A política brasileira passou a funcionar como um Fla-Flu permanente. Não há campeonato, tabela ou temporada: há apenas o clássico. O placar é secundário; o essencial é impedir a vitória do rival. O jogo não termina porque não pode terminar. Ele se mantém vivo pela polarização das torcidas, que precisam do confronto contínuo para justificar sua própria existência.
Nesse ambiente, a polarização opera como arquibancada organizada. Cada lado ocupa seu setor, veste suas cores e canta seus slogans. O adversário deixa de ser um competidor legítimo e passa a ser tratado como ameaça moral. Não se discute esquema tático; discute-se caráter. A torcida não quer jogo bem jogado — quer ver o outro perder, nem que seja por W.O. O debate público vira xingamento em coro.
As redes sociais funcionam como um VAR emocional. Congelam um lance isolado, ampliam um toque duvidoso e ignoram os 90 minutos. A narrativa passa a valer mais do que a partida. Cada torcida tem seu replay favorito, exibido em looping. O jogo real desaparece sob a edição seletiva dos melhores — ou piores — momentos.
O Parlamento, nesse Fla-Flu, joga como meio-campo congestionado. A bola circula pouco, recua muito e raramente encontra espaço entre as linhas. Toda proposta é lida como jogada ensaiada do adversário. Marca-se por zona ideológica, não por mérito. O resultado é previsível: muita disputa física, pouca criação. O empate interessa porque mantém o clássico aceso.
Nesse cenário, a judicialização entra como árbitro acionado a todo instante. Qualquer dividida vira falta; qualquer falta pede cartão; qualquer cartão exige revisão. O Judiciário passa a decidir lances que, em ambientes menos tensionados, seriam resolvidos no campo político: regras eleitorais, procedimentos internos, disputas de governança. Não porque o juiz queira apitar tudo, mas porque os jogadores preferem o apito ao risco do drible.
O excesso de intervenção quebra o ritmo do jogo. A partida fica truncada, nervosa, picotada. Cada decisão judicial — mesmo quando tecnicamente correta — passa a ser interpretada como favorecimento de um time e perseguição ao outro. A autoridade do árbitro é questionada; o respeito às regras, fragilizado. O Fla-Flu contamina o apito.
Há ainda, nesse clássico interminável, a figura dos cartolas partidários. Dirigentes que não entram em campo, mas controlam escalações, bastidores e punições. Vivem do conflito e o mantêm aceso, porque a polarização é seu principal ativo. Não administram projetos; administram rivalidades. Precisam do estádio cheio e da torcida inflamada para justificar sua influência.
Ao lado deles operam os tribunais esportivos da política. Instâncias acionadas para decidir o que o jogo político já não consegue resolver. Questões de negociação viram processos; impasses viram recursos. O campeonato perde fluidez e passa a ser decidido no tapetão. O público reclama, mas o jogo segue — sempre interrompido, sempre inconcluso.
A economia, nesse Fla-Flu permanente, sofre como gramado castigado. Investimentos escorregam, decisões atrasam, projetos patinam. A insegurança jurídica — resultado do apito constante e das revisões intermináveis — transforma cada arrancada em risco de contusão. O time joga com medo da dividida.
O Executivo atua como técnico sob vaia. Troca esquema no meio do jogo, ajusta discurso conforme a arquibancada e improvisa substituições para sobreviver ao clássico seguinte. Governar vira administrar o humor da torcida, não o campeonato.
Nada disso significa que o árbitro deva abandonar o campo. Sem juiz não há jogo. O problema começa quando a política abdica de jogar e terceiriza o resultado ao apito. Democracia não é pênalti marcado no grito; é construção paciente de jogadas, mesmo sob pressão.
Para sair desse empate infinito, é preciso encerrar o clássico eterno. Baixar a temperatura da arquibancada, aceitar que discordância não é falta grave, destravar o meio-campo com negociação real e reduzir a dependência do apito, fortalecendo regras claras e respeitadas.
O Brasil precisa voltar a disputar campeonatos, não viver refém de um Fla-Flu sem fim. Enquanto a política sobreviver do confronto permanente das torcidas, o jogo seguirá travado — muito barulho, pouca bola rolando e a sensação constante de que qualquer lance, cedo ou tarde, acaba no tribunal.
Por Palmarí H. de Lucena