Há formas de reconhecimento que não se anunciam pelo nome. Um rosto pode atravessar uma sala, uma rua ou o saguão de um aeroporto antes que alguém consiga lembrar a quem pertence. Durante alguns segundos, ele permanece suspenso numa região imprecisa da memória, até que uma personagem, uma cena ou uma história venha ocupar o lugar da identificação. Foi assim que, durante a exibição de Velho Chico, o rosto de Zezita Matos passou a encontrar o público também fora da tela. Nem sempre vinha primeiro o nome da atriz. Às vezes, chegava antes uma lembrança: a mãe do Santo.
A expressão contém, em sua simplicidade, uma pequena história sobre a televisão. Durante meses, uma personagem entra regularmente nas casas de pessoas que jamais conhecerá. Surge enquanto alguém termina o jantar, atravessa a sala onde outra pessoa conversa, acompanha noites comuns e se incorpora, pouco a pouco, à paisagem doméstica. Ao fim desse processo, a personagem pode adquirir uma espécie de familiaridade que não pertence inteiramente à ficção. Quando o ator reaparece no mundo exterior, o público traz consigo essa convivência imaginária.
Piedade ocupava em Velho Chico uma posição que dispensava grandes proclamações. Sua presença se construía entre os conflitos de uma família, as inquietações de uma mãe e a paisagem moral de um mundo em transformação. Havia nela menos a necessidade de dominar os acontecimentos do que a condição de permanecer próxima deles. Observava, aconselhava, sofria as consequências de decisões tomadas por outros e, em determinados momentos, parecia carregar a difícil tarefa de manter alguma continuidade onde tudo começava a se deslocar.
Talvez por isso a personagem tenha encontrado tantas referências fora de si mesma. Algumas pessoas diziam reconhecer nela a própria mãe; outras, uma avó. Não se tratava, naturalmente, de uma semelhança literal. Nenhuma personagem consegue conter todas as pessoas que o público nela reconhece. O que ocorre é mais discreto: um gesto encontra uma lembrança, uma maneira de falar convoca outra voz, um silêncio parece pertencer a uma história anterior. A ficção oferece uma forma, e a memória pessoal se encarrega de preenchê-la.
Zezita Matos conhecia, antes da televisão, outros ritmos de reconhecimento. O teatro e o cinema haviam constituído sua trajetória dentro de uma escala diferente, feita de plateias, sessões, temporadas e encontros menos frequentes. A televisão alterava essa proporção. O rosto que antes dependia de determinados espaços passava a entrar diariamente em milhares de casas e, depois, reaparecia nas ruas sob o olhar de pessoas que acreditavam, de algum modo, já conhecê-lo.
Um amigo chegou a brincar que seriam necessárias canetas especiais para tantos autógrafos. A observação pertence hoje a uma pequena arqueologia recente. A fotografia digital alterou rapidamente a natureza desses encontros. O autógrafo, objeto que exigia uma assinatura e deixava uma marca física, cedeu espaço ao registro instantâneo. O encontro passou a produzir sua própria imagem quase no mesmo momento em que acontecia.
Nada disso, entretanto, eliminava a antiga inquietação do ofício. Zezita falava do frio na barriga que continuava a anteceder o trabalho, como se a experiência acumulada não tivesse transformado a atuação numa região completamente conhecida. Sem formação acadêmica em Artes Cênicas, sua trajetória havia sido construída pela prática, pelo teatro, pelo cinema e pelo aprendizado sucessivo que cada trabalho impõe. Havia, nessa descrição, menos a ideia de uma carreira concluída do que a de um percurso ainda sujeito a descobertas.
Em Velho Chico, esse percurso encontrava uma matéria particularmente próxima: o Nordeste não aparecia apenas como cenário. O rio, as cidades, os modos de falar e as relações humanas constituíam parte da própria narrativa. Para uma atriz cuja experiência de vida incluía esse universo, a proximidade não significava simplesmente reproduzir a realidade. A personagem continuava sendo uma construção. Mas nenhuma construção começa num espaço inteiramente vazio. A memória, a linguagem e a observação costumam entrar no trabalho por caminhos que nem sempre se deixam identificar.
Entre Zezita e Piedade permanecia, portanto, a distância necessária entre uma pessoa e uma personagem. Uma não podia ser reduzida à outra. Ainda assim, havia zonas de contato: experiências culturais, paisagens conhecidas, maneiras de compreender certas relações e a familiaridade com um mundo que a novela procurava organizar em ficção.
Quando uma obra televisiva termina, suas personagens seguem destinos desiguais. Algumas desaparecem quase imediatamente, substituídas pela narrativa seguinte. Outras permanecem durante algum tempo em conversas, lembranças e reconhecimentos ocasionais. Não é raro que sobrevivam menos por aquilo que fizeram do que pelo lugar que passaram a ocupar na imaginação de quem as acompanhou.
Piedade parecia ter encontrado esse segundo caminho. Em determinados encontros, o nome de Zezita Matos podia esperar alguns instantes. Antes dele vinha a lembrança de uma mulher vista muitas vezes diante da televisão, situada numa família conhecida, numa paisagem atravessada pelo São Francisco, numa história que já havia terminado, mas que continuava disponível na memória de quem a acompanhara.
Depois, finalmente, vinha o nome.
Ou talvez não viesse.
Às vezes, para uma personagem, basta ter encontrado um lugar suficientemente preciso na memória dos outros para continuar existindo sob outra forma.Parte superior do formulário
Palmarí H. de Lucena