Durante décadas, o dólar americano ocupou uma posição que parecia permanente. Não era apenas a moeda dos Estados Unidos, mas também a principal moeda do comércio internacional, das reservas dos bancos centrais, dos mercados financeiros e das grandes transações globais. Governos confiavam nele, investidores buscavam proteção nele e países aliados dos Estados Unidos acumulavam títulos do Tesouro americano como uma demonstração de confiança econômica e política. No entanto, o poder do dólar sempre dependeu de algo maior do que a força da economia americana: dependia da confiança nas instituições dos Estados Unidos. Essa pode ser hoje a maior ameaça ao futuro da moeda americana.
É improvável que o dólar desapareça repentinamente do centro do sistema financeiro internacional. Nenhuma outra moeda possui atualmente a mesma escala, liquidez e profundidade dos mercados financeiros americanos. O euro enfrenta limitações políticas e financeiras, enquanto o renminbi chinês ainda opera dentro de um sistema marcado pelo forte controle estatal. Não existe, pelo menos por enquanto, uma moeda capaz de substituir completamente o dólar. Mas talvez essa seja a pergunta errada. O mundo não precisa escolher uma nova moeda global de uma única vez; pode simplesmente começar a depender menos da antiga.
Esse processo pode ocorrer lentamente. Um banco central reduz parte de suas reservas em dólares, um país cria mecanismos para realizar pagamentos internacionais em sua própria moeda e empresas começam a negociar diretamente em moedas nacionais. Governos procuram alternativas aos sistemas financeiros tradicionalmente dominados pelos Estados Unidos. Separadamente, essas mudanças podem parecer pequenas, mas, juntas, têm o potencial de alterar profundamente a arquitetura financeira internacional.
A história mostra que o dólar já sobreviveu a grandes crises. O fim do padrão-ouro, a inflação dos anos 1970 e o escândalo de Watergate colocaram em dúvida a estabilidade dos Estados Unidos. Ainda assim, o dólar permaneceu dominante. A razão foi simples: as instituições americanas demonstraram capacidade de sobreviver às crises e corrigir seus próprios excessos. Presidentes podiam ser responsabilizados, bancos centrais podiam agir com independência e decisões econômicas impopulares podiam ser tomadas mesmo quando prejudicavam governos e campanhas eleitorais. Essa previsibilidade institucional tornou-se uma das maiores fontes de confiança no dólar.
Uma moeda internacional precisa oferecer mais do que força econômica. Precisa oferecer segurança. Investidores que compram títulos de um país precisam acreditar que contratos serão respeitados, que instituições financeiras poderão tomar decisões técnicas sem interferência política e que mudanças de governo não transformarão regras fundamentais em instrumentos de disputa partidária. Quando essa confiança começa a enfraquecer, o impacto não aparece necessariamente de uma única vez. Ele pode se manifestar gradualmente, por meio da redução das reservas em dólares, da criação de novos sistemas financeiros e da busca por maior autonomia econômica.
É nesse contexto que os BRICS ganham importância. O grupo tem defendido uma redução da dependência excessiva do dólar e um maior uso das moedas nacionais no comércio entre seus membros. Isso não significa que os BRICS estejam prestes a criar uma moeda única capaz de substituir o dólar. As diferenças econômicas, políticas e estratégicas entre os países do grupo tornam esse projeto extremamente complexo. No entanto, a criação de uma nova moeda talvez nem seja necessária. Se dois países conseguem negociar diretamente utilizando suas próprias moedas, diminui a necessidade de utilizar o dólar como intermediário. Se governos desenvolvem sistemas alternativos de compensação e pagamento, a dependência da infraestrutura financeira americana também pode diminuir.
O Brasil oferece um exemplo interessante nesse debate. O Pix não foi criado para competir com o dólar e não deve ser apresentado como uma ameaça direta à moeda americana. Trata-se, antes de tudo, de uma infraestrutura brasileira de pagamentos instantâneos. No entanto, seu sucesso demonstra que sistemas digitais podem tornar pagamentos mais rápidos, baratos e eficientes. Se diferentes países desenvolverem infraestruturas semelhantes e encontrarem formas de conectá-las internacionalmente, será possível facilitar transações entre moedas locais e reduzir custos associados aos sistemas financeiros tradicionais.
O Pix, sozinho, não mudará o sistema monetário internacional. No entanto, representa uma tendência maior: a tecnologia está tornando possível criar novas alternativas para a circulação internacional de dinheiro. Durante décadas, o domínio do dólar esteve ligado não apenas à força econômica dos Estados Unidos, mas também à infraestrutura financeira construída ao seu redor. Bancos, sistemas de pagamento, mercados financeiros e instituições internacionais ajudaram a consolidar sua posição. Agora, Europa, China, países dos BRICS e outras economias procuram fortalecer suas próprias alternativas.
Nenhuma dessas iniciativas destruirá o dólar. O sistema financeiro internacional, porém, pode estar caminhando para um mundo mais multipolar, no qual a moeda americana continuará sendo extremamente importante, mas deixará de ser indispensável para todas as transações. A supremacia do dólar não precisa terminar com uma grande crise ou com o surgimento de uma única moeda rival. Ela pode enfraquecer lentamente, reserva após reserva, contrato após contrato e transação após transação.
Os Estados Unidos continuam possuindo vantagens extraordinárias. Seus mercados financeiros são os mais profundos do mundo, seus títulos públicos permanecem entre os ativos mais importantes do sistema global e sua economia continua sendo uma fonte central de inovação, investimento e poder. Mas nenhuma dessas vantagens elimina a necessidade de preservar instituições confiáveis. A supremacia do dólar nunca foi garantida apenas pelo poder dos Estados Unidos; foi garantida pela disposição do mundo em confiar nesse poder.
Essa confiança pode levar décadas para ser construída e apenas alguns anos de instabilidade para começar a desaparecer. O maior risco para os Estados Unidos não é acordar amanhã e descobrir que outra moeda tomou o lugar do dólar. O verdadeiro risco é perceber, tarde demais, que o resto do mundo aprendeu a depender menos dele. Os BRICS, o crescimento do uso de moedas nacionais e novas tecnologias de pagamento como o Pix não são, individualmente, os sucessores do dólar, mas são sinais de uma transformação maior. O dólar ainda reina, mas o mundo está começando a construir alternativas e, talvez pela primeira vez em muito tempo, aprendendo a imaginar um futuro em que ele não reine sozinho.
Palmarí H. de Lucena