Entre reformas sucessivas e projetos pouco explicados, um dos espaços mais simbólicos de João Pessoa perde gradualmente sua identidade urbana.
Poucos lugares já concentraram tanta vida cotidiana quanto o Ponto de Cem Réis. Ali João Pessoa se encontrava — para conversar, namorar, assistir cinema, discutir política ou simplesmente observar o movimento da cidade. Hoje, porém, aquele velho centro urbano parece atravessar um processo silencioso de apagamento.
Durante décadas, a praça foi mais do que um ponto do centro: era um pequeno universo urbano onde a capital parecia caber inteira. Bastava atravessá-la para perceber que ali havia mais do que trânsito e comércio — havia convivência, encontros e memória.
Ali começavam — ou terminavam — namoros nas mesas da antiga Sorveteria Canadá, entre sorvetes que derretiam devagar e promessas feitas com a leveza da juventude. Na esquina da Casa Cruz, também conhecida com esquina do pecado, marcavam-se encontros rápidos que muitas vezes se transformavam em longas conversas sem que ninguém percebesse o tempo passar.
Também havia os curiosos dos idiomas estrangeiros. Jovens se reuniam para ouvir — e tentar falar — inglês, espanhol, francês ou alemão. Por algumas horas, o centro da cidade assumia o ar de uma pequena torre de Babel pessoense.
Em outro canto surgia uma partida de xadrez improvisada, muitas vezes jogada sobre a tampa de um fiteiro fechado. Em volta, formava-se uma pequena plateia improvisada comentando cada lance com a mesma paixão dedicada ao futebol ou à política.
E, quando a tarde avançava, muitos atravessavam a praça rumo ao Cine Plaza para uma matinê. O cinema era coletivo e vibrante — e o Ponto de Cem Réis funcionava como uma espécie de vestíbulo da vida cultural da cidade.
Era ali que João Pessoa se encontrava.
Hoje, porém, quem atravessa a praça encontra outra paisagem. O espaço parece viver em permanente intervenção. Reformas se sucedem, estruturas mudam, o desenho urbano é alterado e o lugar que antes possuía identidade clara tornou-se um território de transformações contínuas.
Diante da praça permanece o antigo Paraíba Palace Hotel, testemunha silenciosa de uma época em que o centro concentrava boa parte da vida social da capital. Foi ali por perto que discursos oficiais prometeram revitalização e novos tempos para aquele espaço histórico.
As promessas ficaram.
As obras também.
O que raramente aparece é uma explicação clara sobre o projeto final. A praça muda, mas o sentido dessas mudanças permanece difuso para quem observa.
Enquanto isso, a população acompanha.
E paga.
Pouco se informa sobre o custo total dessas intervenções ou sobre o prazo real para que o espaço alcance um desenho definitivo. Reformas se sucedem, gestões passam e o Ponto de Cem Réis continua sendo redesenhado.
Transformar a cidade não é problema. Cidades precisam mudar e adaptar seus espaços às novas dinâmicas urbanas. O que inquieta é quando essas mudanças ocorrem sem planejamento transparente e sem respeito pela memória que ajudou a construir o significado do lugar.
O Ponto de Cem Réis não era apenas uma praça. Era um capítulo da vida cotidiana de João Pessoa, um ponto de convergência de encontros, histórias e experiências urbanas.
Quando um espaço assim perde suas referências — encontros, cinemas, conversas e jogos improvisados — algo mais profundo se dissolve junto com o concreto antigo.
Cidades podem renovar praças e redesenhar avenidas. Mas quando começam a apagar os sinais de sua própria memória, produzem um paradoxo: um espaço novo, porém desprovido de significado.
Se o Ponto de Cem Réis está sendo reinventado, a cidade tem o direito de saber qual é o projeto — e quanto está pagando por esse lento apagamento de um dos lugares mais emblemáticos de João Pessoa.
Por Palmarí H. de Lucena
A faísca desta crônica nasceu de uma postagem de Humberto de Almeida no Facebook.