O país antes da urna

O país antes da urna

Há uma cena que poderia passar despercebida em uma manhã de domingo na Avenida Paulista. Corredores seguem seu ritmo, pessoas caminham sem pressa, bicicletas atravessam a avenida, famílias ocupam as calçadas e grupos se encontram para conversar. A cidade parece encontrar, naquele intervalo, uma tranquilidade própria, como se por algumas horas a vida pudesse se desprender das disputas que ocupam o noticiário durante a semana. Não é necessariamente indiferença diante do que acontece no país. É também a vida cotidiana seguindo seu curso, com seus pequenos compromissos, seus encontros e suas pausas.

Enquanto a cidade se movimenta, entretanto, uma pesquisa de opinião oferece outro retrato do país que se aproxima das eleições. O levantamento do Pew Research Center, realizado com 1.054 adultos brasileiros entre 20 de fevereiro e 15 de abril de 2026, registra percepções sobre a democracia, as instituições e a posição do Brasil diante de seus principais parceiros internacionais. Seus resultados descrevem um determinado momento da opinião pública e não constituem previsão do comportamento eleitoral individual.

O dado que talvez melhor traduza esse cenário está na maneira como os brasileiros avaliam o funcionamento da democracia. Na pesquisa, 37% dos entrevistados disseram estar satisfeitos, enquanto 59% afirmaram estar insatisfeitos. Em 2013, quando a pergunta começou a ser feita pelo instituto, os resultados eram bastante diferentes: 66% declaravam satisfação e 32%, insatisfação.

Não seria prudente transformar essa diferença em uma explicação única para o sentimento da população. Pesquisas de opinião são retratos de um período, e percepções podem mudar conforme as circunstâncias econômicas, sociais e políticas. Ainda assim, o resultado registra uma mudança importante na maneira como parte dos brasileiros olha para a própria democracia.

A questão ganha outra dimensão quando a pesquisa trata de confiança. Segundo o levantamento, 68% dos entrevistados afirmaram ter pouca ou nenhuma confiança nos políticos eleitos para agir no melhor interesse da população. Entre os líderes empresariais, o índice foi de 57%. Em contraste, professores universitários, cientistas, policiais e jornalistas apresentaram níveis diferentes de confiança, com maioria expressando algum grau de confiança em professores, cientistas e policiais.

Esses números podem ser observados sem transformá-los em acusação contra um grupo específico. A pesquisa não diz que todos os políticos são vistos da mesma maneira, assim como não permite concluir que todos os profissionais das demais áreas desfrutem do mesmo grau de credibilidade. O que aparece é uma dificuldade mais abrangente de confiar em determinadas figuras e instituições que ocupam posições de poder, representação ou influência.

Talvez seja justamente aí que o levantamento encontre sua dimensão mais interessante. A democracia não se resume ao momento em que o eleitor entra na cabine de votação. Entre uma eleição e outra, existe uma relação contínua entre cidadãos e instituições. Há decisões públicas, serviços, informações, empresas, universidades, meios de comunicação e representantes eleitos. É nesse cotidiano, muito menos visível do que o dia da votação, que a confiança se forma, se desgasta e pode eventualmente ser reconstruída.

É possível voltar, então, àquela manhã de domingo na Paulista. O corredor não precisa pensar em política enquanto corre. A família que caminha pela avenida pode estar preocupada apenas com o almoço ou com o encontro marcado para mais tarde. Quem toma café talvez esteja mais interessado na conversa à mesa do que nos acontecimentos de Brasília. Nada disso significa ausência de cidadania. A vida cotidiana também faz parte da democracia, porque é sobre essa vida que as decisões públicas produzem consequências.

A tranquilidade de uma manhã de domingo, portanto, não deveria ser confundida automaticamente com indiferença. As pessoas não precisam estar o tempo todo envolvidas com o debate político para demonstrar que se importam com o país. Há também uma normalidade que se procura preservar: trabalhar, descansar, cuidar da família, encontrar amigos, praticar esporte e ocupar os espaços públicos. É justamente porque essas dimensões da vida cotidiana importam que as instituições precisam funcionar de modo a permitir que a sociedade siga seu curso, sem exigir de cada cidadão uma participação política constante.

A dificuldade aparece quando a distância entre a vida cotidiana e as instituições se transforma em afastamento permanente. Quando a confiança diminui, a informação passa a enfrentar uma barreira anterior à própria compreensão. Antes de perguntar o que foi dito, muita gente passa a perguntar quem está dizendo. Uma notícia pode ser examinada não apenas pelo conteúdo, mas pela identidade da fonte. Um dado pode ser recebido com desconfiança antes mesmo de sua metodologia ser conhecida. No ambiente digital, essa dificuldade ganha outra dimensão porque informação, opinião, interpretação e conteúdo falso podem aparecer lado a lado, disputando a mesma atenção.

Não se trata de atribuir à tecnologia a origem dessa desconfiança. A questão é que a velocidade da circulação de informações tornou mais difícil separar aquilo que foi comprovado daquilo que apenas parece convincente. Ao mesmo tempo em que cresce a responsabilidade individual de verificar o que se recebe, aumenta também a responsabilidade das instituições de explicar com clareza aquilo que fazem.

O levantamento mostra ainda que a percepção dos brasileiros sobre o mundo não cabe facilmente em uma divisão simples. Estados Unidos e China aparecem com avaliações favoráveis muito próximas: 47% dos entrevistados têm uma visão positiva dos Estados Unidos, enquanto 46% manifestam uma avaliação favorável da China.

Essas percepções variam ao longo do tempo e também de acordo com a posição ideológica declarada pelos entrevistados. Brasileiros que se identificam com a esquerda demonstram maior avaliação favorável da China, enquanto aqueles que se situam à direita apresentam maior avaliação favorável dos Estados Unidos.

O dado ajuda a compreender como assuntos internacionais passaram a ocupar espaço no debate cotidiano. Relações comerciais, disputas entre grandes potências e decisões de política externa já não permanecem restritas aos especialistas. Elas chegam às conversas familiares, às redes sociais e às discussões políticas, muitas vezes misturadas às diferentes interpretações que os brasileiros fazem do próprio país.

O mérito de uma pesquisa como essa está justamente em mostrar que o país não pensa em bloco. Há insatisfação com o funcionamento da democracia, mas também existem diferentes níveis de confiança em instituições e grupos. Há avaliações próximas sobre Estados Unidos e China, mas diferenças importantes conforme a posição ideológica dos entrevistados. A realidade, como quase sempre acontece quando se olha com alguma atenção para uma sociedade, é mais complexa do que as divisões que costumamos utilizar para descrevê-la.

Essa diversidade não é um problema a ser eliminado. Em uma sociedade democrática, cidadãos não precisam chegar às mesmas conclusões para compartilhar o mesmo espaço público. A divergência faz parte da vida democrática. O desafio está em preservar as condições para que opiniões diferentes continuem podendo conviver, ser discutidas, confrontadas e eventualmente revistas sem que toda discordância seja transformada em ruptura.

Por isso, os números do levantamento podem ser lidos menos como uma fotografia de vencedores e perdedores e mais como um retrato da relação que os brasileiros mantêm com suas instituições e com o mundo. A pesquisa foi realizada meses antes da votação e não permite prever o comportamento eleitoral de cada indivíduo. Seu alcance é outro: registrar o que os entrevistados pensavam naquele período.

A eleição, afinal, é apenas um dos momentos em que uma sociedade expressa suas escolhas. Depois dela, permanecem as mesmas cidades, as mesmas famílias, os mesmos locais de trabalho, os mesmos serviços públicos e muitos dos mesmos desafios econômicos e sociais. Permanece também a necessidade de convivência entre pessoas que pensam de maneiras diferentes. É nesse espaço, menos dramático do que uma campanha eleitoral e muito mais duradouro, que a democracia precisa continuar funcionando.

É nesse ponto que a confiança ganha importância. Ela não significa concordância permanente nem aceitação automática das decisões de quem governa. Confiar em uma instituição pode significar acreditar que ela está submetida a regras, que pode ser fiscalizada, questionada e responsabilizada quando necessário. Da mesma forma, discordar de uma decisão não precisa significar abandonar a crença na legitimidade das instituições.

Talvez seja possível compreender melhor essa ideia voltando à Paulista. O que se vê em uma manhã tranquila não é um país sem problemas. Também não é necessariamente um país indiferente. É um país vivendo. Pessoas diferentes ocupam o mesmo espaço, seguem seus próprios caminhos e, por algumas horas, dividem uma avenida sem precisar concordar sobre tudo. Há algo de profundamente democrático nessa convivência cotidiana, ainda que ela passe despercebida.

O Brasil que aparece na pesquisa chega às eleições carregando dúvidas, diferenças e uma relação complexa com suas instituições. Não é necessário transformar essas dúvidas em pessimismo, assim como não seria adequado ignorá-las. Entre uma coisa e outra existe o espaço da reflexão, onde a sociedade pode observar seus próprios problemas sem permitir que sejam explicados por uma única narrativa.

No fim, talvez o dado mais importante não esteja em saber quem confia mais ou menos em determinado grupo, nem em transformar percentuais em julgamentos definitivos. O que importa é perceber que uma democracia depende também da qualidade da relação entre cidadãos e instituições. Essa relação não pertence a um partido, a um governo ou a uma corrente política. É construída lentamente, no cotidiano, pela transparência, pela informação, pela fiscalização e pela disposição de conviver com a diferença.

A urna registra uma escolha em um determinado dia. A confiança, ao contrário, é construída muito antes e muito depois dela. Talvez seja por isso que aquela manhã de domingo tenha alguma coisa a nos ensinar. Enquanto corredores, famílias, ciclistas e caminhantes seguem pela Paulista, a democracia continua acontecendo em uma dimensão menos visível, feita de escolhas cotidianas, instituições que precisam prestar contas e cidadãos que, mesmo quando não estão falando de política, continuam dependendo dela.

No intervalo entre uma eleição e outra, é nesse cotidiano que uma sociedade revela quanto ainda acredita na capacidade de suas instituições e na possibilidade de construir um futuro comum.

Palmarí H. de Lucena