Há um momento específico em que uma sociedade deixa de discutir política e começa a praticar teologia. Não uma teologia da transcendência, mas da condenação. O adversário deixa de estar errado; passa a ser impuro. Sua opinião já não precisa ser respondida, apenas denunciada. Sua presença, tolerada. Sua humanidade, suspensa.
O Brasil parece atravessar precisamente esse momento.
Em cidades pequenas, ainda sobrevivem resquícios de uma convivência antiga: o comerciante que vota num candidato e vende fiado ao eleitor do outro; o sindicalista que ajuda na festa da paróquia; o empresário conservador que continua comparecendo ao aniversário do amigo militante de esquerda. Mas esses gestos começam a adquirir um caráter quase arqueológico, como fragmentos de uma civilidade em retirada.
Nas grandes plataformas digitais, ao contrário, consolidou-se uma nova pedagogia emocional. Ela ensina que ceder é fraqueza, ouvir é traição e reconhecer nuances equivale a colaborar com o inimigo. A moderação tornou-se suspeita. A dúvida, ofensiva. O algoritmo recompensa indignação porque indignação mantém atenção; e atenção, hoje, vale dinheiro.
Talvez seja precisamente por isso que Dom Camilo e Peppone soem quase impossíveis ao imaginário contemporâneo. O padre católico e o prefeito comunista concebidos por Giovannino Guareschi habitavam trincheiras ideológicas opostas, embora continuassem inevitavelmente unidos pela mesma geografia moral: o mesmo rio, a mesma praça, os mesmos mortos sob as lápides do cemitério da aldeia.
Eles brigavam porque levavam ideias a sério. Mas também porque conviviam o suficiente para não transformar abstrações políticas em caricaturas absolutas. Nenhum dos dois tinha o luxo contemporâneo de desumanizar completamente o outro. O comunista continuava sendo o homem cujo filho adoecera no inverno anterior. O padre permanecia aquele que organizara mantimentos depois da enchente.
A vida prática impunha limites ao fanatismo.
Esse talvez seja o elemento mais ausente nas democracias digitais modernas: a experiência cotidiana da convivência inevitável. Hoje, é possível passar anos habitando apenas comunidades ideológicas filtradas por afinidade emocional. O dissenso deixou de ser experiência social ordinária para tornar-se invasão hostil.
O resultado não é apenas polarização política. É empobrecimento psicológico.
Sociedades saudáveis dependem de uma capacidade delicada: sustentar conflito sem dissolver completamente o reconhecimento mútuo. Democracias não exigem unanimidade — exigem apenas que adversários aceitem continuar compartilhando o mesmo espaço público depois da discussão terminar.
Esse princípio parece banal até desaparecer.
Naturalmente, há exagero nostálgico em imaginar o passado como era de convivência harmoniosa. O mundo de Guareschi emergia da Europa traumatizada pela guerra, atravessada por disputas ideológicas severas, pobreza e ressentimentos históricos profundos. Não havia inocência ali. Havia, contudo, um entendimento tácito de que a vida coletiva não sobreviveria caso cada divergência se transformasse em guerra moral absoluta.
Hoje, parte do debate público brasileiro opera justamente nessa lógica absoluta. A política deixou de funcionar como interpretação distinta do bem comum e passou a funcionar como teste de pureza identitária. Pessoas são frequentemente avaliadas não por caráter, competência ou comportamento concreto, mas pelo conjunto previsível de opiniões que demonstram online.
A consequência inevitável é a simplificação humana.
Todo indivíduo real contém contradições, ambiguidades e zonas de incoerência. Mas ambientes altamente polarizados exigem personagens simples. O sujeito precisa ser integralmente herói ou integralmente vilão. Complexidade atrapalha mobilização.
Talvez seja exatamente aí que Dom Camilo e Peppone recuperem sua atualidade. Não como símbolos ingênuos de reconciliação fácil, nem como nostalgia de um mundo mais simples, mas como lembrança desconfortável de que a civilização depende de limites morais compartilhados até entre adversários.
Eles compreendiam algo que as sociedades dominadas pela politização parecem esquecer: nenhuma comunidade sobrevive quando a política se torna mais importante que a própria possibilidade de convivência. Em algum momento, depois do discurso, da eleição e da fúria cotidiana das redes, as pessoas ainda precisarão atravessar a mesma praça, comprar pão na mesma padaria e sepultar seus mortos sob o mesmo silêncio.
E talvez a maturidade democrática comece precisamente aí: no instante em que alguém percebe que o opositor político continuará sendo, apesar de tudo, seu vizinho de mundo.
Por Palmarí H. de Lucena