O fotógrafo acidental da Sérvia

O fotógrafo acidental da Sérvia

A aventura começou com dois pneus estourados ao cruzar, com imprudente otimismo, uma velha linha de trem enferrujada, nos arredores de uma localidade chamada Cena, no interior da Sérvia — outrora parte da Iugoslávia de Tito. O carro, alugado em Belgrado no início da viagem, era um modelo soviético robusto e teimoso como um burro balcânico. Deu dois solavancos, gemeu e parou, vencido, no meio de uma estrada que parecia levar apenas à solidão. O asfalto se dissolvia em trechos de terra vermelha, ladeado por campos de girassóis e colinas cobertas de pinheiros. O sol se despedia atrás das montanhas, e o silêncio rural parecia zombar de nossa pressa.

Parados à beira da estrada, sem possibilidade de contato telefônico e com um mapa que mais confundia do que guiava, restava-nos apenas esperar. O vento soprava do vale, levantando redemoinhos de poeira e cheiro de terra molhada. Aos poucos, começaram a surgir figuras do cotidiano rural: um menino descalço equilibrando-se sobre pedras, um velho de chapéu de palha que nos observava com o olhar desconfiado dos que já viram de tudo, e por fim uma mulher idosa, lenço florido na cabeça, passos curtos e decididos.

Trazia nas mãos um pão escuro, ainda morno, envolto em pano rústico, e uma jarra translúcida de líquido amarelado. Sorriu e fez sinal para que bebêssemos. Só mais tarde descobriríamos tratar-se de šljivovica — aguardente de ameixa, combustível nacional da Sérvia e, ao mesmo tempo, anestésico e bênção contra todos os males: do frio, da solidão e dos forasteiros extraviados.

“Vulcan?”, perguntamos, apontando para os pneus murchos. Eles assentiram e fizeram sinais para que os seguíssemos até uma fazenda próxima, prometendo que no dia seguinte o carro seria consertado. Assim começou uma jornada que, em qualquer outro contexto, seria apenas um contratempo mecânico. Ali, se tornaria uma imersão involuntária na alma balcânica.

Acordamos na manhã seguinte em um quarto simples, de paredes brancas e janelas de madeira que deixavam o ar frio entrar. O chão rangia sob nossos passos e o cheiro de lenha queimada vinha da cozinha. Havíamos dormido na antiga casa-sede de uma cooperativa agrícola, convertida em hospedaria improvisada. Pela janela, percebemos um grupo de aldeões nos observando com curiosidade, como quem vê um filme estrangeiro em preto e branco.

As batidas na porta vieram pontuais: três toques firmes. Era a mesma mulher da véspera — a babushka de lenço florido — que gesticulava para que a seguíssemos. No refeitório, longas mesas de madeira estavam cobertas com pães trançados, queijos defumados, tomates e pepinos frescos, presuntos artesanais e uma chaleira fumegante.

Enquanto tentávamos agradecer, um homem de aparência respeitável — terno gasto, cabelo engomado, semblante de político do interior — pediu silêncio. Falou em sérvio, rápido, com a convicção de quem anuncia um decreto. Reconhecemos duas palavras: “kamera” e “fotografia”. Minutos depois, já estávamos sendo conduzidos até um galpão decorado com flores artificiais e bandeirolas. Um casal jovem se aproximou, nervoso e sorridente. Era o casamento deles.

Com sorrisos, aplausos e gestos entusiasmados, soubemos — tarde demais — que havíamos sido designados os fotógrafos oficiais da cerimônia.

O casamento foi uma orgia de alegria rural: acordeão, danças circulares, gritos, risos, galinhas soltas, e uma quantidade industrial de šljivovica. A cada brinde, um coro de vozes masculinas entoava canções antigas. Recusar um gole seria heresia. A ressaca, portanto, era uma consequência cultural, não moral.

No dia seguinte, ainda atordoados, descobrimos que o carro não estava pronto. O vulcanizador da vila não tinha manchões. “Vulcan, vulcan… amanhã!”, garantiam. E foi nesse intervalo que um homem uniformizado apareceu em uma viatura, falando inglês rudimentar. O chefe do vilarejo, dizia ele, desejava que o “famoso fotógrafo internacional” registrasse a formatura do colégio local.

Sem opção e sem pneus, aceitamos o novo ofício. Passamos o dia fotografando adolescentes orgulhosos, professores emocionados e mães com coroas de flores. Fomos tratados como celebridades, brindados mais uma vez, e arrastados para outro banquete.

Quando finalmente o carro ressuscitou — dois dias depois —, uma pequena multidão acompanhou nossa partida até a estrada. Entregaram-nos papéis com nomes e endereços, pedindo as fotografias.

Meses depois, já em casa, gastamos 350 dólares para revelar e enviar as fotos. Um preço justo pela glória passageira de ter sido, por acaso, o “fotógrafo oficial da Sérvia profunda”.

E talvez esse tenha sido o verdadeiro pagamento — a constatação de que o acaso é o mais criativo dos roteiristas. Na Sérvia, antiga Iugoslávia, aprendemos que a vida tem um senso de humor peculiar: ela fura dois pneus, serve pão quente e šljivovica, e nos transforma em protagonistas de uma história que ninguém acreditaria.

Descobrimos que hospitalidade é uma forma de poesia, que a embriaguez também pode ser pedagógica, e que, às vezes, o universo conspira não para nos atrasar, mas para nos brindar — com um casamento, uma formatura e uma ressaca inesquecível. Se havia algum santo protetor dos viajantes perdidos, ele certamente gargalhou naquela tarde em Cena, antes de erguer seu cálice invisível e brindar conosco, ao som distante de um acordeão desafinado e do estalo vulcânico dos nossos pneus redimidos.

Sérvia, antiga Iugoslávia, 1973

Por Palmarí H. de Lucena