Jair Bolsonaro vive talvez o pior momento de sua trajetória política. No dia 29 de setembro, Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo e até então principal nome da direita para a eleição presidencial de 2026, anunciou que não concorrerá à Presidência. Preferiu disputar a reeleição ao governo paulista. O gesto soou como uma ruptura. Tarcísio havia prometido, caso eleito presidente, conceder perdão a Bolsonaro — condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado em 11 de setembro. Sem ele, a direita perdeu seu candidato mais competitivo e, com ele, a esperança de uma anistia.
Outros governadores do centro político começaram a se movimentar para ocupar o espaço deixado por Tarcísio, mas nenhum demonstra disposição de se associar à defesa do ex-presidente. Assim, evaporam-se as últimas alternativas de suavizar ou reverter a sentença. A tão aguardada reação dos Estados Unidos — que haviam prometido “retaliações” à condenação de Bolsonaro — não passou de retórica. E o projeto de anistia, que chegou a avançar no Congresso, perdeu força e apoio.
A família Bolsonaro, que parecia capaz de influenciar a sucessão e indicar um candidato de direita para enfrentar Lula, agora se vê isolada. O outrora poderoso clã político tornou-se irrelevante no jogo nacional.
Curiosamente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quem Bolsonaro costumava acusar de comunista, encontrou terreno fértil para reaproximação com Donald Trump. O encontro dos dois na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, no dia 23 de setembro, surpreendeu observadores e esfriou a hostilidade entre os dois países. Trump chegou a dizer que ambos tiveram “ótima química” e prometeram conversar por telefone.
A reviravolta pode ter motivações econômicas. Empresas americanas afetadas pelas tarifas impostas por Trump pedem moderação, entre elas a gigante brasileira JBS, duramente atingida pela tarifa de 50% sobre produtos brasileiros. Segundo a agência Reuters, Trump se reuniu recentemente com Joesley Batista, cofundador da empresa. O gesto teria contribuído para amenizar tensões — e, talvez inadvertidamente, beneficiar Lula, cuja aprovação subiu de 40% em junho para 44% em setembro, o melhor índice do ano.
Enquanto isso, o projeto de anistia que buscava libertar Bolsonaro naufragou diante da indignação popular. O acordo entre o Partido Liberal e o chamado centrão previa a tramitação acelerada da lei, em troca do apoio a uma “emenda de blindagem” que protegeria parlamentares de investigações do Supremo Tribunal Federal. O cálculo político foi um desastre: cerca de 100 mil pessoas foram às ruas em 21 de setembro protestar contra as duas propostas — uma das maiores mobilizações dos últimos anos.
O Congresso recuou. O Senado rejeitou a emenda de blindagem, e a Câmara vem diluindo o texto da anistia. O presidente da Casa, Hugo Motta, recusou-se a incluir na proteção o deputado Eduardo Bolsonaro, que, em março, mudou-se para o Texas para pressionar o governo Trump em favor do pai. O procurador-geral da República o denunciou por tentativa de influenciar indevidamente o julgamento do ex-presidente, e o Supremo autorizou a Polícia Federal a investigá-lo pelos crimes cometidos durante a pandemia.
Para piorar, o impopular Eduardo insiste em disputar a Presidência em 2026, dividindo a direita e precipitando a retirada de Tarcísio. Mesmo que o governador de São Paulo ainda volte atrás, o dano está feito. A influência do bolsonarismo se fragmenta. A família, antes símbolo de coesão ideológica, enfrenta agora seu próprio crepúsculo político — e o patriarca, condenado e sem aliados, arrisca-se a terminar seus dias encarcerado, prisioneiro das ruínas de um projeto que prometia “salvar o Brasil”, mas que acabou destruindo a si mesmo.
by Palmarí H. de Lucena