Há palavras que, depois de repetidas muitas vezes, deixam de parecer palavras. Transformam-se em paisagens. “Agro” é uma delas.
Está nos anúncios, nas placas à margem das rodovias, nas campanhas publicitárias, nos noticiários e nas conversas sobre o futuro econômico do país. A palavra costuma vir acompanhada de imagens cuidadosamente escolhidas: máquinas avançando sobre extensas plantações, silos repletos, estradas cortando campos cultivados, caminhões em movimento, portos recebendo cargas destinadas a mercados distantes. É uma imagem sedutora porque não é inteiramente falsa. O Brasil tornou-se uma potência na produção e exportação de commodities agrícolas, e as atividades ligadas ao agronegócio passaram a exercer forte influência sobre a economia e sobre a organização do território.
Mas toda paisagem também é uma escolha. Mostra algumas coisas e deixa outras fora do enquadramento.
É nesse intervalo entre aquilo que aparece e aquilo que permanece invisível que se encontra uma das questões centrais de A produção da fábula do agronegócio no Brasil: novas e velhas faces da dependência, de Denise Elias. Publicado em 2025, o livro investiga a expansão do agronegócio brasileiro e, ao mesmo tempo, os discursos que ajudam a apresentá-lo como sinônimo de modernização, progresso e desenvolvimento. A autora chama atenção para a formação de uma espécie de “psicosfera do agronegócio”, na qual determinadas ideias passam a circular como verdades evidentes.
A narrativa é conhecida. Se o país produz muito, a fome estaria mais próxima de ser vencida. Se a produção incorpora tecnologia, seria necessariamente moderna e sustentável. Se as exportações crescem, os benefícios desse crescimento tenderiam a alcançar a sociedade como um todo.
A dificuldade começa quando uma parte da realidade pretende falar em nome da realidade inteira.
Produzir alimentos em grande escala não resolve, por si só, a questão da fome. A existência de abundância produtiva não elimina as desigualdades que determinam quem pode comprar, consumir e escolher aquilo que chega à mesa. Da mesma maneira, modernização tecnológica não é sinônimo automático de equilíbrio ambiental. O livro de Denise Elias coloca justamente esses pressupostos em questão ao examinar alguns dos mitos mais difundidos sobre o agronegócio, entre eles os relacionados à fome, à sustentabilidade e aos efeitos dos agrotóxicos.
Há, portanto, uma distância entre a imagem do campo produzida pela publicidade e o território concreto onde essa economia se realiza.
Nesse território, a expansão do agronegócio pode produzir riqueza e, simultaneamente, aprofundar desigualdades. Pode estimular novas atividades econômicas, transformar cidades e criar mercados especializados, enquanto aumenta a concentração de renda e modifica profundamente as relações sociais e espaciais. A análise apresentada por Elias caracteriza essa expansão como espacialmente seletiva, economicamente concentradora e socialmente excludente.
As chamadas cidades do agronegócio revelam essa contradição com particular nitidez. Algumas se tornam centros de serviços, comércio, crédito, tecnologia e gestão voltados para a produção agrícola. O movimento econômico é visível: novos estabelecimentos surgem, as atividades se especializam, as relações com outras regiões se intensificam. Ainda assim, o dinamismo econômico não significa que seus benefícios sejam distribuídos de maneira uniforme. Ao lado da prosperidade de determinados setores, podem permanecer — ou mesmo crescer — a pobreza, a segregação e a desigualdade socioespacial.
É uma das contradições mais silenciosas do desenvolvimento: uma cidade pode enriquecer sem que todos os seus habitantes enriqueçam com ela.
Também existe uma geografia peculiar por trás dessa economia. O lugar onde a mercadoria é produzida nem sempre coincide com o lugar onde as principais decisões são tomadas. A pesquisa reunida no livro mostra a concentração de escritórios de grandes empresas do agronegócio em São Paulo e as conexões estabelecidas por cidades produtoras brasileiras com centros financeiros internacionais.
Uma pequena cidade pode estar cercada por lavouras e, ao mesmo tempo, economicamente ligada a mercados que ficam a milhares de quilômetros. A colheita acontece em um lugar; parte das decisões sobre seu destino acontece em outro.
É por isso que “agro” é uma palavra pequena demais para uma estrutura tão grande.
Por trás dela estão a terra e o crédito, as sementes e os fertilizantes, as máquinas e os defensivos, as indústrias e as tradings, os bancos, os transportadores, os portos, os serviços, as universidades e os mercados financeiros. O agronegócio não se limita ao espaço rural. Ele se projeta sobre as cidades e sobre as regiões, reorganizando atividades econômicas e relações territoriais.
Talvez seja justamente essa dimensão que a imagem publicitária não consiga mostrar.
Não há necessidade de transformar o agronegócio em vilão para reconhecer suas contradições. Tampouco é necessário transformá-lo em herói para reconhecer sua importância. As duas simplificações produzem o mesmo problema: substituem uma realidade complexa por um personagem.
A questão mais difícil — e talvez a mais importante — está em outro lugar. Quem controla a terra? Quem controla o crédito? Quem decide o que será produzido? Quem captura a maior parcela da riqueza? Quanto permanece nos territórios produtores? E quais custos econômicos, sociais e ambientais são compartilhados por aqueles que não participam das decisões?
São perguntas que não cabem em um slogan.
O Brasil continuará produzindo. Continuará participando dos mercados internacionais. Continuará enfrentando o desafio de conciliar produção, geração de riqueza, preservação ambiental e redução das desigualdades. O problema, portanto, não está em produzir, mas em imaginar que produzir seja suficiente.
Porque existe uma diferença entre ser uma potência agrícola e construir uma sociedade desenvolvida.
A primeira pode ser medida em toneladas, hectares, exportações e cifras. A segunda exige medidas menos espetaculares: condições de vida, distribuição de renda, acesso à terra, proteção ambiental, direitos sociais e possibilidade de participar das decisões que transformam o território.
É nesse ponto que a fábula encontra seu limite.
Quando os números das exportações são apresentados, existe uma história. Quando se observam as terras, as cidades e as pessoas que sustentam esses números, aparece outra. Nenhuma das duas precisa ser inventada. O desafio está em não permitir que uma delas silencie a outra.
Talvez seja essa a tarefa mais necessária diante do chamado “agro”: retirar a palavra do campo da propaganda e devolvê-la ao campo da realidade.
Ali, onde a terra não é apenas ativo econômico, mas território. Onde a cidade não é apenas plataforma de negócios, mas lugar de vida. Onde a produção não termina no porto, porque deixa marcas no espaço que a tornou possível.
No fim, a pergunta não é apenas quanto o campo brasileiro consegue produzir.
É que Brasil essa produção está ajudando a construir.
E essa pergunta, ao contrário dos slogans, ainda não tem uma resposta pronta.
Palmarí H. de Lucena