O Macondo de Gustavo Petro em Tempos de Trump

O Macondo de Gustavo Petro em Tempos de Trump

Em tempos de Trump, a política voltou a ser escrita com as tintas do realismo mágico. O improvável tornou-se rotina, o insulto virou argumento, e o poder, espetáculo. Donald Trump, num de seus arroubos de campanha, acusou o presidente colombiano Gustavo Petro de ser um “líder de drogas ilegal” — como se a história latino-americana fosse um romance mal lido, onde o Norte dita a trama e o Sul apenas serve de cenário.

A cena parece saída de Amor em Tempos de Cólera: duas forças separadas por décadas de desconfiança, incapazes de se compreender, presas a uma paixão destrutiva. Como Fermina Daza e Florentino Ariza, os Estados Unidos e a Colômbia vivem uma relação marcada por afeto mal correspondido, promessas quebradas e saudade de um tempo em que acreditavam amar-se. Só que agora, em vez de cartas de amor, trocam comunicados diplomáticos. E no lugar do cólera, há a febre do populismo.

Trump fala como quem escreve uma carta de ruptura — teatral, melodramática, carregada de ressentimento. Sua acusação não nasce de fatos, mas de feridas narcísicas. Ao suspender a ajuda financeira e insinuar punições econômicas, ele tenta transformar um desentendimento político em um duelo pessoal. Em sua lógica, o mundo precisa de vilões para justificar o retorno do herói. É o mesmo delírio dos amantes possessivos: se o outro busca autonomia, é porque já não ama o suficiente.

Petro responde com a calma de quem conhece o peso das palavras. “Não sou comerciante, muito menos traficante”, disse, devolvendo à ofensa o peso do absurdo. Sua Colômbia não é mais o país submisso das missões de “combate às drogas”, mas uma nação que busca reinventar o amor — o amor pela própria soberania. Ele propõe uma política diferente, menos bélica e mais humana, e nisso há algo da paciência de Florentino, que esperou meio século para ver o amor resistir ao tempo e à doença.

Trump, no entanto, é incapaz de esperar. Vive da urgência, do espetáculo, do impulso. É um Florentino invertido: ama o poder, não a humanidade; corteja o caos, não o diálogo. Sua retórica é epidêmica — espalha-se com a velocidade do cólera entre os que confundem fúria com verdade.

E assim seguimos: entre insultos e desconfianças, o continente tenta salvar-se da febre. A Colômbia, como Macondo, resiste às pragas, às guerras e às maldições impostas de fora. Em meio à doença do populismo, há quem ainda acredite que a diplomacia pode ser uma forma de amor — aquele amor obstinado que, mesmo em tempos de cólera, insiste em acreditar na razão e na ternura.

Talvez Petro represente isso: a tentativa de amar um país sem ser possessivo, de defender a dignidade sem precisar odiar ninguém. Trump, ao contrário, parece condenado à solidão dos patriarcas que confundem aplausos com eternidade. No fim, como nas histórias de García Márquez, restará apenas o silêncio das praças, o perfume das flores amarelas e a lembrança de que, entre delírio e esperança, a humanidade ainda tenta amar em tempos de cólera — e resistir em tempos de Trump.

Por Palmarí H. de Lucena