O nosso maior equívoco foi imaginar que o progresso é irreversível. Às vezes, basta uma cena doméstica para perceber como essa certeza é frágil. Imagine uma sala brasileira dos anos 1980, numa noite de semana: a televisão de tubo ligada, o ventilador empurrando o ar quente, pratos ainda sobre a mesa. Na tela, o noticiário fala da redemocratização. O pai, que atravessou os anos de ditadura, aumenta o volume; a mãe pede que ele abaixe porque as crianças já dormiram; um filho pergunta quando o país voltará a votar para presidente. Ninguém naquela sala sabe exatamente como será o Brasil dali a dez anos. Mas há uma sensação compartilhada de que certas coisas, depois de conquistadas, não voltariam a ser discutidas. Hoje sabemos que a história não funciona assim.
Há uma fotografia de Teerã, dos anos 1970, que produz uma sensação parecida. Jovens mulheres de minissaia caminham pelas ruas, homens usam calças boca de sino, casais namoram nos parques e piscinas estão cheias de gente de biquíni. Poderia ser Paris, Milão ou Los Angeles. Mas é Teerã, poucos anos antes da Revolução Islâmica.
O que me impressiona nessas fotografias é menos a aparência da cidade do que a normalidade das cenas. Ninguém parece estar vivendo um momento histórico. Uma mulher atravessa a rua, duas amigas conversam, um casal se encontra no parque. É apenas mais uma tarde. E justamente por isso a fotografia incomoda: aquelas pessoas não sabiam que estavam vivendo um cotidiano prestes a desaparecer.
É aqui que Teerã deixa de ser apenas Teerã.
Nós também atravessamos nossos dias supondo que aquilo que faz parte da paisagem continuará ali amanhã. Uma instituição que funciona, uma liberdade que parece banal, uma regra de convivência que ninguém questiona. Não fotografamos essas coisas porque não parecem históricas. Só percebemos seu valor quando começam a faltar.
Durante boa parte do século XX, sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial, fizemos algo parecido com o próprio progresso. Acreditamos que a modernização seguiria uma direção relativamente previsível. Mais educação produziria mais liberdade; mais prosperidade fortaleceria a democracia; a ciência reduziria o espaço da superstição; o comércio aproximaria países; instituições internacionais conteriam a velha política de força.
O desenvolvimento parecia carregar consigo uma direção moral.
Era uma expectativa razoável. O problema foi transformá-la em certeza.
Nas últimas décadas, essa certeza começou a perder força. Em sociedades profundamente secularizadas, jovens voltam a procurar comunidades religiosas e formas mais tradicionais de pertencimento. Nas redes sociais, mulheres apresentam a vida doméstica como alternativa ao esgotamento profissional e à competição permanente. Na política, candidatos prometem fronteiras mais fortes, autoridade mais firme e a recuperação de uma ordem que, segundo eles, teria sido perdida.
São fenômenos diferentes, mas há algo que os aproxima: a procura por contornos mais definidos num mundo que se tornou difícil de enquadrar.
É fácil imaginar a cena. Alguém chega em casa depois de um dia inteiro de mensagens, notícias, escolhas e opiniões conflitantes. Abre o celular e encontra uma explicação simples para uma realidade complicada: existe uma ameaça, alguém é responsável por ela e há um líder capaz de colocar tudo novamente no lugar. A explicação cabe em poucos segundos. A angústia também parece caber.
Talvez seja uma das razões pelas quais propostas de autoridade encontram espaço.
A democracia, em contrapartida, é uma experiência demorada. Um projeto passa meses sendo discutido. Um tribunal contesta o governo. A oposição interrompe. Um jornalista faz uma pergunta incômoda. Uma eleição produz um resultado que metade do país considera errado. A negociação não termina nunca.
É frustrante, mas essa frustração é parte do mecanismo.
O autoritarismo oferece outra experiência: alguém decide. Há um inimigo identificável, uma resposta direta e a promessa de que a desordem terminará quando a autoridade voltar a ocupar o lugar que lhe foi supostamente retirado.
Em tempos de insegurança, essa promessa é poderosa.
Enquanto isso, a política internacional também recupera cenas que pareciam pertencer aos livros de história. Grandes potências disputam influência, territórios e áreas estratégicas. A força militar volta a ocupar espaço central nas relações entre países. O nacionalismo recupera musculatura e a ideia de zonas de influência reaparece no vocabulário diplomático.
Tudo isso acontece ao mesmo tempo em que desenvolvemos inteligência artificial, engenharia genética e tecnologias que alteram profundamente a economia e a vida cotidiana.
A contradição é difícil de ignorar. Mudamos radicalmente as ferramentas com que vivemos, mas alguns de nossos medos permanecem intactos. Uma pessoa pode conversar diariamente com alguém do outro lado do planeta e continuar desconfiando do estrangeiro. Pode carregar uma biblioteca inteira no telefone e preferir uma explicação que confirme aquilo em que já acredita. Pode trabalhar numa empresa global e defender que seu país deveria fechar as portas.
A tecnologia ampliou o mundo. Não necessariamente ampliou nossa disposição para viver nele.
Por isso, eu hesitaria antes de transformar a tradição em inimiga. Uma pessoa pode escolher uma religião antiga, uma família numerosa ou uma vida doméstica sem que isso constitua ameaça alguma à liberdade dos outros. O problema começa quando uma escolha particular passa a ser apresentada como a única forma legítima de viver e, depois, como regra para todos.
A questão, no fundo, não é escolher entre o novo e o antigo. É decidir o que merece continuar existindo quando uma sociedade muda.
Volto, então, àquela fotografia de Teerã. Talvez a pessoa que a tirou estivesse apenas registrando uma rua, uma piscina, uma tarde qualquer. Não sabia que, poucos anos depois, aquelas roupas e aqueles gestos seriam vistos como imagens de um mundo desaparecido. Não havia uma placa anunciando a ruptura. Não havia uma contagem regressiva.
É isso que torna a fotografia tão próxima de nós. Também não sabemos quais cenas do nosso cotidiano serão, no futuro, lembradas como evidências de uma época que parecia estável e não era.
Talvez seja esse o ponto em que a fotografia deixa de falar de Teerã e começa a falar de nós: aquilo que parece apenas cotidiano pode ser, sem que percebamos, uma conquista histórica. E conquistas históricas não se mantêm sozinhas.
Palmarí H. de Lucena