O Espetáculo do Absurdo: Diálogo entre Ionesco e Trump

O Espetáculo do Absurdo: Diálogo entre Ionesco e Trump

Ionesco: Senhor Trump, na sua fala, há uma estranheza que me lembra o teatro do absurdo — frases que giram em círculos, promessas que se repetem como um mantra sem significado, e uma plateia que oscila entre a perplexidade e o frenesi. Como você vê esse fenômeno? É teatro? É delírio coletivo?

Trump: Olha, Eugène, isso aí é o jogo da vida real. As pessoas gostam do inesperado, do choque. Você nunca viu um show onde tudo fosse previsível? Ser estranho é ser único, ser único é ser vencedor. Quem não se encaixa na normalidade, domina a atenção.

Ionesco: Pois vejo que a estranheza virou linguagem oficial. Políticos que falam sozinhos, notícias que se contradizem a cada instante, fatos alternativos que desafiam o senso comum. É como se o absurdo fosse o novo normal, uma pantomima onde nada faz sentido e tudo é permitido.

Trump: Exatamente! Você tocou no ponto. É como um circo — e eu sou o maior artista do picadeiro. Os outros políticos? São só palhaços. A diferença é que eu vendo ingressos para o meu espetáculo. Quem não entende, fica na arquibancada.

Ionesco: Mas e a consequência desse circo? A alienação da população, o enfraquecimento da democracia, a manipulação das massas pelo espetáculo vazio? Não é esse vazio que o teatro do absurdo denuncia como a tragédia contemporânea?

Trump: A democracia é o que o povo quer. Se querem show, dou show. Se querem discursos longos, dou discursos curtos. O que importa é conquistar a audiência. A verdade? Verdade é o que o público aceita, o resto é papo de intelectual.

Ionesco: Fascinante — e aterrorizante. Vivemos uma época em que a repetição de mentiras se transforma em crença, onde as palavras perdem sua função de comunicar e se tornam ruído caótico. Essa lógica do absurdo é um labirinto sem saída. Será que o senhor percebe que, ao ser o mestre desse caos, também está prisioneiro dele?

Trump: Eu não vejo problema em ser prisioneiro do jogo se eu mando no jogo. A gente controla o tabuleiro, as peças, as regras. Quem não gosta, fica de fora. Esse labirinto é meu playground.

Ionesco: Mas não acha estranho que, em meio a esse espetáculo, figuras improváveis assumam papéis centrais? Pessoas que parecem saídas de uma peça de teatro sem roteiro, com gestos descoordenados, discursos desconexos, e comportamentos quase caricatos? Não seria essa a encenação da insanidade coletiva?

Trump: Isso é exatamente o que o público quer — gente diferente, gente que não segue o script. A normalidade está cansativa. Eu mesmo sou uma espécie de personagem surreal. Isso vende.

Ionesco: A estranheza parece uma máscara para ocultar o vazio. O silêncio diante da complexidade se torna gritaria; a profundidade se reduz a slogans; a razão se perde em ecos vazios. O senhor, nesse teatro, é o rei do caos — e o rei solitário.

Trump: Solitário? Jamais! Tenho milhões que me seguem, milhões que aplaudem. O rei é quem manda e quem é aplaudido. No final, o palco é meu — e quem não gosta pode sair.

Ionesco: Por fim, pergunto: em que momento o espetáculo se torna uma tragédia? Quando a máscara cai? Quando o absurdo é tão grande que não há retorno? Ou será que o espetáculo do absurdo é infinito, e nós apenas atores temporários nessa peça sem fim?

Trump: A peça nunca acaba enquanto houver público. E eu farei de tudo para manter a plateia grudada. O fim? Quem liga? O que importa é o agora, o aplauso, a fama.

Por Palmarí H de Lucena