O País em Estado de Comentário

O País em Estado de Comentário

Naquela manhã de Brasília, o café tinha gosto de papel queimado. Não porque houvesse incêndio, mas porque as manchetes já não informavam: carbonizavam. O nome do dia era Banco Master — desses títulos pomposos que soam menos como instituição financeira e mais como personagem de romance sobre decadência moral, sempre vestido de linho caro e protegido por portas acústicas.

No balcão da padaria, um aposentado lia o jornal com a resignação de quem já assistiu ao país quebrar vezes suficientes para reconhecer o som da rachadura antes do desabamento. Ao lado, um motorista de aplicativo deslizava o dedo pelo celular, soterrado por comentários de economistas, influenciadores, parlamentares e especialistas instantâneos. Cada um oferecia uma explicação definitiva; nenhuma coincidia com a anterior. O Brasil havia se transformado num salão de espelhos, onde toda imagem reivindica autenticidade e nenhuma consegue refletir o real por inteiro.

Na televisão, o escândalo adquiria iluminação de estúdio e trilha sonora invisível. Comentários intermináveis atravessavam a programação como fumaça industrial. Especialistas surgiam em mosaicos digitais, gráficos pulsavam em telas luminosas, apresentadores franzindo a testa repetiam palavras como “governança”, “volatilidade”, “solidez”, “risco sistêmico”. A notícia já não precisava ser compreendida — bastava ser reciclada continuamente até perder qualquer densidade humana.

Havia algo de liturgia naquele espetáculo. Uma cerimônia secular conduzida ad nauseam. Os comentaristas falavam sem pausa, não necessariamente para esclarecer, mas para sustentar a sensação coletiva de que alguém ainda controlava os mecanismos ocultos da máquina. Era menos jornalismo do que encantamento ritualístico: análises sobre análises, interpretações de interpretações, um fluxo incessante de linguagem técnica funcionando como névoa moral.

E quanto mais se falava, menos se entendia.

O escândalo crescia não apenas pelo dinheiro desaparecido, pelos favores cruzados ou pelas suspeitas de promiscuidade entre capital financeiro e poder político. Crescia porque revelava um dos mecanismos mais sofisticados da corrupção contemporânea brasileira: não basta desviar recursos; é preciso também sequestrar a percepção da realidade.

Nesse campo, o país alcançou uma forma peculiar de excelência.

Enquanto técnicos discutiam cifras incompreensíveis para a maioria da população, sacerdotes do comentário instantâneo ocupavam os intervalos entre uma crise e outra. Alguns defendiam o banco com fervor quase patriótico, como se qualquer questionamento às engrenagens financeiras representasse ameaça à ordem nacional. Outros convertiam o episódio em espetáculo moralista, indignação coreografada para consumo rápido. Entre ambos, a verdade perdia contorno.

E a democracia, silenciosamente, sangrava.

Democracias raramente desaparecem apenas sob o peso de tanques ou decretos. Muitas vezes definham de maneira mais banal e mais eficaz: dissolvidas pela saturação contínua de escândalos, pela exaustão emocional de uma sociedade que já não consegue distinguir entre crise genuína e rotina administrativa. O excesso produz anestesia. O cidadão deixa de perguntar “como isso aconteceu?” e passa apenas a perguntar “qual será o próximo?”. Essa mudança, quase imperceptível, talvez seja uma das formas mais profundas de erosão democrática.

Na TV da padaria, um comentarista repetia pela quarta vez a necessidade de “preservar a estabilidade institucional”. Outro advertia sobre “reações do mercado”. Um terceiro anunciava “informações exclusivas” que já circulavam havia horas. A televisão brasileira descobriu há muito tempo que repetição produz fadiga, e fadiga produz conformismo.

O Banco Master talvez seja apenas mais um capítulo de uma longa tradição nacional de intimidade excessiva entre dinheiro e Estado. Mudam os personagens, preserva-se o método. Há sempre operadores elegantes, políticos indignados diante das câmeras e conciliadores longe delas, consultores especializados em relativizar o caos e uma população convocada a pagar a conta sem jamais participar do banquete.

O mais corrosivo, porém, não é o dinheiro perdido — dinheiro o Brasil desperdiça há séculos. O mais corrosivo é a fabricação contínua de uma realidade paralela, onde fatos competem em igualdade de condições com narrativas interessadas, onde a ética se converte em estratégia de comunicação e onde a verdade passa a depender menos de evidências do que da eficiência estética com que é apresentada.

Na República dos Escândalos, a corrupção já não precisa esconder-se. Aprendeu algo mais sofisticado: diluir-se no excesso de informação até parecer apenas mais uma opinião disponível no mercado das versões.

E assim o país continua.

O aposentado dobra o jornal.
O motorista aceita outra corrida.
O apresentador chama o intervalo.
Os analistas prometem novas revelações após os comerciais.

E a democracia brasileira, exausta, mas ainda respirando, segue tentando sobreviver entre a fumaça das narrativas e o zumbido contínuo de um país que fala sem parar — talvez justamente para evitar o risco de finalmente se escutar.

Por Palmarí H. de Lucena