O ilusionismo do poder no século XXI

O ilusionismo do poder no século XXI

Um leitor da crônica Quando isso não pode acontecer aqui, acontece sintetizou com precisão um traço inquietante do nosso tempo: o autoritarismo contemporâneo tem se apresentado, cada vez mais, como um espetáculo viciante — algo próximo aos capítulos de uma novela extremista ou à lógica narrativa de um filme de ilusionismo. A observação não é casual. Ela revela um deslocamento profundo na forma como o poder se comunica, se legitima e se reproduz.

Durante boa parte do século XX, regimes autoritários se impunham por meio da força explícita, da censura direta e da ruptura institucional aberta. Hoje, em muitas partes do mundo, o método é outro. O autoritarismo aprende a falar a linguagem do entretenimento. Troca o discurso doutrinário pela encenação, a coerência pela surpresa, o argumento pelo impacto emocional. Não busca convencer; busca capturar a atenção.

Nesse ambiente, a política passa a funcionar como uma série interminável. Cada crise vira episódio; cada declaração, um gancho de suspense; cada escândalo, uma estratégia de engajamento. O cidadão deixa de ser sujeito deliberativo e se transforma em espectador — alguém que acompanha, comenta, torce, mas raramente reflete. A democracia, que exige tempo, mediação e racionalidade, passa a competir em desvantagem com narrativas simplificadas e emocionalmente carregadas.

A alegoria cinematográfica ajuda a compreender o mecanismo. Em Golpe de Mestre, dirigido por Louis Leterrier, o essencial não está no truque em si, mas na distração cuidadosamente construída. Enquanto o público se encanta com a coreografia, a ilusão se completa sem resistência. Algo semelhante ocorre quando a política se converte em espetáculo: o excesso de cena neutraliza o pensamento crítico. O público aceita o enredo não porque seja verdadeiro, mas porque é envolvente.

Nesse contexto, lideranças populistas — de diferentes matizes ideológicos e distribuídas por diversas democracias — aprenderam a explorar o palco global. Dominam o tempo das redes, produzem conflito permanente e transformam a instabilidade em método. O caos deixa de ser efeito colateral e passa a integrar a encenação. A saturação informativa, paradoxalmente, gera apatia: quando tudo é urgente, nada é pensado com profundidade.

O risco maior não está apenas na erosão das instituições, mas na corrosão silenciosa da cultura democrática. Quando o debate público se reduz a slogans, gestos performáticos e confrontos encenados, o senso crítico se enfraquece. E, sem ele, a democracia perde seu principal antídoto contra o abuso de poder. Não é preciso fechar parlamentos ou suspender eleições: basta transformar a política em um fluxo contínuo de distração.

A história mostra que democracias raramente colapsam de um dia para o outro. Elas se desgastam. Perdem densidade. Tornam-se incapazes de distinguir entre realidade e encenação. O alerta do leitor, portanto, é mais que pertinente. Quando a política se converte em entretenimento puro, o público pode até aplaudir — mas já deixou de participar. E uma democracia sem participação consciente não cai com estrondo: desaparece em silêncio, sob as luzes do palco.

Por Palmarí H. de Lucena