O Extremismo à Brasileira

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O Extremismo à Brasileira

No Brasil, o radicalismo raramente se apresenta como radicalismo. Em geral, surge disfarçado de coragem moral.

Começa com uma indignação legítima — a revolta contra a corrupção, o cansaço diante da impunidade, a frustração com instituições que parecem funcionar melhor para alguns do que para a maioria. Em um país onde a desigualdade se naturalizou e a desconfiança se tornou hábito cívico, a raiva encontra terreno fértil. E a raiva, quando canalizada com habilidade, pode facilmente ser confundida com virtude.

Durante muito tempo, a política brasileira foi criticada por sua previsibilidade morna: partidos sem identidade clara, alianças sem coerência ideológica e escândalos que terminavam em uma espécie de absolvição moral coletiva. O eleitor médio passou a desejar algo mais intenso — alguém que parecesse acreditar em alguma coisa com força suficiente para mobilizar os outros.

Foi nesse ambiente que a radicalização deixou de ser apenas um desvio e passou a funcionar como linguagem política.

Não importava tanto a consistência da ideia, mas a intensidade com que ela era defendida. O debate foi gradualmente substituído pela performance da convicção. O adversário deixou de ser alguém com uma visão divergente e passou a ser tratado como uma ameaça existencial. Já não bastava vencê-lo politicamente; era preciso desmoralizá-lo publicamente.

As redes sociais aceleraram esse processo com eficiência singular. O algoritmo descobriu cedo aquilo que a televisão levou décadas para compreender: a indignação fideliza mais do que a serenidade. A dúvida não viraliza. A nuance não mobiliza. A moderação, muitas vezes, passou a ser interpretada como fraqueza diante da estética da guerra permanente.

No Brasil, essa lógica encontrou um ambiente particularmente receptivo. Nossa tradição política sempre conviveu com dificuldade diante de instituições impessoais e, ao mesmo tempo, com excessiva familiaridade em relação a lideranças messiânicas. Há uma atração recorrente por figuras que prometem ruptura total — o salvador, o justiceiro, o antipolítico que se apresenta como purificador da própria política.

O problema é que movimentos construídos sobre ressentimento raramente aceitam moderação posterior.

Muitos dos atores que hoje demonstram preocupação com o avanço do extremismo participaram, em alguma medida, de sua legitimação. Durante anos, foi politicamente conveniente estimular a lógica do “nós contra eles”, tratar divergências como desvios morais e transformar a suspeita em método de mobilização. Enquanto isso produzia votos, engajamento e poder, parecia uma estratégia funcional.

Mas o extremismo possui uma característica inconveniente: ele não aceita permanecer como instrumento.

Ele cresce, produz seus próprios líderes e passa a exigir fidelidade absoluta. Aqueles que antes o utilizaram descobrem, muitas vezes tarde demais, que não são seus condutores, mas apenas participantes temporários de uma dinâmica que já não controlam. O radicalismo dificilmente reconhece a moderação como virtude; tende a interpretá-la como sinal de fraqueza ou traição.

Esse fenômeno não pertence exclusivamente à direita nem à esquerda. Ele é menos uma ideologia específica e mais uma forma de funcionamento político. Trata-se da substituição da persuasão pela pureza moral, da política pela guerra cultural e da cidadania pelo pertencimento tribal.

Talvez essa seja a parte mais difícil de admitir: o extremismo não prospera apenas por causa de seus defensores mais barulhentos, mas também graças aos seus cúmplices silenciosos — aqueles que o toleram enquanto ele parece útil, administrável ou eleitoralmente vantajoso.

A história política costuma registrar com clareza o momento em que os excessos se tornam intoleráveis. O que raramente se reconhece com a mesma honestidade é o período anterior, quando esses mesmos excessos eram tratados como energia necessária, exagero aceitável ou simples dano colateral do poder.

No Brasil, ainda parecemos presos a essa fase.

Continuamos confundindo intensidade com liderança, agressividade com autenticidade e destruição com renovação. Seguimos em um país permanentemente mobilizado para a próxima crise moral, onde todos falam em defesa da democracia, mas muitos ainda suspeitam, em silêncio, que ela funcionaria melhor sem aqueles que pensam diferente.

Talvez o maior risco do extremismo não esteja apenas em sua capacidade de destruir consensos, mas em sua habilidade de convencer pessoas razoáveis de que ele representa apenas uma fase passageira.

Quase nunca representa.

Por Palmarí H. de Lucena