O Galo que Não Acordou a Rainha Vermelha

O Galo que Não Acordou a Rainha Vermelha

(Memória de 26 anos atrás)

“Na nossa terra — disse Alice, ainda arfando — se a gente corre muito, chega a algum lugar.”
“Que terra pachorrenta!”, retrucou a Rainha Vermelha. “Aqui, é preciso correr o máximo apenas para continuar no mesmo lugar.”
Lewis Carroll, Através do Espelho

Volto a 2009, quando João Pessoa ainda parecia uma cidade repousada entre o mar e a esperança. Havia um sentimento de que o perigo era coisa distante, reservado às grandes capitais. Mas, pouco a pouco, as janelas começaram a se quebrar.

Lembro-me de um caso que chocou a cidade: um músico conhecido, empresário, homem de palco, torturado até a morte. Outro, anônimo, tatuado e queimado, jazendo num corredor de hospital, fotografado por estranhos que exibiam a dor alheia como troféu digital. Foi ali, talvez, que João Pessoa perdeu a inocência — quando a violência virou espetáculo e todos, ricos ou pobres, passamos a ser vítimas e cúmplices do mesmo cenário.

Naquele tempo, o país se dizia confiante: “O último a entrar na crise e o primeiro a sair”. Mas por que nos sentíamos tão mal se, em tese, estávamos tão bem? Por que nossas cidades cresciam, e com elas, o medo? Por que ganhamos as Olimpíadas e perdemos as ruas?

Eu escrevi então sobre a Teoria das Janelas Quebradas, lembrando o experimento de Philip Zimbardo: um carro deixado intacto em bairro nobre da Califórnia resistiu por dias; bastou quebrar uma janela, e o veículo foi destruído em poucas horas. Assim também as cidades — o descuido inicial abre caminho para o caos.

Hoje, olhando para trás, percebo que as janelas continuaram se quebrando — uma a uma, até se tornarem vitrines de um outro tipo de violência: a do descaso e da ocupação predatória.
As calçadas, antes lugar de convivência, tornaram-se desertas ou intransitáveis.
Idosos e cadeirantes, empurrados pelo abandono urbano, caminham agora assustados pelo leito das ruas, disputando espaço com motos, carros e ciclistas apressados.
Os novos donos da cidade não são mais os flanelinhas, mas os agentes do turismo predatório — essa forma dourada de miséria que transforma a vida do cidadão residente em um incômodo a ser varrido para longe das vitrines.

A beira-mar, o cenário é de uma beleza cruel: quiosques de tamanhos desordenados, prédios de vidro, ruas congestionadas, sombras de palmeiras substituídas por toldos e letreiros. O mesmo mar que antes inspirava poesia agora reflete o brilho artificial dos empreendimentos que prometeram progresso e entregaram solidão.

O governo, ontem como hoje, reage tarde. Espera o crime, o colapso ou o escândalo para agir. E nós, que há tanto tempo corremos, descobrimos que a Rainha Vermelha tinha razão: é preciso correr o máximo apenas para continuar no mesmo lugar.

O galo cantou — mas ninguém acordou.
A cidade, espelho de si mesma, permanece sonâmbula, refletindo o que um dia fomos e o que ainda tememos ser.

Mas talvez — quem sabe — o galo ainda cante outra vez.
Porque as janelas, mesmo quebradas, deixam passar a luz.
E essa luz, se cuidada com paciência e coragem, pode reacender o sentido de comunidade que esquecemos nas calçadas.
Nada está perdido enquanto houver alguém disposto a reparar o vidro, plantar uma árvore, devolver às ruas o direito de ser caminho e não ameaça.
Se a Rainha Vermelha corre para ficar no mesmo lugar, que nós aprendamos a caminhar devagar — e, assim, talvez, reencontremos o rumo.

João Pessoa, 2009–2025

Por Palmarí H. de Lucena