Não escrevo para defender partidos, candidatos ou governos. Escrevo porque me inquieta a maneira como discutimos o Brasil: muitas vezes, apontamos os mesmos culpados, questionamos os mesmos gastos e deixamos de olhar para interesses que também pesam sobre o destino do país. Nas conversas com amigos, gosto de questionar certezas e confrontar opiniões com fatos. Não para ter sempre razão, mas para compreender melhor a realidade. E, quando o assunto é economia e dinheiro público, acredito que precisamos olhar para todos os lados — inclusive para aqueles que raramente entram na mira das nossas críticas.
Quando se fala em contas públicas, é comum que a discussão se concentre nos gastos do governo, nos programas sociais e no tamanho da máquina pública. São temas legítimos e precisam ser debatidos. Mas há outra parte dessa conta que merece atenção: os benefícios tributários concedidos a empresas e setores econômicos. Eles também têm impacto sobre a arrecadação e, portanto, sobre os recursos disponíveis para financiar políticas públicas.
A estimativa de gastos tributários federais para 2026 chega a cerca de R$ 612,84 bilhões. Esse valor representa receitas das quais o Estado abre mão por meio de isenções, deduções e outros benefícios previstos em lei. Não se trata de dinheiro transferido diretamente às empresas, nem significa que todo benefício seja desperdício. Alguns podem estimular investimentos, produção e empregos. A questão é saber, com transparência e dados, quais cumprem seus objetivos, quais precisam ser revistos e quais continuam existindo sem resultados proporcionais ao custo para a sociedade.
A Lei Complementar nº 224/2025 prevê a redução de determinados benefícios tributários, respeitando regras e exceções. A reação de setores empresariais também merece ser ouvida. Empresas enfrentam juros elevados, crédito caro, complexidade tributária e concorrência interna e externa. Esses problemas são reais e não devem ser ignorados. Mas reconhecer as dificuldades do setor produtivo não elimina a necessidade de avaliar o retorno dos incentivos que recebe.
Quando mencionamos a Faria Lima, usamos muitas vezes o nome como símbolo do mercado financeiro e de interesses econômicos influentes. É importante não transformar essa referência em acusação genérica contra todos os investidores ou empresários. Ainda assim, cabe perguntar: os grupos com maior capacidade de influência também são cobrados com o mesmo rigor quando se discute o uso dos recursos e das vantagens concedidas pelo Estado?
Uma pesquisa da indústria divulgada pela CNI em junho de 2026 ajuda a ilustrar essa discussão: entre as prioridades apontadas para o governo, aparecem a redução de tributos e a reforma tributária, assim como o equilíbrio fiscal e a gestão pública. Quando consultadas sobre as próprias empresas, muitas também destacam a redução da carga tributária. Não há nada de ilegítimo em defender menos impostos. O ponto é que a conversa sobre reduzir tributos precisa incluir também uma avaliação clara dos benefícios já existentes e de quem efetivamente se beneficia deles.
Essa discussão ganha outra dimensão quando colocamos os números ao lado de uma das políticas sociais mais debatidas no país: o Bolsa Família.
O programa é frequentemente questionado por seu custo, por seus efeitos sobre a pobreza e por possíveis incentivos ao trabalho. Essas questões podem e devem ser examinadas com seriedade, sem caricaturas e sem presumir que toda crítica seja movida por preconceito. Políticas públicas precisam ser avaliadas por seus resultados, pela qualidade de sua execução e pela capacidade de melhorar a vida das pessoas.
Para 2026, o orçamento do Bolsa Família está estimado em cerca de R$ 158,63 bilhões. Já a estimativa de gastos tributários federais é de R$ 612,84 bilhões — quase quatro vezes mais. É importante fazer uma ressalva: estamos comparando categorias diferentes. O Bolsa Família é uma despesa direta do orçamento; os gastos tributários são estimativas de receitas que deixam de ser arrecadadas. A comparação, sozinha, não prova que uma política seja melhor ou pior do que a outra. Ela serve, porém, para ampliar o debate sobre a dimensão das escolhas fiscais do país.
Se cobramos transparência, resultados e responsabilidade de quem recebe recursos públicos, não deveríamos exigir o mesmo de quem se beneficia de vantagens tributárias? Se perguntamos quanto custa um programa social e quais resultados ele entrega, também precisamos perguntar quanto custam os incentivos concedidos a empresas, quais contrapartidas oferecem e como seus efeitos são medidos.
Não se trata de colocar os mais pobres contra as empresas. Uma economia saudável precisa de negócios capazes de investir, inovar e gerar empregos, assim como precisa de políticas que protejam pessoas em situação de vulnerabilidade. O que não faz sentido é aplicar critérios rigorosos a um lado e aceitar explicações vagas para o outro. Benefícios públicos, sejam despesas diretas ou renúncias de receita, precisam ter objetivos claros, avaliação periódica e prestação de contas.
Também é possível que indicadores econômicos positivos convivam com dificuldades concretas no cotidiano: famílias endividadas, poder de compra limitado e pequenos negócios pressionados por custos e juros. A percepção da população sobre a economia não depende de um único número, assim como a insatisfação política não pode ser explicada por uma única causa. Para compreender o país, precisamos observar o conjunto — e resistir à tentação de escolher previamente um culpado.
Afinal, o dinheiro público não tem lado político, e a responsabilidade fiscal não deveria ter dois pesos e duas medidas. Um país justo não é aquele que impede as empresas de crescer nem aquele que ignora a necessidade de proteger quem mais precisa. É aquele que exige transparência, eficiência e compromisso de todos os que se beneficiam das decisões do Estado.
Palmarí H. de Lucena