Partimos de Fuzhou, capital da província de Fujian, rumo a Longyan, em um trem noturno que prometia conforto, mas entregou aventura. No centro do enredo, uma senhora idosa, de semblante sereno e mobilidade reduzida, enfrentava a jornada com a serenidade de quem já conheceu muitas fronteiras. Montamos um andor improvisado para levá-la pelos seis vagões que nos separavam da chamada “primeira classe” — mais título do que realidade.
O compartimento tinha quatro beliches, dois de cada lado. O ambiente era simples, quase monástico. A idosa ficaria no centro, e nós, cavaleiros de ocasião, revezaríamos o descanso e o turno de “andoristas” sempre que ela precisasse ir ao banheiro — localizado, claro, no vagão anterior, como se alguém tivesse projetado o trem com um toque de humor britânico.
Em uma dessas travessias, cruzamos com soldados vendendo brinquedos eletrônicos. Compramos três dúzias — talvez pelo prazer de negociar em outra língua, talvez pela infantil vontade de levar lembranças inúteis. Foi então que percebemos o desaparecimento do cinturão com a carteira de dinheiro. Um sumiço digno de roteiro policial, desses que começam com confusão e terminam em diplomacia.
A Voz — nosso intérprete, guia, tradutor e improvável anjo da guarda — assumiu o caso com seriedade de detetive. Entre ligações febris e tragos apressados de cigarro, avisou, horas depois, que o cinturão fora encontrado no quarto do hotel anterior. O faxineiro que o devolveu à gerência ganhara uma promoção por honestidade exemplar. E a Voz garantiu: o objeto nos esperaria em Longyan.
Chegamos exaustos. Após a recepção oficial, fomos informados de que um vice-prefeito e um subdelegado já haviam partido para Fuzhou, em missão especial para recuperar o cinturão. No fim da tarde, o hotel exigia novas assinaturas e cópias autenticadas dos nossos documentos. Tudo seria resolvido “amanhã” — palavra que, em qualquer idioma, costuma significar “espere sentado”.
Dois oficiais levaram as papeladas a Fuzhou. Quatro voltariam no dia seguinte. Tudo, diziam, se resolveria na manhã do quinto dia. Pena que, até lá, já teríamos passado por oito cidades e um sem-fim de banquetes protocolares.
Apesar das promessas insistentes da Voz, mantínhamos um ceticismo educado. Mas estávamos enganados. Na véspera da partida, a Voz reapareceu triunfante, batendo à porta com expressão de quem trazia boas novas.
Na recepção, mais de uma dúzia de pessoas nos aguardava. Um funcionário sênior, cerimonioso, entregou um envelope grande, lacrado, coberto de carimbos e ideogramas. Pediu que o abríssemos ali mesmo. Envelope dentro de envelope — uma verdadeira matrioska burocrática. No menor deles, repousavam as vinte e cinco notas de cem dólares, intactas, acompanhadas da carteira e do cinturão que haviam causado tanto alvoroço.
“Flash, flash, flash!” — uma sequência de fotos, como se estivéssemos diante de um ato heroico. Pediram mais uma, com os dólares abertos em leque. Risos, aplausos, tapinhas nas costas. Um rodízio de cumprimentos e uma festa digna de final de campeonato.
No banquete de despedida, fomos informados de que vinte e três pessoas haviam recebido elogios oficiais por sua participação no “resgate do cinturão”. O rally dos 2.500 dólares tinha seus vencedores, medalhas simbólicas e heróis anônimos.
O verdadeiro campeão, contudo, foi a Voz. Desapareceu no dia seguinte — tão misteriosa quanto havia surgido. Nunca nos disse seu nome. Nunca perguntamos. Talvez porque, no fundo, sabíamos que personagens assim pertencem mais às boas histórias do que à vida real.
E foi ali, entre brindes e despedidas, que entendemos o que a Ásia tem de mais fascinante: a capacidade de transformar burocracia em epopeia, contratempos em cerimônias e gestos simples em poesia coletiva. O cinturão voltou, sim — com carteira e dólares — mas o que realmente recuperamos foi a fé nas pequenas virtudes humanas: a paciência, o riso e aquela doce e absurda esperança de que, mesmo nos trilhos mais longos, há sempre alguém disposto a ajudar — e a transformar um simples extravio em história digna de ser contada.
Provincia de Fujian, República Popular da China 2002
Por Palmarí H. de Lucena