Há homens que passam pela cidade. Outros acabam pertencendo a ela de tal maneira que sua presença se confunde com a própria memória de um povo.
O Tenente Lucena era um desses personagens raros. Caminhava entre escolas, praças, bandas de música, feiras e festas populares como quem cuidava de um patrimônio invisível: a alma da cidade. Não era apenas músico da Banda de Música do 15º Regimento de Infantaria. Era educador por vocação, incentivador da cultura popular, guardião das tradições e, acima de tudo, um homem que acreditava na infância como o lugar onde o futuro começa.
Seu posto mais importante nunca foi o da farda.
Foi o de mestre.
Enquanto muitos viam apenas o presente, ele enxergava possibilidades em cada menino que encontrava. Sabia que uma criança iniciada na música, no canto coral, no teatro, na leitura ou no folclore dificilmente cresceria indiferente à própria terra. Por isso dedicou boa parte da vida aos orfeões, às bandas marciais, às apresentações cívicas e às manifestações da cultura popular, convencido de que educar também era ensinar a pertencer.
Compreendia que um povo sem memória acaba perdendo, pouco a pouco, sua identidade.
Sua dedicação ao folclore nunca nasceu da nostalgia. Era compromisso com a permanência. Defendia as cantigas, os autos populares, as danças tradicionais e os saberes transmitidos pelos mais velhos porque via neles uma forma de preservar a dignidade de um povo.
Linduarte Noronha talvez o tenha definido da maneira mais justa ao descrevê-lo como um homem telúrico, profundamente ligado à terra, à música, à educação e aos meninos desamparados. Não era alguém que simplesmente vivia em João Pessoa; ajudava a construí-la, silenciosamente, todos os dias.
Foi justamente essa natureza que o colocou diante de um desafio inesperado.
Durante as filmagens de O Salário da Morte, realizadas em Pombal, recebeu de Linduarte o papel de um coronel sertanejo. Havia uma cena em que deveria repreender duramente o filho, elevando a voz com a aspereza de quem conhece a ira.
Parecia simples.
Não era.
As horas passavam. Os refletores aqueciam o cenário, a equipe demonstrava sinais de cansaço e o diretor repetia pacientemente as orientações. Esperava que surgisse um olhar duro, um gesto ameaçador, qualquer vestígio de cólera que convencesse a câmera.
Nada.
O velho mestre permanecia sereno.
Não lhe faltava talento. Faltava-lhe convivência com aquele sentimento. Quem passara a vida acolhendo crianças, formando músicos, orientando jovens e difundindo cultura simplesmente não conseguia fabricar uma violência que jamais encontrara morada em seu espírito.
Somente quando a madrugada venceu sua resistência e o cansaço alterou, por instantes, a expressão do rosto, o grito finalmente aconteceu. A cena foi concluída. O filme seguiu seu caminho.
Mas ficou uma revelação que nenhuma película poderia esconder: existem pessoas cuja bondade é tão profundamente incorporada ao caráter que até a ficção encontra dificuldade em transformá-las.
Anos depois, recordando aquela noite, comentou com o humor sereno que lhe era próprio:
— Agora entendi. Você passou a noite inteira tentando me cansar para eu conseguir ficar zangado.
Talvez fosse exatamente isso.
Ou talvez Linduarte apenas tivesse descoberto que certos homens conseguem interpretar quase tudo, menos aquilo que nunca permitiram florescer dentro de si.
Hoje, quando a intolerância tantas vezes ocupa o lugar da razão e o grito parece substituir o diálogo, sua lembrança adquire um significado ainda maior. A autoridade que exercia nunca nasceu da imposição, mas do exemplo. Corrigia sem humilhar, disciplinava sem endurecer e compreendia que ensinar era, antes de tudo, um exercício de esperança.
Seu legado tampouco se resume às bandas que organizou, aos eventos cívicos que coordenou ou às iniciativas culturais que incentivou.
A verdadeira obra permanece nas pessoas.
Está nos músicos que descobriram sua vocação ainda meninos, nos educadores que compreenderam o poder transformador da cultura, nos cidadãos que aprenderam a amar a Paraíba conhecendo suas tradições e em todos aqueles que continuam transmitindo, quase sem perceber, a delicadeza recebida do velho mestre.
Há quem deixe edifícios.
Há quem inaugure monumentos.
Ele preferiu formar pessoas.
Talvez por isso continue presente no dobrado executado por uma banda escolar, na voz de um coro infantil, na persistência de um folguedo popular ou na mão paciente de um professor que ainda acredita que a cultura pode mudar destinos.
Linduarte Noronha escreveu que homens assim não morrem; encantam-se.
Talvez essa seja mesmo a palavra.
Há existências que terminam. Outras apenas mudam de lugar. A do velho mestre permanece onde sempre desejou estar: na memória de seus discípulos, na cultura da terra que tanto amou e na infância que ajudou a formar.
No fim, compreende-se que sua maior obra jamais esteve na farda, nem no cinema, nem nas homenagens que recebeu. Ela continua viva toda vez que uma criança descobre a música, que um jovem encontra na cultura um caminho para a cidadania ou que uma comunidade reconhece suas raízes como patrimônio.
Essa talvez seja a mais rara das permanências: desaparecer dos olhos sem jamais ausentar-se da vida.
Palmarí H. de Lucena