O Conforto da Irresponsabilidade

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O Conforto da Irresponsabilidade

Se Machado de Assis resolvesse escrever hoje sobre a situação político-econômica do Brasil, talvez precisasse apenas atualizar o vocabulário. Memórias Póstumas de Brás Cubas continua sendo, com precisão desconcertante, o livro que melhor descreve o país contemporâneo — não por antecipar crises específicas, mas por revelar um traço estrutural persistente: a convivência confortável entre privilégio, cinismo e ausência de responsabilidade.

A decisão de Machado de fazer de Brás Cubas um narrador morto está longe de ser um mero artifício literário. Trata-se de uma posição ética. O defunto fala sem medo porque já não responde por nada. Essa liberdade absoluta, desprovida de consequências, ecoa com inquietante atualidade num país onde decisões públicas frequentemente são tomadas como se o erro não tivesse custo moral, político ou institucional. Governa-se, muitas vezes, com a desenvoltura de quem imagina estar além do alcance do julgamento histórico.

Na política, a semelhança é particularmente incômoda. Brás Cubas não constrói obra duradoura, não deixa legado concreto, mas circula com desenvoltura entre cargos, salões e vaidades. Reconhece seus fracassos, mas os narra com tal elegância que quase os transforma em virtude. O dever é sempre secundário; a imagem, cuidadosamente administrada, ocupa o centro da cena. Não se trata de acusação a este ou àquele grupo, mas da descrição de um padrão que atravessa ideologias e épocas.

Na economia, a lógica se repete. Planos mal concebidos são anunciados com solenidade, improvisos ganham o nome de estratégia e déficits recorrentes são tratados como fatalidades históricas. O constrangimento raramente se instala. Como no célebre episódio do emplasto de Brás Cubas, a promessa importa mais do que o resultado. O projeto fracassa, mas a retórica sobrevive — e, com ela, a sensação de que algo grandioso está sempre prestes a acontecer, embora nunca se concretize.

Machado percebeu cedo que o problema central não é a corrupção como exceção, mas a normalização da esperteza como forma de inteligência. A astúcia é celebrada, o improviso é exaltado, e a falta de planejamento se disfarça de flexibilidade criativa. O país se move muito, fala muito, promete muito — e entrega pouco. O conforto da irresponsabilidade reside justamente aí: na capacidade de avançar sem responder, errar sem reparar e seguir adiante como se nada tivesse acontecido.

Talvez a frase mais dura de Memórias Póstumas seja também a mais esclarecedora: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” No século XXI, ela ressoa como metáfora amarga de um país que hesita em pensar o futuro. Reformas estruturais são constantemente adiadas, consensos mínimos parecem inalcançáveis, e cada geração administra o presente como se fosse o último capítulo — nunca o prefácio do seguinte.

Machado de Assis não escreveu um romance pessimista. Escreveu um romance lúcido. Não acusa, descreve; não moraliza, expõe. O desconforto que sua obra provoca hoje não vem do espelho em si, mas da constatação de que seguimos confortáveis diante da imagem refletida, mesmo quando ela revela nossas fragilidades mais persistentes.

Talvez o desafio do Brasil contemporâneo seja, enfim, abandonar a voz do defunto satisfeito e assumir a condição de quem ainda pretende viver — com responsabilidade, consequência e alguma disposição para enfrentar aquilo que a ironia, sozinha, jamais resolveu.

Por Palmarí H. de Lucena