O maestro e o coronel

O maestro e o coronel

Folclore, palavra mágica na concha acústica que chamávamos de nossa casa. Cantavam, dançavam, declamavam. Dentro de alpargatas, marcando o ritmo, pés calejados e precariamente espremidos. Menestréis de rua, índios africanos, cangaceiros e marinheiros da nau. Conviviam juntos, o audacioso, o imaginário e o absurdo. Poetas loucos, loucos poetas.Embrulhados e atados com o barbante da cultura do povo. A realidade se perdia entre nuvens movidas por cânticos e lamentos de terras distantes.

Tenente Lucena, Grand Vizir do pequeno terraço. Guardião da porta, Sublime Porta do popular e do genérico. Artistas, ex-presidiários, meninos de rua, músicos folclóricos, torcedores do Flamengo, cegos, surdos e mudos. Seu Belarmino, negro, pobre, ex- presidiário e doente, factótum, por falta de melhor designação, testemunhava as histórias com respeitosa distância, eram amigos desde a penitenciária.

Partimos, voltamos, partimos.Moto perpétuo. Vida girando ao redor de si própria, diminuindo em cada giro. Convergindo no infinito possível das nossas imaginações, pai e filho desfrutando suas vidas assimétricas. Instalado confortavelmente numa cadeira de balanço, mãos cruzadas sobre a barriga, olhos semi-abertos, duas réstias de luz brilhando intensamente. Fazíamos o mundo bem pequeno.

Rosto e corpo mostravam a verdade, algo havia mudado. A verdade que ninguém queria aceitar. A sigla CA, duas letras do bê-á-bá explicavam tudo, sem a cadência melódica de vozes infantis. Conversamos sobre as sutilezas, malefícios e limitações impostas pela doença. Ira e tristeza superavam outros sentimentos. Decidimos que nosso próximo encontro seria na África.

Finalmente a África. Telefonema urgente da segurança do hotel. Detiveram um homem branco agindo suspeitosamente. Tinha o nosso sobrenome, Lucena. Penetrara indevidamente um congresso de lideres árabes e africanos contra o colonialismo, o imperialismo, o capitalismo e o apartheid. O Tenente Lucena assumira que o evento era uma espécie de maracatu, a música alegre e as indumentárias coloridas o confundiram. Entrara enquanto os participantes ouviam atentamente o discurso de um homem em traje de beduíno. O “rei do maracatu” era o Coronel Ghadaffi da Líbia.

Palmari H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores (U.B.E.)