Entrar numa academia moderna é uma experiência curiosa. Antigamente, academia era um lugar simples: as pessoas vestiam uma camiseta velha, um short confortável e iam levantar peso, correr ou fazer exercícios. Hoje, porém, entrar num ginásio pode parecer a chegada a uma passarela de moda, uma boate e um laboratório de tecnologia corporal, tudo ao mesmo tempo.
Não basta querer emagrecer. Aliás, emagrecer deixou de ser exclusivamente uma questão de sofrer na esteira, olhando para o relógio e perguntando se aqueles cinco minutos realmente passaram. As canetas de semaglutida entraram na conversa e agora a academia parece ter encontrado uma nova missão: transformar o cidadão emagrecido em uma versão suficientemente musculosa para caber, com dignidade, na roupa esportiva da moda.
Depois de emagrecer, surgem novas preocupações. É preciso definir, tonificar, ganhar músculos, perder gordura e fortalecer o famoso core, essa região misteriosa do corpo que muita gente só descobriu que existia depois de entrar numa academia. Hoje não basta subir na balança. Há relógios inteligentes, aplicativos, porcentagem de gordura, massa muscular e tantos números que uma simples ida ao ginásio pode parecer uma reunião da NASA.
As mulheres chegam com roupas esportivas perfeitamente combinadas. As leggings são justas, os tops harmonizam com os tênis e os cabelos parecem ter sido cuidadosamente preparados para uma sessão de fotos. Há aqueles coques que parecem feitos de maneira espontânea, mas provavelmente exigiram mais planejamento do que uma viagem de férias. Nada é exatamente casual, embora tudo precise parecer natural.
Os homens também não ficam atrás. Muitos chegam com camisetas ajustadas, bermudas esportivas, relógios inteligentes e uma aparência cuidadosamente construída para demonstrar que não se preocuparam nem um pouco com a aparência. Alguns usam roupas tão apertadas que parecem ter sido colocadas com ajuda de uma equipe especializada. Outros vestem camisetas que anunciam músculos que ainda estão em fase de desenvolvimento.
E depois vêm os tênis. Os tênis modernos parecem pequenas naves espaciais. Têm amortecimento, ventilação, estabilidade e tecnologias suficientes para atravessar continentes. O curioso é que o proprietário entra com um calçado aparentemente preparado para correr uma maratona e passa quarenta minutos caminhando numa esteira que não sai do lugar.
Outro elemento indispensável é a garrafa térmica. Não serve mais qualquer garrafinha. Agora é preciso ter uma garrafa grande, bonita e, de preferência, de uma marca conhecida. Ela é carregada com a importância de quem transporta um objeto precioso. Dentro existe apenas água gelada, mas a garrafa parece dizer muito mais do que isso. Ela informa ao mundo que seu proprietário se hidrata, se cuida e, sobretudo, tem bom gosto.
E não podemos esquecer as tatuagens heroicas. Braços, pernas, peitos e costas se transformaram em verdadeiras histórias de coragem. Há leões, dragões, guerreiros, vikings, samurais e super-heróis. Um rapaz levanta o braço para pegar um halter e parece que um guerreiro medieval entrou na academia junto com ele. Outro tem um leão tatuado no peito com uma expressão tão feroz que parece mais preparado para o treino do que o próprio dono.
Também existem as frases de superação. “Nunca desista”, “sem dor, sem ganho” e “foco, força e fé” aparecem gravadas na pele para ajudar nos momentos difíceis. E nenhum momento é mais difícil do que quando o instrutor se aproxima sorrindo e anuncia que ainda falta mais uma série. Nesse instante, até o guerreiro viking tatuado parece procurar uma saída de emergência.
Então começa a música. O som é alto, poderoso e repetitivo. Bam, bam, bam. A batida acompanha os exercícios, o agachamento, a corrida e os halteres. Depois de algum tempo, ninguém sabe mais se está fazendo atividade física ou participando de uma festa. As luzes também ajudam nessa confusão. Elas piscam e se refletem nos espelhos, nos tênis e nas garrafas térmicas.
Por alguns momentos, a academia deixa de parecer uma academia. Parece uma boate onde ninguém dança porque todos estão fazendo agachamento. A música continua, bam, bam, bam, enquanto as pessoas levantam pesos, correm nas esteiras e consultam os relógios inteligentes para saber quantas calorias já gastaram.
E, naturalmente, há o espelho. Antes, durante ou depois do exercício, chega o momento da fotografia. A foto diante do espelho parece fazer parte oficial do treinamento. Afinal, se ninguém registrou, como provar que realmente foi à academia? A fotografia também permite conferir se a roupa continua bonita depois de vinte minutos de exercício, o que talvez seja uma das mais importantes avaliações do dia.
Depois da fotografia e antes mesmo de começar qualquer exercício sério, entra em cena o verdadeiro companheiro de treino: o iPhone. A pessoa está na esteira, mas seus olhos não estão na frente. Estão constantemente na tela. A cada dois minutos verifica mensagens, notícias, redes sociais e informações completamente irrelevantes para o exercício físico.
Pode estar acompanhando uma discussão política internacional, vendo a fotografia do almoço de alguém, descobrindo que um desconhecido comprou um cachorro ou assistindo a um vídeo de outra pessoa fazendo exercícios. Nada disso ajuda a fortalecer o abdômen, aumentar os músculos ou melhorar o fôlego, mas parece absolutamente indispensável para completar a caminhada.
O curioso é que hoje existem relógios capazes de informar batimentos cardíacos, distância percorrida, calorias gastas e até a qualidade do sono. Mas, mesmo cercado por tanta tecnologia dedicada ao corpo, o frequentador prefere olhar para o iPhone para saber se alguém curtiu a fotografia que acabou de publicar com a legenda: Foco no treino.
Enquanto isso, a esteira continua funcionando, a música pulsa, as luzes piscam e o cidadão caminha lentamente, olhando para a tela como se estivesse conduzindo uma missão de importância nacional. Talvez seja por isso que alguns treinos durem tanto. Não é porque o exercício seja difícil. É porque, entre uma série e outra, há sempre uma pequena pausa para verificar algo absolutamente urgente: uma mensagem irrelevante, uma promoção de tênis que não precisa ou a vida de pessoas que provavelmente jamais encontrará.
A academia moderna virou muito mais do que um lugar para fazer exercícios. É também espaço de encontro, moda, tecnologia, vaidade e entretenimento. As pessoas querem cuidar do corpo, mas também querem se sentir bonitas, modernas e participantes daquele grande espetáculo coletivo.
No fim das contas, a academia moderna é um lugar extraordinário. As pessoas chegam vestidas como se fossem participar de um desfile, carregando garrafas térmicas como se fossem equipamentos de sobrevivência e usando tênis capazes, aparentemente, de pousar na Lua. Algumas trazem leões, dragões e guerreiros tatuados pelo corpo, enquanto outras carregam no bolso um iPhone que recebe mais atenção do que qualquer halter.
Todos querem cuidar do corpo, naturalmente, mas ninguém está disposto a fazer isso sem um mínimo de espetáculo. Há música estonteante, luzes hipnotizantes, espelhos por toda parte e aquela permanente sensação de que alguém, em algum canto, está fotografando o próprio braço depois de três séries de bíceps.
E assim segue a humanidade rumo à saúde. Uns caminham, outros correm, alguns levantam pesos e muitos levantam apenas a garrafa térmica enquanto procuram no iPhone uma informação urgente, como descobrir o que um desconhecido comeu no almoço ou quem curtiu a fotografia publicada com a legenda “foco no treino”.
No final, todos saem satisfeitos. Talvez não tenham queimado tantas calorias quanto imaginavam e talvez tenham passado mais tempo olhando para a tela do que para os aparelhos, mas a roupa permaneceu impecável, o cabelo resistiu bravamente, a garrafa continuou gelada e a fotografia ficou excelente.
Talvez esse seja o verdadeiro segredo da academia contemporânea: o treino precisa fazer bem ao corpo, mas também precisa render assunto, fotografia e, se possível, alguns elogios nas redes sociais. Afinal, numa época em que até a atividade física precisa produzir conteúdo, talvez o importante não seja apenas terminar o treino.
O importante é sair da academia parecendo que se está em condições de voltar amanhã.
Palmarí H. de Lucena