O Hamlet de Ancelotti

O Hamlet de Ancelotti

Há épocas em que uma civilização pode ser compreendida pela maneira como trata a dúvida. A nossa resolveu condená-la. Exige respostas instantâneas, convicções inabaláveis e opiniões prontas. A hesitação passou a ser confundida com fraqueza, como se pensar demoradamente fosse um luxo incompatível com a urgência do presente.

Talvez seja precisamente esse o sinal de nossa pobreza intelectual.

A inteligência nunca consistiu em responder depressa, mas em perceber que a realidade é maior do que as categorias com que tentamos aprisioná-la. O mundo sempre excede as nossas fórmulas. Quando esquecemos isso, deixamos de pensar e passamos apenas a repetir.

É nesse horizonte que Carlo Ancelotti adquire um interesse que ultrapassa o futebol.

Não porque seja um estrategista infalível — ninguém o é —, mas porque parece compreender que toda decisão nasce de uma circunstância irrepetível. Não existe uma escalação perfeita em si mesma; existe apenas a escalação possível para aquele jogo, contra aquele adversário, com aqueles jogadores e naquele instante. A decisão nunca é abstrata. É sempre histórica.

Ortega y Gasset escreveu que “eu sou eu e minha circunstância”. A frase costuma ser citada como um aforismo elegante, quando, na verdade, contém uma das intuições mais profundas da filosofia contemporânea. O homem não existe separado do mundo que o envolve. Sua liberdade nunca é absoluta; realiza-se sempre dentro de condições que ele não escolheu integralmente. A inteligência consiste justamente em interpretar essas condições antes de agir.

O treinador vive permanentemente nessa tensão.

O torcedor imagina que ele escolhe entre onze nomes. Na realidade, escolhe entre dezenas de possibilidades que jamais serão conhecidas. Cada jogador traz consigo um estado físico, uma disposição psicológica, uma história recente, um modo particular de responder à pressão. O adversário também muda. O clima interfere. O estádio altera comportamentos. O resultado modifica a coragem. O tempo restante transforma o valor de cada risco.

A decisão nasce desse entrelaçamento de circunstâncias.

Por isso Hamlet talvez seja menos um personagem da indecisão do que da lucidez. Ele percebe que agir significa modificar uma realidade cuja complexidade nunca poderá ser completamente dominada. Sua demora não é simples hesitação; é o reconhecimento de que as consequências de um gesto ultrapassam sempre as intenções daquele que age.

Também Ancelotti parece compreender que não governa uma máquina, mas uma realidade viva. Seu trabalho não consiste em aplicar fórmulas, e sim em interpretar continuamente uma situação que muda a cada minuto. A boa decisão não é a que elimina a incerteza, mas a que nasce de uma compreensão mais profunda dela.

Nossa época, entretanto, prefere outra figura humana: a do indivíduo que nunca vacila. Confunde firmeza com rigidez e convicção com dogmatismo. As redes sociais converteram a opinião em espetáculo; a política transformou a certeza em arma; o mercado recompensa quem fala antes de quem compreende.

Entretanto, a história raramente foi conduzida pelos homens mais seguros. As grandes catástrofes nasceram, quase sempre, da incapacidade de reconhecer limites. O fanático nunca duvida; por isso mesmo raramente aprende.

O verdadeiro sábio não é aquele que possui todas as respostas. É aquele que conserva intacta a capacidade de formular perguntas proporcionais à complexidade do mundo.

No fim, o futebol talvez nos interesse tanto porque condensa, em noventa minutos, aquilo que somos durante toda a vida. Cada partida é uma sucessão de circunstâncias imprevisíveis; cada decisão é uma aposta tomada com informações incompletas; cada vitória e cada derrota revelam, menos o domínio absoluto da realidade, do que a difícil arte de dialogar com ela.

Talvez essa seja a lição silenciosa de Ancelotti. Não a de quem vence sempre, mas a de quem compreende que a inteligência consiste menos em impor a própria vontade ao mundo do que em escutar aquilo que cada circunstância exige. E essa talvez seja, ainda hoje, a forma mais elevada de prudência.

Palmarí H. de Lucena