Uma crônica sobre fotografias, poder e a velha mania de olhar para o norte em busca de aprovação
Brasília tem dessas coisas. De vez em quando, alguém descobre que conhece uma pessoa importante em Washington e passa a olhar o mundo com outros olhos. O telefone parece tocar mais alto, os discursos ganham ares internacionais e até os problemas de casa parecem menores diante da possibilidade de uma boa conversa na Casa Branca.
A fotografia, então, é uma beleza. Dois homens, duas bandeiras, um aperto de mão. Se houver um sorriso convincente, melhor ainda. Está feita a imagem: o Brasil tem amigos poderosos.
O problema é o dia seguinte, quando a fotografia continua na parede, mas os interesses começam a falar mais alto.
Donald Trump e o Partido Republicano despertam simpatias em setores da política brasileira que enxergam nessa aproximação uma oportunidade de fortalecer suas próprias ideias e ampliar a influência do Brasil junto ao governo americano. Não é difícil compreender a lógica. Quem não gostaria de ter a porta aberta na maior potência econômica e militar do planeta?
A questão é saber o que se faz depois de entrar.
Porque uma coisa é conversar com o presidente dos Estados Unidos; outra é imaginar que, por causa dessa conversa, o Brasil passa a participar das decisões de Washington. A proximidade pode render uma audiência, facilitar um acordo, criar uma oportunidade. Não transforma, porém, os interesses de dois países em interesses idênticos. Nem mesmo entre amigos de longa data isso costuma acontecer — pergunte a qualquer casal que já tenha tentado escolher onde passar o feriado.
Na política internacional, a diferença é que a conta pode ser bem mais salgada.
Trump tem sua agenda, seus eleitores, suas prioridades e sua maneira de interpretar o papel dos Estados Unidos no mundo. O Brasil tem as suas. Quando elas coincidem, ótimo. Quando divergem, é preciso negociar. O risco começa quando a vontade de preservar a amizade se torna tão grande que o amigo deixa de ser questionado, mesmo quando suas decisões merecem exame.
É o tipo de constrangimento que não aparece na fotografia.
Veja-se a Doutrina Monroe, que voltou a frequentar o vocabulário de Washington sob nova roupagem. A administração Trump reafirmou a pretensão de manter a primazia americana no Hemisfério Ocidental, associando-a à segurança nacional, ao combate ao narcotráfico e à contenção de potências rivais. A mensagem é clara: os Estados Unidos querem preservar sua influência sobre uma região que consideram estratégica.
Há questões legítimas nessa agenda. O tráfico internacional de drogas é um problema real, a segurança interessa a todos e a competição entre grandes potências não é invenção de gabinete. Mas existe uma pergunta que não pode ficar na antessala: até onde vai o direito de um país defender seus interesses e onde começa a pretensão de decidir pelos outros?
A América Latina conhece os custos de ter seus interesses tratados como assunto secundário. Não é preciso transformar o passado em profecia para perceber que a reafirmação de uma primazia regional merece atenção. Basta observar o presente e perguntar quem define os limites da pressão, quem escolhe os parceiros legítimos e quem decide o que é aceitável para cada país.
É aqui que a nossa conversa fica interessante.
Como reagiríamos se outra potência declarasse que a América do Sul constitui sua zona de interesse prioritário e que, por razões de segurança, teria o direito de condicionar nossas escolhas? Provavelmente faríamos discursos inflamados sobre independência e autodeterminação. Haveria notas diplomáticas, entrevistas e muita indignação nas redes sociais.
Mas, se a pretensão vier de um governo com o qual compartilhamos afinidades ideológicas, a indignação corre o risco de tirar férias.
Eis o perigo do alinhamento partidário: não necessariamente apoiar, de maneira explícita, cada decisão de um aliado, mas passar a encontrar justificativas para aquilo que, em outras circunstâncias, consideraríamos inaceitável. O apoio tácito pode morar numa palavra omitida, numa crítica adiada, numa explicação generosa demais. É discreto, não faz barulho e, quando percebemos, já está sentado à mesa.
O Brasil não precisa romper com Trump para defender seus interesses. Não precisa hostilizar os republicanos, cortejar os democratas ou transformar a política externa numa guerra de torcida. Precisa apenas lembrar que os Estados Unidos têm seus objetivos e que o Brasil também deveria ter os seus — de preferência definidos em Brasília, e não conforme a temperatura política da Casa Branca.
A disputa pelo Congresso americano é mais um lembrete de que o cenário político pode mudar — e de que Brasília não deveria confundir afinidade partidária com estratégia de Estado. Em Washington, os ventos mudam; ao Brasil cabe manter o leme.
Enquanto os políticos discutem quem tem mais amigos na capital americana, a vida real segue fazendo suas cobranças. O exportador quer saber quanto pagará de tarifa. O empresário procura saber se deve investir. O produtor rural deseja vender sua safra. Nenhum deles consegue pagar uma conta com uma fotografia diplomática, por mais bonita que seja.
É curioso como a geopolítica, essa palavra que parece exigir mapas enormes e salas refrigeradas, acaba chegando ao balcão da padaria, ao caixa da pequena empresa e à mesa de jantar de quem espera o salário no fim do mês.
Por isso, convém desconfiar da diplomacia transformada em espetáculo. A aproximação pessoal pode ser útil, mas não substitui acordos sólidos, instituições fortes e uma política externa que sobreviva à troca de presidentes. Uma relação madura permite concordar quando há convergência e discordar quando o interesse nacional exige. Não há desfeita nisso. Há apenas a diferença entre ser parceiro e ser dependente.
A América Latina não é um quintal à espera de um proprietário, nem o Brasil precisa comportar-se como o vizinho que concorda com tudo para continuar convidado para o churrasco.
Talvez esteja na hora de Brasília olhar menos para a fotografia e um pouco mais para a legenda. Quem aparece ao nosso lado? O que estamos negociando? O que estamos recebendo? E, sobretudo, a que estamos renunciando para continuar sorrindo?
Porque o problema nunca foi ter amigos em Washington, mas confundir a proximidade com garantia de interesses comuns. Trump pode mudar de estratégia, o Congresso pode mudar de mãos e os ventos políticos podem soprar em outra direção. Brasília não escolhe esses ventos, mas pode decidir o rumo.
Em Brasília, porém, nunca falta quem procure uma nova moldura — e um lugar ao lado de quem manda na Casa Branca.
Palmarí H. de Lucena