Talvez não seja a melhor opção insistir em enxergar a política como um campo de caça permanente, onde cada crise exige a invenção de um inimigo e cada impasse pede um confronto moral absoluto. Há algo de excessivo — quase teatral — nessa necessidade de perseguição contínua, como se governar fosse menos um exercício de construção paciente e mais uma encenação de conflito permanente. O país, nesse registro, deixa de ser espaço de convivência imperfeita e passa a funcionar como cenário de embate, no qual o gesto importa mais do que o resultado.
Nesse ambiente, consolidou-se um traço recorrente da paisagem política brasileira: ninguém é julgado — ainda que com pleno direito ao contraditório — sem antes se declarar vítima de perseguição. O julgamento deixa de ser compreendido como procedimento institucional e passa a ser vivido como agressão pessoal. A responsabilidade, então, se dissolve no discurso, substituída por narrativas de hostilidade e conspiração.
Essa recusa ao julgamento não é apenas retórica; ela é sintomática. Ser julgado é parte da vida em comum; tratá-lo sistematicamente como perseguição é negar a própria condição de convivência sob regras. Quando o simples escrutínio público é percebido como violência, algo essencial se desloca na relação entre poder, lei e cidadania.
O Estado de Direito pressupõe justamente aquilo que se tornou raro no debate público contemporâneo: a disposição de submeter-se ao julgamento sem transformar o processo em drama moral. As garantias existem para assegurar defesa e equilíbrio, não para converter toda responsabilização em encenação de vitimização. Onde toda aplicação da lei é lida como perseguição, a norma deixa de ser linguagem comum e passa a ser tratada como instrumento hostil.
Essa dificuldade dialoga com uma tradição mais profunda do pensamento político. Desde Thomas Hobbes, o Leviatã figura como uma das metáforas mais duradouras para compreender a relação entre poder, ordem e liberdade. Em Leviatã (1651), o Estado surge não como ideal moral elevado, mas como resposta prática ao risco da desordem. Diante da “guerra de todos contra todos”, os indivíduos aceitam limitar parte de sua liberdade em favor de uma autoridade comum capaz de estabilizar expectativas e conter a violência.
O Leviatã hobbesiano é temido, mas necessário. Sua legitimidade reside na capacidade de impor limites — inclusive aos que exercem poder — e garantir a previsibilidade mínima da vida social. Sem ele, instala-se o caos; contra ele, dissolve-se o pacto.
Ao longo do tempo, porém, a metáfora se tornou ambivalente. Estados hipertrofiados, burocracias opacas e poderes que se autonomizam em relação à sociedade passaram a ser descritos como novos Leviatãs — não mais apenas garantidores da ordem, mas potenciais fontes de opressão. O monstro, antes protetor, passa a inspirar desconfiança.
O paradoxo contemporâneo está aí: rejeita-se o Leviatã quando ele julga, mas clama-se por sua força quando ele protege interesses próprios. Exige-se autoridade sem aceitar o custo do limite; reivindica-se o Estado quando convém, mas denuncia-se perseguição quando ele age segundo regras que contrariam expectativas individuais.
A política moderna vive dessa tensão. Entre a ausência de poder, que conduz à desordem, e o excesso de poder, que ameaça a liberdade, resta o espaço estreito da responsabilidade institucional. O Leviatã jamais pode ser eliminado — apenas contido. E contê-lo exige algo cada vez mais escasso: maturidade cívica para aceitar o julgamento como parte da vida comum, e não como ofensa pessoal.
Talvez o verdadeiro risco não esteja no monstro, mas na recusa coletiva de reconhecer que sem regras compartilhadas — e sem a disposição de responder por atos — nenhuma convivência é possível. Onde tudo é perseguição, nada é responsabilidade. E onde nada pode ser julgado, a própria ideia de Estado de Direito começa a se desfazer.
Por Palmarí H. de Lucena