O Messias, de Händel: a música, a memória e as feridas do mundo

O Messias, de Händel: a música, a memória e as feridas do mundo

Entre Nova Iorque, São Francisco e Avignon

Há músicas que ficam ligadas a um lugar e a um tempo da nossa vida. Voltamos a ouvi-las anos depois e, sem regressarmos verdadeiramente ao passado, reconhecemos alguma coisa de quem fomos. O Messias, de Georg Friedrich Händel, ocupa esse lugar na minha memória.

Recordo uma noite de inverno em Nova Iorque. A cidade continuava no seu movimento, indiferente ao frio e às histórias de quem atravessava as ruas. Foi nessa noite que escutei O Messias. Não sei se era o inverno que tornava a música mais recolhida ou se era eu que precisava daquele espaço de silêncio. Sei que, por momentos, a obra me levou para além da agitação da cidade. A emoção não era apenas musical; tocava algo que eu não saberia então explicar.

Só mais tarde compreendi que certas experiências não terminam quando a música acaba. Outras recordações vêm dar-lhes novos sentidos.

Uma dessas recordações está ligada à minha filha. Ela costumava cantar O Messias em São Francisco, com outras pessoas da cidade. Não estive presente nessas ocasiões e não posso evocá-las como uma memória minha. Sei delas através da história da vida dela.

Ainda assim, essa experiência aproxima-se da minha. A mesma obra que escutei em Nova Iorque fez parte da vida da minha filha, noutro lugar e noutras circunstâncias. Não partilhámos aqueles momentos, mas a música criou entre eles uma ligação que reconheço agora, ao olhar para trás.

Foi com estas recordações que voltei a escutar O Messias na igreja de Saint-Symphorien-les-Carmes, em Avignon.

A igreja acolhia a música entre a arquitetura antiga e as paredes de pedra. O som parecia permanecer no espaço depois de cada nota. Nas passagens mais delicadas, a voz solista aproximava-se quase em confidência; nos grandes momentos corais, a música abria-se e enchia a igreja.

Mas não era apenas o passado que me acompanhava. Era também o presente, com as suas inquietações e contradições.

Como ouvir uma obra atravessada pela consolação, pelo sofrimento e pela redenção sem pensar na brutalidade que marca o mundo? Como deixar-me envolver pela beleza musical sem me lembrar das guerras, das populações expulsas das suas casas, das crianças privadas de segurança e de quem vive sob a violência ou o abuso de poder?

A corrupção inquieta-me não apenas pelo que destrói materialmente, mas pelo que corrói por dentro: a confiança nas instituições, o sentido de justiça e a convicção de que a dignidade humana deve estar acima dos interesses particulares. Quando o poder deixa de ser entendido como responsabilidade, os mais vulneráveis pagam demasiadas vezes o preço. E, quando a brutalidade se instala na vida pública, corremos o risco de nos habituarmos ao inaceitável.

É essa habituação que mais me inquieta. As notícias sucedem-se, as imagens repetem-se, e o sofrimento corre o risco de se tornar familiar. A indignação cansa; o espanto transforma-se em rotina. Podemos continuar informados e, ainda assim, perder a proximidade humana com a dor dos outros.

Foi neste estado de espírito que as palavras de Isaías adquiriram para mim uma ressonância especial: Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu (Isaías 9:6, na numeração habitual das Bíblias cristãs).

Na tradição cristã, este versículo está associado à promessa messiânica que atravessa O Messias. Ao ouvi-lo, penso nas crianças do nosso tempo: nas que nascem em territórios devastados pela guerra, nas que têm de fugir, nas que perdem os pais e nas que aprendem demasiado cedo a ter medo.

Há algo de doloroso no contraste entre a imagem de uma criança que chega ao mundo e a realidade daqueles que não encontram segurança para crescer. O nascimento contém a possibilidade de um começo; a violência pode destruí-la antes mesmo de se desenvolver.

Não pretendo separar estas palavras da sua origem religiosa nem reduzir o seu significado teológico a uma leitura política. Mas a passagem leva-me a pensar no que significa acolher a vida, proteger os mais frágeis e reconhecer que ninguém deve ser privado da sua dignidade por causa da guerra, da ambição ou dos interesses de quem exerce o poder.

A música não pode deter uma guerra, reparar uma injustiça ou devolver a uma família aquilo que perdeu. Não lhe peço o que só as decisões humanas podem fazer. Mas talvez a arte nos impeça de aceitar a realidade sem resistência; pode despertar a atenção e lembrar-nos que, por detrás de cada notícia, há uma vida que não cabe num número.

Foi assim que escutei o Hallelujah naquela igreja de Avignon. A força do coro, a amplitude das vozes e o brilho da orquestra provocaram uma emoção que ia além da admiração pela composição. Havia uma tensão entre a exaltação musical e o mundo que eu trazia comigo. Já não conseguia ouvir aquela celebração como se todas as promessas estivessem cumpridas. O júbilo confrontava-me com a distância entre a paz que desejamos e a violência que continuamos a produzir. Essa distância não anulava a beleza da obra; tornava-a mais exigente.

Impressionou-me também a união das vozes. Cada uma mantinha a sua identidade e, ainda assim, contribuía para uma construção comum. A harmonia nascia do encontro e da escuta. Não sei se a música nos ensina a viver juntos, mas permite-nos ouvir, por instantes, como essa possibilidade poderia soar.

Ao longo do concerto, as recordações cruzavam-se com estas reflexões. A noite de inverno em Nova Iorque, a experiência da minha filha em São Francisco — que conheço sem ter presenciado — e a escuta presente em Avignon pertenciam a tempos distintos. Não foram momentos vividos em conjunto, mas a música ajudou-me a reconhecer a ligação entre eles.

Senti gratidão por essa ligação entre lugares e tempos, mas percebi também que a emoção não podia ficar dentro da igreja. Se a música me aproximava da compaixão e me fazia pensar na dignidade humana, essa inquietação tinha de me acompanhar para fora do concerto.

Não acredito que um concerto transforme, por si só, a realidade política ou social. A corrupção não desaparece com uma ária, a brutalidade não cessa com um coro e as vítimas das guerras não recuperam a segurança porque alguém se comoveu perante uma obra-prima. Mas talvez possamos sair de uma experiência artística menos dispostos a aceitar a indiferença como inevitável. Essa mudança começa na maneira como olhamos para os outros, na atenção que concedemos ao sofrimento e na recusa de confundir poder com impunidade.

Quando o concerto termina, as vozes calam-se e a igreja regressa ao silêncio. Fico com perguntas que a música não resolveu. Como preservar a dignidade humana num mundo em que a violência, a corrupção e o abuso de poder continuam a destruir vidas? Como evitar que a repetição destas injustiças nos habitue ao que nunca deveria ser aceite?

Penso na minha filha, que cantava O Messias em São Francisco, embora eu não tenha estado presente. Penso na distância entre a beleza que acabei de escutar e a realidade de tantas pessoas privadas de segurança, liberdade e futuro. Não encontro uma resposta definitiva; reconheço apenas que não devo separar aquilo que me comove daquilo que considero justo.

A justiça, a compaixão e o respeito pela dignidade humana não se cumprem na grandiosidade de um coro. Dependem das escolhas que fazemos, da responsabilidade que assumimos e da coragem de não aceitar a indiferença como destino. A beleza não deve servir de refúgio contra a realidade: deve ajudar-nos a enfrentá-la.

A noite de inverno em Nova Iorque pertence à minha memória; cantar em São Francisco pertence à história da minha filha; o concerto em Avignon é uma experiência que vivi. Não preciso de confundir estas histórias para perceber o que as liga.

Ao sair da igreja, não levo uma resposta para as feridas do mundo. Levo uma pergunta e uma exigência dirigida a mim própria: não me habituar à brutalidade, não confundir impotência com indiferença e procurar, nas escolhas quotidianas, estar à altura dos valores que me comovem.

Palmarí H. de Lucena