Há um momento em que a música deixa de ser apenas uma sucessão de notas e passa a revelar algo que sempre esteve diante de nós, mas que a pressa nos impede de perceber. É quando ela parece devolver à natureza a sua própria voz. Sempre que escuto a Cantilena, das Bachianas Brasileiras nº 5, de Heitor Villa-Lobos, e El Cant dels Ocells, a antiga melodia catalã que Pablo Casals tornou conhecida em todo o mundo, tenho a impressão de estar diante dessa rara experiência. São obras nascidas em circunstâncias distintas, separadas por oceanos, culturas e histórias, mas unidas por uma mesma capacidade de fazer o ouvinte recordar que, muito antes de existirem conservatórios e salas de concerto, já havia pássaros cantando.
Essa aproximação não pretende estabelecer uma influência entre Villa-Lobos e Casals. Não há registros que autorizem essa conclusão. O parentesco entre essas obras nasce em outro lugar: na sensibilidade de quem as escuta. Algumas músicas parecem conversar entre si sem jamais terem se encontrado, porque partilham uma mesma visão do mundo. É nesse território da imaginação, onde a arte aproxima o que a história não precisa explicar, que a Cantilena e El Cant dels Ocells se encontram.
Villa-Lobos costumava dizer que aprendera tanto com o canto dos pássaros quanto com os tratados de composição. A frase, tantas vezes repetida, não deve ser entendida como mero recurso poético. Sua obra inteira testemunha uma escuta atenta da paisagem brasileira. Os rios, as matas, os pregões das cidades, as cantigas populares e a extraordinária diversidade sonora do país alimentaram uma linguagem musical que jamais perdeu o vínculo com a natureza.
Quando compôs as Bachianas Brasileiras, Villa-Lobos realizou um gesto de rara originalidade. Em vez de imitar Johann Sebastian Bach, aproximou o espírito construtivo do compositor alemão da riqueza melódica do Brasil. Não procurou vestir a música brasileira com roupas europeias, nem transformar Bach em um compositor tropical. Fez algo mais profundo: demonstrou que duas tradições aparentemente distantes podiam dialogar sem que nenhuma delas renunciasse à própria identidade.
Na Cantilena, esse encontro alcança um equilíbrio singular. A voz humana parece surgir da própria massa sonora dos violoncelos, como se não estivesse acima da natureza, mas integrada a ela. Não há a intenção de reproduzir literalmente o canto de uma ave. O que se percebe é uma respiração comum, um fraseado que avança com a liberdade de quem conhece o ritmo do vento, da água e das árvores. A melodia não descreve uma paisagem; ela convida o ouvinte a habitá-la.
Com Pablo Casals, o caminho foi diferente. El Cant dels Ocells pertence ao patrimônio da tradição popular catalã e, originalmente, celebra o nascimento de Cristo por meio do canto das aves. Casals encontrou nessa melodia muito mais do que uma bela canção. Depois da Guerra Civil Espanhola, recusando-se a reconhecer a legitimidade da ditadura franquista, viveu longos anos de exílio e passou a encerrar muitos de seus concertos interpretando essa peça ao violoncelo. Aos poucos, aquela antiga melodia tornou-se inseparável de sua figura e adquiriu um significado que ultrapassava a devoção religiosa. Transformou-se em um discreto manifesto em favor da paz, da dignidade humana e da liberdade.
É significativo que, em ambas as obras, os pássaros não apareçam como simples ornamentos da paisagem. Eles representam uma forma de permanência. Continuam cantando apesar das guerras, das fronteiras, das mudanças políticas e das inquietações humanas. Seu canto ignora os mapas e as ideologias. Pertence a um tempo mais antigo do que o nosso e talvez por isso desperte a sensação de que existe uma ordem silenciosa sustentando aquilo que julgamos passageiro.
Nesse ponto, a presença de Bach deixa de ser apenas uma referência histórica para adquirir um significado mais amplo. Casals dedicou boa parte da vida a revelar ao mundo a extraordinária beleza das Suítes para Violoncelo Solo, contribuindo decisivamente para que ocupassem o lugar que hoje possuem na história da música. Villa-Lobos escolheu Bach como interlocutor porque reconhecia nele uma arquitetura sonora capaz de atravessar séculos sem perder o frescor. Para ambos, Bach não era apenas um compositor; era uma maneira de compreender a música como expressão de equilíbrio, clareza e humanidade.
Talvez seja justamente essa permanência que aproxima esses três universos. Bach organizava os sons como quem reconhece uma ordem escondida no mundo. Villa-Lobos escutava essa mesma ordem nas matas brasileiras, onde cada canto de ave parecia encontrar naturalmente o seu lugar. Casals, ao fazer de uma antiga melodia popular a voz de seu exílio, mostrou que até a esperança pode ser preservada dentro de uma simples canção.
Vivemos, entretanto, em um tempo de ruídos incessantes. As cidades crescem, as máquinas ocupam os espaços antes reservados ao silêncio, e a atenção humana se fragmenta em incontáveis estímulos. Talvez por isso essas músicas continuem nos comovendo. Elas não oferecem respostas nem pretendem descrever a natureza como uma fotografia sonora. Fazem algo mais delicado: restituem ao ouvido a capacidade de contemplar.
Depois que a última nota desaparece, instala-se um silêncio diferente. Não é o vazio deixado pelo fim da música, mas um silêncio povoado de lembranças. O ouvinte tem a impressão de que o concerto prossegue além da sala, misturando-se ao vento que atravessa as árvores, ao rumor distante da água ou ao canto de uma ave que ninguém consegue localizar. Nesse instante compreendemos que a música não terminou; apenas voltou ao lugar de onde talvez nunca devesse ter saído.
Há quem diga que a arte imita a natureza. Outros preferem afirmar que a natureza inspira a arte. Talvez nenhuma dessas afirmações seja suficiente. Há momentos em que ambas parecem falar o mesmo idioma, dispensando traduções. Um idioma sem fronteiras, anterior às palavras, no qual uma floresta brasileira, uma montanha catalã e uma fuga de Bach podem compartilhar a mesma respiração.
Talvez seja esse o verdadeiro idioma dos pássaros. Não uma linguagem que possa ser escrita em partituras ou traduzida por dicionários, mas uma forma de escuta que nos recorda uma verdade antiga: a música é mais duradoura quando nasce da humildade de quem primeiro aprendeu a ouvir. Antes dos compositores, antes dos instrumentos e antes mesmo das grandes civilizações, já existia uma melodia atravessando as manhãs. Os pássaros nunca deixaram de cantá-la. Cabe a nós, de vez em quando, reaprender a escutá-la.
Palmarí H. de Lucena
Dedico esta crônica, in memoriam, ao meu professor de violoncelo, Juarez Johnson, que me mostrou a vereda da beleza e os caminhos de Bach, Villa-Lobos e Casals. Não me tornei violoncelista, mas, graças ao seu exemplo e ao seu ensinamento, tornei-me um apaixonado por todas as formas de música.