A morte chegou cedo demais. Tinha apenas dezoito anos — idade em que a vida ainda é um plano inacabado, um rascunho de sonhos e possibilidades. Na cidade inteira, o tempo pareceu estagnar ao redor do caixão aberto. A jovem, vestida como se fosse para a a festa de formatura que não viria, seu jaleco de estudante de medicina a outra possecso que levaria para a eternidade jazia serena entre flores e lágrimas. Em volta, um círculo apertado de rostos confusos — curiosidade, empatia e dor trançadas num mesmo silêncio perplexo.
Colegas da escola, muitos ainda com as mochilas às costas, formavam grupos dispersos ao redor do féretro. Vários vestiam camisetas estampadas com o sorriso congelado da amiga morta — lembrança de dias de estudo, passeios em grupo, confidências de fim de tarde e, quem sabe, uma ou outra paquera adolescente. Alguns choravam copiosamente, amparados por ombros tão frágeis quanto os seus. Outros olhavam fixamente para o nada, como se tentassem decifrar a morte com olhos ainda verdes de vida.
Para eles, a morte era coisa de gente velha — pais, avós, vizinhos. Nunca de alguém da turma, da sala, do grupo de mensagens ou das festas de aniversário. A juventude, acreditavam, era invencível. E talvez essa ilusão, tão comum quanto perigosa, tenha levado muitos a brincar demais com motos, com a sorte, com o improvável. Mas agora, diante daquela menina que partira num acidente banal, o mito desmoronava.
A cerimônia seguia um rito que era ao mesmo tempo tradicional e profundamente perturbador. O lamento de uma mãe rasgava o ar: “Você era tudo para mim… tudo o que eu tinha… por que foi embora?” Uma avó, mãos trêmulas, rezava em voz alta como se pudesse arrancar a neta das garras do destino. E até mesmo quem não era parente se permitia o descontrole — vizinhos, professores, conhecidos. O luto era de todos.
O cortejo partiu do serviço religioso entre motos em silêncio e um carro de som que tocava, em volume comedido, músicas que só se ouvem em velórios — canções que, de tão tristes, pareciam feitas para aquele momento exato. À frente, cavaleiros em montaria exibiam a fotografia da jovem, como estandarte de uma geração ferida. Ela gostava de montar, uma queda de vavalo acabou seus sonhos. Atrás, os automóveis formavam uma fila lenta e solene, enquanto os moradores, de pé nas calçadas, aplaudiam ou apenas abaixavam a cabeça.
Na entrada do cemitério, duas longas fileiras de pessoas esperavam para a última despedida. O sol começava a cair quando o cortejo avançou por entre túmulos antigos, muitos já cobertos de mato, outros completamente esquecidos. Os passos dos coveiros, os torroes de barro caindo sobre o caixão, os murmúrios, os soluços e as preces compunham uma espécie de litania de adeuses. A juventude, ali, enfim, se calava.
E, como disse Edmond Haraucourt:
“Partir é morrer um pouco.”
Mas morrer tão jovem — tão cedo — é rasgar o tecido da aurora.
E assim terminou o dia: com a dor escancarada, com o espanto intacto, e com a certeza muda de que viver — mesmo na flor da idade — é um risco que não se pode medir.
Por Palmarí H. de Lucena