De O Som ao Redor a The Secret Agent, Kleber Mendonça Filho transforma o país em objeto de análise cinematográfica
Poucos cineastas contemporâneos observaram o Brasil com a acuidade de Kleber Mendonça Filho. Ao longo da última década, sua filmografia deixou de ser apenas um conjunto de histórias ambientadas no Recife para se tornar uma investigação persistente sobre as estruturas profundas da sociedade brasileira. Seus filmes examinam aquilo que muitas vezes permanece invisível no cotidiano: as hierarquias herdadas da história, as engrenagens da violência social e a relação instável do país com a própria memória. Vista em perspectiva, sua obra revela um movimento de expansão contínua — do espaço doméstico à história nacional.
Esse percurso começa com O Som ao Redor (2012), passa por Aquarius (2016) e Bacurau (2019) e encontra síntese em The Secret Agent, obra que aprofunda e organiza as inquietações presentes em toda a sua trajetória.
Em O Som ao Redor, seu primeiro longa de ficção, Mendonça Filho constrói o retrato inquietante de uma rua de classe média no Recife. À primeira vista, o filme acompanha a rotina de moradores que contratam uma empresa privada de segurança. Mas a narrativa fragmentada, feita de pequenas histórias paralelas, revela um ambiente marcado por desconfiança e tensão social. O passado brasileiro — com suas relações de mando, desigualdade e heranças escravistas — aparece como um fantasma que continua a estruturar o presente. A violência, sugere o filme, não se manifesta apenas nos episódios espetaculares de crime ou repressão, mas também nos gestos cotidianos, nas pequenas humilhações e nas hierarquias silenciosas da vida urbana.
Quatro anos depois, em Aquarius, o diretor desloca esse olhar para a memória e a transformação da cidade. A protagonista Clara, interpretada por Sonia Braga, é uma crítica musical aposentada que resiste à pressão de uma construtora interessada em demolir o prédio onde vive. O conflito privado revela algo maior: de um lado, a preservação da memória pessoal e coletiva; de outro, a lógica agressiva da especulação imobiliária. O Recife do filme surge como uma cidade em permanente mutação, onde o progresso frequentemente se constrói sobre o apagamento do passado.
A dimensão política dessa observação torna-se explícita em Bacurau, realizado com Juliano Dornelles. Ambientado em um vilarejo fictício do sertão nordestino, o filme abandona o realismo urbano e adota uma estética híbrida que mistura western, ficção científica e horror. A trama acompanha uma comunidade que descobre estar sendo caçada por estrangeiros ricos com a cumplicidade de um político local. A alegoria é clara: o Brasil periférico surge como território de exploração, onde elites internas e interesses externos se articulam para transformar vidas humanas em mercadoria.
É em The Secret Agent, porém, que essas preocupações atingem sua forma mais complexa. Ambientado nos últimos anos da ditadura militar brasileira, o filme acompanha Armando Solimões, interpretado por Wagner Moura, um pesquisador que chega a Recife fugindo após enfrentar um empresário corrupto interessado em explorar seu trabalho. O título sugere um thriller político convencional, mas Mendonça Filho rapidamente subverte essa expectativa. Armando não é um militante clandestino nem um herói da resistência: é um homem comum preso a uma engrenagem de perseguição e violência.
Essa escolha desloca o centro da narrativa. Em vez de tratar a ditadura apenas como aparato repressivo do Estado, o filme examina como a brutalidade autoritária infiltra-se nas relações sociais cotidianas — nas disputas econômicas, nas rivalidades masculinas, nas hierarquias de classe e nas tensões raciais. Um dos personagens mais reveladores é Bobbi, assassino contratado para encontrar Armando. Marcado por traumas familiares e humilhações pessoais, ele reproduz a violência que sofreu ao delegar o trabalho sujo a um trabalhador pobre do norte do país. Nesse gesto banal, o filme condensa aquilo que o diretor chamou de “a lógica do Brasil”: uma cadeia de dominação que se transmite de cima para baixo.
Outro elemento que distingue The Secret Agent é sua dimensão histórica. A narrativa ambientada nos anos 1970 se alterna com cenas no presente, nas quais pesquisadores transcrevem depoimentos de pessoas perseguidas pelo regime militar. Esses fragmentos transformam a ficção em exercício de reconstrução da memória coletiva. Ao fazê-lo, Mendonça Filho toca em um ponto sensível da história brasileira: a dificuldade do país em confrontar seu próprio passado.
O desfecho amplia ainda mais essa perspectiva ao revelar que a própria origem familiar de Armando remonta a relações de exploração racial e social herdadas do passado colonial. A ditadura militar deixa de ser um episódio isolado e passa a integrar uma história longa de desigualdade e violência. Autoritarismo, sugere o filme, não nasce apenas de circunstâncias políticas momentâneas; ele emerge de estruturas históricas profundas.
Vista em conjunto, a filmografia de Kleber Mendonça Filho revela um percurso claro. Em O Som ao Redor, ele observa as tensões de uma rua; em Aquarius, investiga a memória de uma cidade; em Bacurau, constrói uma alegoria nacional; em The Secret Agent, mergulha nas camadas históricas que sustentam essas contradições.
Mais do que retratar o Brasil, seu cinema parece empenhado em compreendê-lo — explorando continuidades históricas, mecanismos de poder e zonas persistentes de esquecimento.
No fim das contas, a pergunta que atravessa The Secret Agent — e talvez toda a obra do diretor — não é apenas por que um personagem está fugindo. A questão mais inquietante é outra: de que parte de sua própria história o Brasil ainda tenta escapar.
Por Palmarí H. de Lucena