Voltar a João Pessoa não foi um ato de deslocamento, mas de revelação — como se, ao atravessar novamente a curva da orla, eu tivesse acionado, sem intenção consciente, um mecanismo subterrâneo da memória que permanecera intacto, silencioso, à espera de um simples estímulo: a luz.
Não qualquer luz, mas aquela luz particular que desce sobre o Atlântico no fim da tarde, oblíqua e morna, dissolvendo as bordas das coisas e fazendo com que prédios recentes, ciclovias recém-traçadas e quiosques redesenhados pareçam, por um instante, suspensos numa mesma atmosfera de continuidade.
Foi ali que compreendi que o tempo não passa — ele se deposita.
A orla mudou. Mudou no traço vertical dos edifícios que avançaram sobre o horizonte com uma ambição contida; mudou no fluxo mais intenso de corredores que disputam espaço com turistas atentos; mudou na iluminação precisa, quase calculada, que tenta domesticar a noite. A paisagem tornou-se mais densa, mais econômica, mais consciente de si mesma.
E, no entanto, bastou o vento.
O vento que sempre soprou sem pedir licença, atravessando camisas, desalinhando pensamentos, misturando o cheiro de maresia com o das amendoeiras antigas, trouxe consigo algo que não estava na paisagem visível, mas em mim — uma vibração remota, uma sensação inaugural de pertencimento que não se explica, apenas se reconhece.
Sem que eu buscasse deliberadamente, vi-me jovem outra vez, caminhando pela mesma faixa de areia quando a cidade ainda parecia repousar numa escala menor e o mundo se projetava como hipótese. Em salas discretas aprendíamos estratégias e sistemas; na extensão daquela orla, porém, aprendíamos proporção. O mar ensinava distância. A brisa ensinava prudência. A linha do horizonte ensinava ambição.
Parti porque era preciso.
Cruzei outras orlas, onde o mar é cinza e introspectivo; percorri cidades que demoliram seu passado para erguer fachadas sem memória; contemplei portos onde a água serve apenas de cenário para a pressa. Em cada lugar, acumulava experiências como quem coleciona mapas. Mas nenhum mapa substitui o primeiro traço que nos orientou.
Ao regressar, percebi que João Pessoa crescera — sobretudo diante do mar. A orla transformou-se em vitrine, ativo urbano, argumento de prosperidade. O concreto elevou-se com disciplina. A economia avançou. A cidade adquiriu outra pulsação.
E, contudo, ao caminhar lentamente sob o entardecer que escorria em tons dourados sobre o calçadão renovado, tive a estranha sensação de que não era eu quem observava a cidade, mas ela quem me examinava — como se perguntasse, silenciosamente, o que fizera com o tempo que me concedera.
As mudanças não me causaram nostalgia. Produziram medida.
Compreendi que a cidade da juventude não desapareceu; foi incorporada. Assim como o homem que partiu não morreu; foi ampliado. O passado não é um território perdido, mas uma camada que sustenta as seguintes.
O mar continuava ali, repetindo seu gesto milenar, indiferente às torres que agora recortam o céu. E naquela repetição havia algo profundamente tranquilizador: a consciência de que permanência e transformação não são opostas, mas complementares.
A cidade amadureceu. Eu também.
E o retorno deixou de ser sentimental para tornar-se diagnóstico.
Não voltamos para reencontrar o que fomos. Voltamos para verificar se aquilo que nos formou ainda nos estrutura. Se o eixo resiste ao acréscimo das camadas. Se a linha do horizonte — mesmo alterada — ainda orienta.
João Pessoa mudou. Era inevitável.
Eu mudei. Era necessário.
O que permanece é o ponto de referência.
E quem conserva o próprio eixo não se perde no tempo.
Por Palmarí H. de Lucena