polarização reduziu o espaço para ambiguidades, complexidades e distinções sutis. Divergências políticas passaram, muitas vezes, a ser tratadas como falhas morais absolutas.
Nesse ambiente, escândalos tendem menos a dissolver lideranças do que a fortalecer fidelidades emocionais. Parte significativa do eleitorado já não busca apenas eficiência administrativa ou coerência programática. Busca representação afetiva: alguém que traduza sua indignação, seu medo, sua frustração ou seu sentimento de pertencimento cultural.
As redes sociais aceleraram esse processo ao recompensarem discursos simplificados, conflitos permanentes e manifestações instantâneas de fúria moral. A política transforma-se gradualmente em espetáculo contínuo, no qual viralização frequentemente importa mais do que profundidade, e intensidade emocional parece valer mais do que consistência intelectual.
O problema não pertence exclusivamente à direita ou à esquerda, ao conservadorismo ou ao progressismo. Trata-se de uma deformação mais profunda da própria cultura pública contemporânea. A lógica algorítmica premia indignação. A economia da atenção recompensa excesso. O debate público passa a selecionar não os mais lúcidos, mas os mais ruidosos.
E talvez esse seja o aspecto mais inquietante de tudo: não o fato de as sociedades estarem zangadas, mas o fato de começarem a confundir raiva com lucidez.
Uma civilização que transforma emoção em critério absoluto de verdade inevitavelmente corre o risco de eleger seus próprios delírios.
Palmarí H. de Lucena