O passado habita registros, imagens, relatos e melodias. Algumas lembranças ecoam em canções, outras persistem nos documentos que guardam os vestígios de quem ousou desafiar os limites do seu tempo. Mas a história, embora resistente, pode ser moldada pelo que se escolhe preservar e pelo que se decide apagar. A exclusão nem sempre acontece pelo esquecimento natural — às vezes, é fruto de um gesto deliberado, uma tentativa de redesenhar o que deve ser lembrado e o que deve ser esquecido.
Nos últimos tempos, uma onda de revisões tem varrido os arquivos digitais de instituições militares, resultando na remoção silenciosa de milhares de imagens e documentos. Entre os afetados, um registro curioso: a fotografia do Enola Gay, aeronave que desempenhou um dos papéis mais definitivos na história da guerra moderna. Um equívoco técnico? Um excesso de zelo burocrático? Talvez. Mas esse incidente ilustra uma tendência mais ampla, na qual os limites do apagamento não se restringem a erros de sistema, mas a uma reconfiguração intencional do que deve ou não ser acessível ao olhar público.
A justificativa para essa revisão aponta para um alinhamento com novas diretrizes institucionais, um esforço para reestruturar o conteúdo digital de acordo com políticas renovadas. No entanto, por trás da neutralidade aparente de uma decisão administrativa, delineia-se uma transformação mais profunda: o redesenho das narrativas oficiais. Não se trata apenas da exclusão de imagens ou menções a determinadas figuras, mas da reconstrução de um imaginário coletivo no qual certas presenças são atenuadas ou eliminadas.
O curso da história sempre oscilou entre momentos de inclusão e tentativas de exclusão. Registros de pioneiros, de marcos desafiadores, de indivíduos que romperam barreiras — todos esses elementos compõem um legado que deveria servir como ponto de reflexão e aprendizado. No entanto, quando tais documentos são apagados, a própria possibilidade de questionamento se esvai. O que não se vê, o que não se menciona, corre o risco de ser esquecido.
A prática de reescrever o passado não é novidade. Em diferentes períodos históricos, regimes buscaram remodelar a memória coletiva por meio da omissão. Alguns métodos foram ostensivos, outros sutis, mas a essência permanece a mesma: a crença de que, ao apagar determinadas referências, se apaga também sua influência. No mundo digital, esse processo é ainda mais veloz e imperceptível. Não são necessárias grandes operações para modificar um acervo — basta um comando, uma decisão silenciosa que redefine o que permanece acessível e o que se dissolve no vazio.
As consequências dessa política de exclusão vão além da simples perda de arquivos. Quando determinados marcos históricos são eliminados, limita-se o horizonte das gerações futuras. Se a história não for contada em sua totalidade, como se reconhecerá o caminho percorrido? A identidade de um povo não se fortalece com o apagamento, mas com a capacidade de enfrentar sua própria complexidade.
Por trás do silêncio dos arquivos, esconde-se um receio maior: o medo do impacto que a memória pode causar. O que se busca eliminar não são apenas registros, mas as perguntas que eles poderiam suscitar, as discussões que poderiam provocar, as novas perspectivas que poderiam gerar. Se a história pode ser moldada pela ausência, o que se perde não é apenas o passado, mas também a liberdade de o interpretar.
Palmarí H. de Lucena