O Espelho de Tauá e as Dobradiças da Serra

O Espelho de Tauá e as Dobradiças da Serra

Meandrando pelas curvas, seguimos os contornos bruscos da topografia acidentada, enquanto o mormaço fazia a estrada tremer diante de nós — como se o asfalto se liquefizesse sob a luz oblíqua da manhã. Touceiras de jitiranas, romanticamente chamadas de corda-de-viola ou mororó, surgiam no acostamento, acenando com seu roxo tímido antes de desaparecerem na monotonia verde-acinzentada dos campos do Planalto da Borborema. O gado pastava devagar, em movimentos laterais quase coreografados, cascos desenhando curvas de nível nas encostas, como se a própria paisagem respirasse.

Dentro do carro, a narrativa do nosso interlocutor abria o cenário como um livro de páginas móveis. A cada curva, ele temperava a viagem com causos de senhores de engenho e histórias de valentias pitorescas; depois, num gesto sereno, passava a mapear tradições, santuários perdidos, feiras antigas e os pontos geográficos que definem a identidade da região. Sua voz parecia conhecer cada ciclo econômico que sustentou — e às vezes derrubou — a vida no Brejo, oferecendo-nos uma bússola espiritual para decifrar o horizonte que se abria no para-brisa.

À medida que avançávamos, o verde se adensava e o relevo se dobrava em suaves espirais. Em certo ponto, a paisagem se abriu como um suspiro, revelando o espelho da Barragem de Tauá ao longe. Daquela distância, a água parecia conter todo o silêncio do Brejo — uma lâmina imóvel que refletia não apenas o céu, mas a respiração lenta da Serra de Mucunã.

Olhando da Serra de Mucunã, e da Serra de Mucunã para baixo, nosso interlocutor comandava Alexa com a naturalidade de quem sonha acordado. Murmurava um comando sussurrado, pedindo a trilha sonora exata para aquele instante: algo macio, sem altos nem baixos, uma música que pairasse no ar como bruma fina. A música permeava desde o terraço, espalhando-se pela encosta como um sopro morno, preenchendo o ar com uma delicadeza que não disputava espaço com o silêncio — apenas o ampliava.

Enquanto isso, o sol iniciava sua descida lenta, dourando as copas das árvores e transformando a barragem num espelho de bronze líquido. A melodia permeava o carro como uma respiração coletiva: nós, a Serra de Mucunã, a água ao longe e aquela luz inclinada que torna o Brejo uma pintura em movimento. Nosso guia sorria, absorto, como se conduzisse não apenas a playlist, mas o próprio ritmo da paisagem.

Privilegiado por seu clima ameno, esse “brejo de altitude” — a microrregião do Brejo Paraibano — permanece como uma crônica viva de séculos marcados por riqueza e pobreza. Heranças de outrora repousam nos casarões coloniais que resistem ao tempo, nos teatros históricos ainda pulsando sob tetos de madeira, nas igrejas e capelas onde o silêncio tem textura, e nos alambiques que guardam o segredo da cachaça artesanal como quem preserva um dialeto antigo.

Os dias difíceis não brotaram apenas de intempéries ou pragas — salvo o ciclo do café, ceifado pela doença e pelo descompasso global. O declínio das fibras vegetais, somado à lenta modernização da cana-de-açúcar, encerrou longos períodos de prosperidade. O que permaneceu foram a rapadura brunindo sob o sol, os bananais ondulando ao vento e a agricultura familiar segurando a vida pela raiz, numa teimosia feita de dignidade.

Hoje, um novo ciclo se insinua. O turismo, antes coadjuvante, torna-se protagonista, rearranjando a economia local com festivais sazonais, celebrações de rua, roteiros ecológicos e a reinvenção de estruturas antigas como palcos de cultura, hospedagem e experiência. Expansões residenciais recortam o mapa; cafés e ateliês ocupam antigos engenhos; pousadas brotam em encostas que antes testemunharam o vai-e-vem de tropas de burros e carroças.

Mas o progresso, como todo viajante apressado, cobra seu preço. O avanço urbano desordenado fere encostas; nascentes são desviadas; casarões perdem suas guardas-mores; pedaços de patrimônio são desfigurados pela pressa de erguer o novo. A paisagem, porém, súplica por equilíbrio — e é aqui que ecoam as palavras de George Santayana: “quem não recorda o passado está condenado a repeti-lo.”

Viajar pelo Brejo é, portanto, mais do que percorrer estradas sinuosas: é compreender que cada pedra, cada varanda, cada barragem e cada dobra da Serra de Mucunã guarda uma memória que pede cuidado. O viajante atento sabe que não basta admirar — é preciso testemunhar, proteger, transmitir.

Ao descermos a Serra de Mucunã, percebi que o Brejo não termina onde a estrada curva. Ele permanece como um lembrete gentil de que a beleza exige vigilância, e a memória, responsabilidade. Toda paisagem que nos toca de verdade deposita em nós uma tarefa silenciosa: a de honrar aquilo que nos foi revelado.

Brejo Paraibano 2020

Por Palmarí H. de Lucena