Entre o vinho e o esquecimento, o que realmente pesa é o modo de viver
Nos países em que o vinho é parte da mesa e do costume — França, Itália, Alemanha — seria natural imaginar que o consumo diário de álcool viesse acompanhado de índices mais altos de demência. No entanto, as estatísticas dizem o contrário. Entre brancos da Borgonha e tintos da Toscana, o esquecimento não parece ter encontrado terreno fértil.
O jornalista Richard Sima, da coluna Brain Matters, do The Washington Post, oferece uma explicação que combina ciência e cultura. O problema, diz ele, não é apenas o quanto se bebe, mas como se bebe. Um copo de vinho por dia pode introduzir algum risco, mas o consumo excessivo e intermitente — as famosas “bebedeiras de fim de semana” — é desproporcionalmente mais nocivo ao cérebro.
Os cientistas chamam isso de efeito de acendimento (kindling effect): o cérebro, exposto repetidas vezes ao álcool e depois à abstinência, entra em pequenos ciclos de “mini-abstinências”, reações químicas que, com o tempo, tornam-se tóxicas às células nervosas. É como se cada ressaca acendesse uma centelha invisível dentro da cabeça.
Mas o álcool é apenas um entre muitos fatores de risco. A demência é uma soma complexa, quase um mosaico: sedentarismo, hipertensão, isolamento social, tabagismo, baixa escolaridade, diabetes, obesidade, traumatismos cranianos, poluição e perda auditiva — todos eles ajudam a compor o quadro.
A boa notícia, segundo o Lancet, é que quase metade dos casos de demência são evitáveis. E se há algo de tranquilizador nisso é a lembrança de que o risco não é destino. A prevenção mora nos gestos cotidianos — caminhar, ler, ouvir, conviver, cuidar da pressão, do corpo e da mente.
A Europa, que serve vinho com pão e conversa, tem também melhor acesso à educação e menos fumantes. O aumento da escolaridade e a redução do tabagismo, por exemplo, compensam parte dos efeitos de uma taça a mais. Ao mesmo tempo, crescem a obesidade e o diabetes — mas também a capacidade médica de tratá-los.
No fundo, o que os números e as metáforas revelam é que a forma de viver pesa tanto quanto a de beber. Beber por prazer, como parte da refeição, é diferente de beber por esquecimento. O vinho que acompanha a conversa é outro do que busca calar o silêncio.
Os especialistas não pedem abstinência; pedem consciência. “Ainda é aceitável beber”, admite Sima, “desde que com equilíbrio e clareza”. Ele mesmo confessa, com ironia confidente, que aprecia um bom uísque com gelo.
A ciência, nesse caso, faz eco à sabedoria antiga: o problema nunca esteve no cálice, mas na sede. O segredo está na medida — e talvez também na companhia.
Por Palmarí H. de Lucena