O endereço da Mona Lisa

O endereço da Mona Lisa

Há histórias que parecem ter sido escritas por um romancista antes de chegarem aos historiadores. A de Pedro Américo e da Mona Lisa tem qualquer coisa disso. O fio que aproxima os dois não é uma amizade, uma viagem compartilhada ou um encontro impossível entre personagens separados por séculos. É um endereço em Florença.

Thélio Queiroz Farias, em Pedro Américo e a Mona Lisa, chama a atenção para uma dessas coincidências que atravessam a biografia dos personagens sem que eles próprios jamais a percebam: a casa associada à infância de Lisa Gherardini, a mulher que Leonardo da Vinci imortalizaria, ficava na área que, depois de transformações urbanas e arquitetônicas, abrigaria o palácio onde Pedro Américo viveu e trabalhou. Não se trata da mesma casa preservada através das gerações. A construção mudou, a cidade mudou, os moradores mudaram. O que permaneceu foi a localização — e, com ela, uma história difícil de inventar.

De um lado, uma mulher florentina do final do século XV, cujo rosto seria levado à posteridade pelo pincel de Leonardo. Do outro, quatro séculos depois, um menino nascido em Areia, na Paraíba, que se tornaria um dos mais importantes artistas brasileiros do século XIX. Entre eles, Florença.

Pedro Américo nasceu no Brejo paraibano, em 1843. Sua infância transcorreu entre montanhas, igrejas e sobrados, numa cidade que estava longe dos grandes centros artísticos de seu século. Ainda assim, sua vocação cedo lhe abriu outros caminhos. A arte o levou para além da paisagem de origem e, mais tarde, para a Europa, onde sua formação encontraria a tradição artística que admirava nos livros e nas aulas.

Quando chegou a Florença, encontrou uma cidade em que o passado não estava confinado aos museus. O Renascimento permanecia nas igrejas, nos palácios, nas esculturas, nas pinturas e na própria formação cultural da cidade. Michelangelo fazia parte da paisagem; Leonardo, da memória. Pedro Américo entrou nesse universo como estudante e dele saiu trazendo referências que reapareceriam em sua obra.

É nesse cenário que Lisa Gherardini reaparece, não como personagem de uma grande narrativa histórica, mas como uma mulher comum de seu tempo. Não foi rainha, não comandou exércitos, não escreveu tratados. Foi florentina, casou-se, teve filhos, viveu entre as obrigações e os hábitos de uma família de sua época. Seu nome poderia ter desaparecido como tantos outros, não fosse o encontro de sua vida com a pintura de Leonardo.

O retrato fez o resto. Lisa tornou-se Mona Lisa. O nome da mulher foi cedendo espaço ao nome da obra, e a pessoa foi lentamente coberta pela personagem. Seu rosto atravessou museus, livros, reproduções e gerações. Milhões de olhos passaram a contemplá-lo sem jamais conhecer a vida cotidiana daquela florentina. O sorriso ganhou interpretações, teorias, perguntas; a mulher, pouco a pouco, ficou atrás da imagem.

É justamente aí que a antiga morada volta a adquirir interesse. A área ligada à infância de Lisa atravessou as transformações de Florença até chegar à configuração que, muitos anos depois, receberia Pedro Américo. A casa original não permaneceu intacta, nem poderia permanecer. O palácio em que o artista brasileiro viveu e trabalhou pertence a outra configuração arquitetônica, a outro momento da cidade. O que une os dois não é uma parede preservada, mas o mesmo pedaço de Florença atravessando diferentes vidas.

Pedro Américo poderia ter passado por ali sem jamais saber dessa aproximação. Poderia ter estudado os grandes mestres, produzido suas obras e regressado ao Brasil sem que Lisa Gherardini entrasse em sua biografia. A vida não lhe exigia essa coincidência. Nós é que a descobrimos depois.

Leonardo e Pedro Américo pertencem, naturalmente, a universos artísticos distintos. Leonardo investigou o rosto humano, a natureza, a luz, o corpo e os mistérios da percepção. Pedro Américo dedicou parte essencial de sua obra à pintura histórica e à representação de grandes episódios nacionais. Um deixou um sorriso que se tornou enigma; o outro, uma cena de cavalaria que ajudaria a fixar visualmente a Independência do Brasil.

Mona Lisa e Independência ou Morte! nasceram de circunstâncias inteiramente diversas. Nenhuma das duas telas, porém, permaneceu limitada ao acontecimento ou à pessoa que lhe deu origem. O retrato deixou de ser apenas o retrato de uma florentina. A cena do Ipiranga deixou de ser apenas uma interpretação de um episódio histórico. Ambas adquiriram uma existência própria, muito maior que a intenção imediata de seus autores.

Talvez por isso Pedro Américo mereça ser lembrado também antes da tela que o consagrou: o menino de Areia, o estudante, o viajante, o intelectual, o artista que encontrou na Europa uma tradição capaz de ampliar sua formação sem apagar o lugar de onde viera.

Areia e Florença acabam, assim, ligadas por uma biografia que nenhum dos dois lugares poderia prever. De uma cidade pequena do Brejo paraibano, Pedro Américo chegou a uma das cidades fundamentais da história da arte ocidental. Levou consigo a experiência brasileira e voltou dela com uma formação que ajudaria a construir algumas das imagens mais conhecidas da memória nacional.

Há, nisso, uma ironia silenciosa. O artista que pintaria a Independência do Brasil foi morar numa área associada à infância da mulher cujo rosto Leonardo da Vinci transformaria numa das imagens mais reconhecidas do mundo. Não houve encontro entre eles, nem influência direta, nem qualquer espécie de diálogo. Houve apenas a cidade, suas transformações e a passagem de diferentes vidas pelo mesmo chão.

Um endereço pode parecer uma informação banal até que os nomes ligados a ele começam a aparecer. Então a geografia deixa de ser apenas geografia. Uma casa desaparece, outra se ergue, os moradores se sucedem, e aquilo que parecia imóvel revela-se apenas uma continuidade discreta no meio das mudanças.

Lisa Gherardini, Leonardo da Vinci e Pedro Américo pertencem a histórias diferentes. Um rosto, uma pintura, uma trajetória artística, uma cidade. Nada disso foi planejado para se encontrar. A aproximação só existe porque, muito depois, alguém olhou para os detalhes de uma biografia e percebeu que duas histórias distantes haviam passado por uma mesma parte de Florença.

A Mona Lisa continua diante dos olhos do mundo. Independência ou Morte! continua inscrita na memória brasileira. Leonardo permanece ligado ao Renascimento; Pedro Américo, à formação visual da história do Brasil. E entre essas duas tradições, quase como uma nota de rodapé que ganhou importância inesperada, permanece a circunstância de um lugar.

É uma dessas pequenas descobertas que modificam a maneira de olhar para uma cidade. Depois dela, Florença já não é apenas a cidade de Leonardo, de Michelangelo e do Renascimento. É também a cidade por onde passou um paraibano de Areia, levando consigo uma história que acabaria voltando ao Brasil em forma de pintura.

Talvez seja esse o encanto da coincidência: ela não muda o passado, apenas acrescenta uma dobra àquilo que já sabíamos. Lisa não conheceu Pedro Américo. Pedro Américo não conheceu Leonardo. Nenhum deles poderia imaginar que seus nomes um dia seriam aproximados por uma circunstância tão simples quanto a permanência de um lugar.

E, no entanto, foi assim que Areia encontrou Florença: não por uma grande decisão da história, mas pelos passos de um homem que saiu do Brejo paraibano, chegou à Europa e, sem saber, passou a viver numa parte da cidade onde, muitos séculos antes, uma jovem florentina começara sua própria história.

Às vezes, basta isso para que uma cidade revele uma história que estava ali o tempo todo.

Palmarí H. de Lucena

Foto: Palmarí H. de Lucena