Numa velha edição de Moby-Dick, o capitão Ahab surge não apenas como um homem perseguindo uma baleia, mas como alguém devorado pela necessidade de transformar o mundo em reflexo de sua própria febre. Herman Melville compreendeu cedo aquilo que a política moderna parece confirmar diariamente: certos líderes deixam de interpretar a realidade e passam a habitá-la como autores de uma peça privada, onde fatos importam menos do que símbolos e inimigos escolhidos.
Observando Donald Trump, é difícil não reconhecer algo dessa anatomia moral. Não porque exista equivalência direta entre um capitão do século XIX e um presidente americano, mas porque ambos compartilham uma mesma lógica de imaginação absoluta. Ahab olhava para a baleia branca e enxergava nela a soma de todas as humilhações do universo. Trump, em muitos momentos de sua trajetória pública, parece operar pela mesma condensação dramática: a imprensa torna-se conspiração, adversários convertem-se em traidores existenciais, eleições assumem contornos apocalípticos, e a política deixa de ser administração para tornar-se guerra simbólica.
Mas talvez a aproximação entre os dois se revele com mais nitidez na ideia de viagem. Em Moby-Dick, a travessia do Pequod deixa de ser uma expedição comercial e transforma-se lentamente numa peregrinação psicológica. O navio avança pelos oceanos não apenas em busca da baleia, mas rumo ao interior da obsessão de Ahab. Cada porto abandonado, cada aviso ignorado, cada encontro com outros marinheiros funciona como um presságio recusado. A jornada marítima converte-se numa espécie de túnel moral: quanto mais distante da terra, mais distante da realidade compartilhada.
Também a trajetória de Trump pode ser lida como uma viagem simbólica através da imaginação americana contemporânea. Ele emerge inicialmente como figura do excesso — empresário convertido em celebridade, habitante natural da televisão, dos cassinos, dos arranha-céus dourados e da cultura do espetáculo. Sua entrada na política parecia, no começo, quase uma extensão do entretenimento. Contudo, à medida que avançava, sua campanha transformou-se numa embarcação carregando ressentimentos dispersos, ansiedades econômicas, frustrações culturais e uma nostalgia difusa de grandeza nacional perdida. Como o Pequod, o movimento ganhava força justamente por rejeitar advertências externas.
Existe uma característica profundamente americana nisso tudo — a crença de que a personalidade pode substituir instituições. O Atlântico literário de Melville já anunciava esse perigo: o mar era vasto demais para ser dominado, mas Ahab precisava acreditar que sua vontade individual era suficiente para dobrá-lo. Trump também construiu sua imagem sobre a fantasia da excepcionalidade pessoal, como se governar fosse uma extensão do instinto empresarial e da força performática. Seus discursos frequentemente dispensam a linguagem burocrática em favor de algo mais próximo do espetáculo moral, onde ele ocupa simultaneamente os papéis de vítima, juiz e salvador.
Em ambos os casos, a viagem produz um isolamento progressivo. Ahab torna-se incapaz de enxergar o oceano como realidade concreta; tudo passa a existir apenas em função da baleia branca. Trump, por sua vez, frequentemente parece interpretar acontecimentos complexos como capítulos de uma narrativa pessoal de perseguição e retorno. O mundo deixa de possuir ambiguidades. Há apenas aliados absolutos ou inimigos absolutos, vitória total ou desastre irreversível. Essa simplificação emocional é parte essencial do magnetismo que exercem.
O mais inquietante, contudo, nunca é o líder isolado. É a tripulação.
Melville percebeu que obsessões individuais só se tornam históricas quando encontram público disposto a compartilhá-las. O Pequod continua navegando não porque Ahab enlouqueceu, mas porque homens comuns aceitaram embarcar em sua visão. Na política contemporânea, a dinâmica reaparece sob novas formas: multidões cansadas da complexidade preferem narrativas totais, simples, emocionalmente satisfatórias. O líder oferece clareza; em troca, pede fidelidade. Pouco a pouco, a realidade objetiva passa a competir com uma dramaturgia coletiva mais sedutora.
Há ainda outro detalhe perturbador na viagem de Ahab: ela não admite retorno. Desde o instante em que a obsessão toma o comando do navio, o destino deixa de ser negociável. O percurso inteiro passa a obedecer à lógica da compulsão. Em certa medida, movimentos políticos fortemente personalistas compartilham essa dificuldade. Eles necessitam de conflito contínuo para sobreviver; sem antagonismo, perdem energia. A travessia precisa continuar, mesmo quando o horizonte já sugere tempestade.
Talvez por isso Ahab permaneça atual. Ele representa menos um indivíduo específico do que uma tentação recorrente da vida pública: a sedução do homem que transforma ressentimento em destino histórico. Toda época produz seus próprios capitães, figuras que prometem reduzir o caos do mundo a um único combate redentor. E toda sociedade decide, conscientemente ou não, se deseja apenas observá-los da costa — ou embarcar junto.
Por Palmarí H. de Lucena