As repúblicas bálticas — Estônia, Letônia e Lituânia — vivem hoje a inquietude de estar no epicentro de um tabuleiro geopolítico onde a Rússia testa diariamente os limites da dissuasão ocidental. Para Moscou, esses pequenos países, com populações somadas inferiores à de muitas capitais europeias, são menos uma ameaça real e mais uma oportunidade estratégica: pressionar a OTAN, dividir a União Europeia, explorar fragilidades internas.
As ameaças não são apenas hipotéticas. Aviões russos violam rotineiramente o espaço aéreo báltico; drones aparecem sobrevoando fronteiras; ciberataques atingem redes governamentais e de energia. Quando não lança mísseis no campo de batalha ucraniano, o Kremlin investe em campanhas de desinformação, propaganda dirigida às minorias russófonas e exercícios militares que encenam cenários de invasão. A lógica é clara: manter os vizinhos em constante estado de alerta e, sobretudo, testar a credibilidade do Artigo 5 da OTAN, a cláusula que transforma o ataque contra um membro em ataque contra todos.
É nesse ponto que se encontra o verdadeiro desafio. A OTAN precisa mais do que discursos: precisa de presença visível e constante. É o que já ocorre, ainda que de forma limitada, com a “presença avançada” de tropas aliadas no território báltico, o policiamento aéreo rotativo e o planejamento conjunto de defesa. Mas, diante da imprevisibilidade russa, surgem dúvidas inevitáveis: haveria tempo para mobilizar reforços em caso de ataque relâmpago? A famosa brecha de Suwalki — estreita passagem que liga a Polônia à Lituânia — resistiria a uma tentativa de bloqueio?
Os países bálticos, conscientes de sua vulnerabilidade, não se limitam a esperar pelos aliados. Construíram a chamada Linha de Defesa Báltica, com fortificações e obstáculos militares nas fronteiras; elevaram seus gastos em defesa a níveis proporcionais inéditos; modernizaram arsenais; investiram em cibersegurança e desenvolveram doutrinas de “defesa total”, que envolvem não apenas os militares, mas toda a sociedade. A Lituânia receberá, inclusive, uma brigada blindada permanente da Alemanha — gesto simbólico e prático de compromisso aliado.
Essa postura é acompanhada por uma solidariedade inequívoca em relação à Ucrânia. Estônia, Letônia e Lituânia não apenas condenam a invasão russa em fóruns internacionais: oferecem ajuda material concreta, enviando armas, munições, equipamentos de proteção e assistência humanitária. Proporcionalmente ao tamanho de suas economias, são alguns dos países que mais apoiaram Kiev desde 2022. Essa ajuda não é apenas altruísmo — é também expressão da memória histórica de povos que conhecem, na pele, o peso da ocupação soviética e entendem que a defesa da Ucrânia é, em última análise, a defesa de sua própria liberdade.
Nada disso, porém, elimina os riscos. A Rússia sabe que dificilmente conseguiria ocupar os países bálticos sem enfrentar consequências devastadoras. Mas também sabe que basta gerar instabilidade para corroer a confiança interna e semear divisões externas. Para o Kremlin, o híbrido — sabotagem, pressão energética, ataques cibernéticos — pode ser tão eficaz quanto tanques atravessando a fronteira.
No fim, a questão é menos sobre quantos soldados estarão estacionados em Riga ou Vilnius e mais sobre a clareza da mensagem enviada a Moscou. Se a OTAN falhar em mostrar que defende cada centímetro do território báltico, abre-se a porta para dúvidas existenciais sobre a própria aliança. E a lição da história europeia é clara: fronteiras testadas demais acabam, cedo ou tarde, por se transformar em linhas vermelhas cruzadas.
E há, ainda, um elo invisível que une bálticos e ucranianos: o da memória da opressão e o da coragem da resistência. Povos que aprenderam a sobreviver sob o jugo de impérios agora estendem as mãos uns aos outros, sabendo que sua solidariedade não é apenas diplomacia, mas um pacto de sangue e memória. Ao ajudar Kiev, Tallinn, Riga e Vilnius reafirmam a convicção de que a liberdade de um só povo europeu é a muralha moral que protege todos os demais.
Por Palmarí H. de Lucena