O mundo está testemunhando uma aceleração no colapso da ordem internacional estabelecida após 1945. Em uma reviravolta surpreendente, os Estados Unidos recentemente se aliaram à Rússia e à Coreia do Norte contra a Ucrânia e a Europa nas Nações Unidas. Friedrich Merz, possível novo chanceler alemão, alertou que a OTAN pode deixar de existir até junho. Diante desse cenário, avizinha-se um mundo onde a força define as regras e as grandes potências impõem suas vontades sobre as menores.
Donald Trump e seus aliados acreditam que essa nova dinâmica trará paz e permitirá que os Estados Unidos lucrem após décadas de concessões injustas. No entanto, esse modelo transacional apenas tornará o mundo mais perigoso e os próprios Estados Unidos mais vulneráveis e economicamente fragilizados.
A estratégia dos Estados Unidos tem se assemelhado à de um “poderoso chefão” mafioso, como demonstrado na Ucrânia. Inicialmente, Washington exigiu US$ 500 bilhões, mas acabou fechando um acordo vago sobre a exploração conjunta de minerais ucranianos, sem clareza sobre garantias de segurança.
Para Trump, a política deve ser conduzida como uma sucessão de transações comerciais. Sua administração argumenta que os Estados Unidos foram explorados por um sistema que beneficiava terceiros às suas custas. Agora, tudo está em jogo: territórios, tecnologia, minerais e alianças estratégicas. Em fevereiro, após negociações sobre a Ucrânia com Emmanuel Macron, Trump resumiu sua visão: “Minha vida inteira é feita de acordos”. Assessores empresariais como Steve Witkoff têm viajado entre capitais explorando oportunidades que unem interesses diversos, como o reconhecimento de Israel pela Arábia Saudita e a reintegração da Rússia ao sistema global.
Esse modelo cria uma hierarquia global. Os Estados Unidos se colocam no topo, seguidos por nações ricas em recursos ou lideradas por figuras autocráticas sem amarras democráticas. Vladimir Putin busca restaurar a Rússia como império. Mohammed bin Salman quer modernizar o Oriente Médio e conter o Irã. Xi Jinping deseja um mundo adequado a uma China forte. Já os aliados dos EUA são vistos como dependentes fracos, passíveis de exploração.
Trump aposta em uma diplomacia de barganhas, ignorando que isso pode minar o próprio poder americano. Fronteiras estão em jogo: um simples aperto de mão entre Trump e Putin pode redefinir a Ucrânia. O conflito no Oriente Médio já desfigurou as fronteiras entre Israel, Líbano e Síria. Trump já cogitou adquirir territórios como a Groenlândia e pode tratar a questão de Taiwan e do Mar do Sul da China como meros itens de barganha com Pequim.
O impacto econômico vai além das tarifas. A fusão entre poder estatal e negócios particulares mina o próprio conceito de livre mercado e neutralidade comercial. Conversas bilaterais entre EUA, Rússia, Arábia Saudita, Taiwan e Ucrânia envolvem desde sanções e produção de petróleo até contratos de construção e serviços de satélite de Elon Musk.
Aqueles que defendem essa abordagem acreditam que ela trará benefícios globais. Trump argumenta que também servirá aos interesses americanos. Há alguma verdade nisso: a ordem pós-1945 estava desgastada e, quando a diplomacia convencional falha, soluções inovadoras podem funcionar, como os Acordos de Abraão entre Israel e alguns Estados árabes. No entanto, transformar essa lógica transacional no princípio fundamental da diplomacia global é um salto arriscado.
A complexidade é imensa. A Arábia Saudita quer um pacto de defesa contra o Irã, algo que os EUA podem oferecer caso Riad reconheça Israel. Mas isso exigiria que israelenses e palestinos concordassem com uma solução de dois Estados, algo que o próprio Trump rejeitou em seu plano para Gaza. A Rússia deseja o fim das sanções sobre seu petróleo, o que poderia afetar a Arábia Saudita e aumentar os custos energéticos da Índia. Nesse xadrez, qualquer concessão pode gerar uma reação negativa em cadeia.
Mais grave ainda, quando fronteiras se tornam negociáveis, os conflitos se multiplicam. Mesmo potências como a Índia podem se sentir inseguras. A falta de uma estrutura institucional pode fragilizar acordos, um dos motivos pelos quais Trump não é um Henry Kissinger.
A história mostra que os Estados Unidos também sofrerão. Seu papel global trouxe custos militares e exposição comercial, mas os benefícios superam as desvantagens. O dólar como moeda central economiza ao país mais de US$ 100 bilhões anuais em juros. Empresas americanas têm US$ 16 trilhões investidos no exterior, prosperando graças a um sistema comercial previsível e imparcial. A corrupção e o clientelismo favorecem empresas russas e chinesas, não as americanas.
Trump acredita que os Estados Unidos podem abandonar a Europa e possivelmente seus aliados asiáticos, confiando nos oceanos como barreira natural. Contudo, a guerra moderna se expande pelo espaço e pelo ciberespaço, tornando a distância geográfica irrelevante. Quando os EUA precisarem projetar poder militar, dependerão de bases aliadas como Ramstein, na Alemanha, e Pine Gap, na Austrália.
Acreditar que os EUA podem barganhar indefinidamente é um erro. Ao explorar dependências antigas, sua influência rapidamente se dissipará. Aliados traídos buscarão novas seguranças. Em um mundo caótico, a confiança e as regras valem mais do que uma negociação vantajosa de curto prazo. Trump pode ser convencido pelo Congresso, pelo mercado ou pelos eleitores a recuar. Mas o mundo já se prepara para uma era sem leis.
Palmarí H. de Lucena