O Brasil que conheci em 2004 e a soberania que precisamos preservar

O Brasil que conheci em 2004 e a soberania que precisamos preservar

Registro pessoal: encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante sua visita a Nova York de 19 a 22 de setembro de 2004, para participar da 59ª Assembleia Geral da ONU.

Uma reflexão pessoal sobre memória, democracia e o direito de uma nação decidir seu próprio destino

Em 2004, tive o privilégio de conhecer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, encontro que guardo na memória e registro nesta fotografia. A ocasião ocorreu em um período em que o Brasil buscava ampliar sua presença internacional e afirmar seu compromisso com o combate à fome, à pobreza e às desigualdades sociais. Recordar essa experiência hoje não significa idealizar um governo ou ignorar as contradições da política, mas refletir sobre uma questão que continua essencial: a capacidade de o Brasil defender seus interesses e decidir seu próprio caminho, com democracia, responsabilidade e soberania.

Naquele mesmo espírito se inscrevia o Fórum Social Mundial, realizado pela primeira vez em Porto Alegre, em 2001, sob o lema “Um outro mundo é possível”. A iniciativa expressava a busca por relações internacionais mais justas, maior participação dos países em desenvolvimento nas decisões globais e uma economia mundial menos marcada pela concentração de riqueza e oportunidades.

O discurso de Lula na 59ª Assembleia Geral da ONU, em 21 de setembro de 2004, permanece como um registro daquele momento. Nele, o presidente abordou a fome, a desigualdade e a necessidade de reformar as estruturas internacionais. O texto integral do discurso pode ser consultado no acervo oficial do governo brasileiro.

Ao recordar aquela experiência, não pretendo idealizar um governo ou ignorar as contradições da política. O que me interessa é recuperar uma convicção que permanece atual: o Brasil pode participar ativamente da vida internacional sem renunciar à sua autonomia, à sua identidade e ao direito de construir o próprio caminho.

É justamente essa convicção que orienta minha preocupação com os desafios de hoje. A imagem internacional de um país não se constrói apenas pela atuação de seu governo. Também é influenciada pelo comportamento de seus representantes, pela solidez de suas instituições e pela capacidade de a sociedade preservar o interesse público acima de disputas circunstanciais.

As relações internacionais envolvem interesses divergentes, disputas econômicas e diferentes concepções de democracia. O problema surge quando pressões externas passam a interferir no espaço de decisão de uma nação ou quando agentes internos buscam apoio estrangeiro para disputas que deveriam ser conduzidas pelos meios institucionais brasileiros. Tais situações merecem escrutínio público, mas sua avaliação deve partir de fatos verificáveis, documentos e responsabilidades individualizadas.

As medidas adotadas pelos Estados Unidos em 2025 tornaram esse debate particularmente concreto. Em 30 de julho daquele ano, o Departamento do Tesouro norte-americano anunciou sanções contra o ministro Alexandre de Moraes, apresentando suas próprias justificativas jurídicas e políticas. Na mesma data, a Casa Branca publicou uma ordem executiva que estabeleceu tarifas adicionais de 40% sobre determinadas importações brasileiras, com exceções previstas no próprio ato. Essas decisões e os fundamentos apresentados pelo governo norte-americano estão documentados nos comunicados oficiais do Departamento do Tesouro e da Casa Branca.

Conhecer essas justificativas é indispensável, mas não encerra a discussão. Também é legítimo examinar os efeitos das medidas sobre as relações bilaterais, a atividade econômica e a autonomia das instituições brasileiras. A questão não consiste em rejeitar toda crítica externa, mas em defender que divergências entre países sejam tratadas com respeito recíproco, diálogo diplomático e observância das normas aplicáveis.

Preocupa-me, nesse contexto, a possibilidade de que divergências políticas brasileiras sejam convertidas em instrumentos de pressão econômica ou diplomática, sobretudo quando iniciativas de agentes nacionais contribuem para esse processo. A existência de articulações, seus objetivos e suas consequências, contudo, deve ser demonstrada em cada caso. A crítica ganha força quando se apoia em evidências, e não quando presume intenções ou atribui responsabilidades coletivas sem fundamento.

A mesma reflexão se aplica às grandes empresas de tecnologia, as chamadas Big Techs. Sua influência sobre a comunicação, os mercados digitais e a circulação de informações levanta questões importantes sobre concorrência, liberdade de expressão, responsabilidade empresarial e jurisdição. O Brasil tem o direito de debater e aplicar suas leis, respeitando as garantias fundamentais e o devido processo legal. As empresas, por sua vez, podem contestar decisões pelos meios jurídicos cabíveis.

O desafio é impedir que o poder econômico determine sozinho as regras do espaço público. Uma regulação legítima precisa ser transparente, fundamentada e sujeita ao controle democrático. O objetivo deve ser conciliar inovação, liberdade, concorrência e proteção de direitos, sem conceder privilégios indevidos a empresas nacionais ou estrangeiras.

Há ainda uma dimensão estratégica que merece atenção: nossas riquezas minerais. O Brasil possui recursos relevantes, incluindo terras raras e outros minerais críticos, essenciais para diversas tecnologias, baterias, equipamentos industriais e sistemas de defesa. Em 2025, o Ministério de Minas e Energia destacou a importância de fortalecer a cadeia de valor desses minerais, ampliar a pesquisa e desenvolver a transformação mineral no país.

A questão é simples: não basta dispor de recursos naturais; é preciso criar condições para transformar essa riqueza em conhecimento, capacidade industrial, empregos qualificados e desenvolvimento. A atração de investimentos estrangeiros pode contribuir para esse objetivo, desde que acompanhada de regras transparentes, proteção ambiental, pesquisa, formação profissional e oportunidades de agregação de valor no território nacional.

O risco econômico a evitar é permanecer restrito à exportação de matérias-primas enquanto etapas de maior valor agregado e parte importante do domínio tecnológico se concentram no exterior. Isso não comprova a existência de um plano coordenado de apropriação dos recursos brasileiros, mas evidencia a importância de políticas que ampliem nossa capacidade produtiva e reduzam dependências estratégicas.

Cooperar com os Estados Unidos, a China, a Europa ou qualquer outro parceiro é legítimo e necessário. O que o Brasil precisa preservar é a liberdade de negociar a partir de seus próprios objetivos, sem dependência excessiva de uma única potência e sem comprometer sua capacidade de decidir sobre o desenvolvimento nacional.

É nesse ponto que a soberania deixa de ser uma palavra abstrata. Ela se manifesta na capacidade de estabelecer políticas públicas, proteger instituições, negociar contratos, desenvolver tecnologia e prestar contas à população. Manifesta-se, sobretudo, na responsabilidade de quem exerce funções públicas e deve colocar o interesse coletivo acima de vantagens particulares.

Defender a soberania brasileira não significa concordar com todas as decisões de um governo, rejeitar investimentos estrangeiros ou transformar divergências diplomáticas em hostilidade entre povos. Significa exigir reciprocidade nas relações internacionais, transparência na vida pública e respeito ao direito de os brasileiros decidirem seu próprio futuro.

A imagem de um Brasil transformado, na prática, em um hipotético “51º estado dos Estados Unidos” expressa, neste texto, uma advertência política: o receio de que interesses externos adquiram influência desproporcional sobre decisões nacionais, com a colaboração ou a tolerância de atores internos. Não se trata de uma descrição literal, mas de uma maneira de questionar os limites que uma nação soberana deve preservar.

O momento eleitoral de 2026 torna essas questões especialmente relevantes. Cabe a cada cidadão examinar as propostas em disputa, verificar informações, avaliar compromissos e considerar as consequências das escolhas políticas para a democracia, a economia, a justiça social e a posição internacional do Brasil. Essa avaliação não precisa obedecer a rótulos partidários. Precisa ser livre, informada e consciente.

A democracia, porém, não termina na urna. Continua quando acompanhamos as decisões dos representantes eleitos, cobramos transparência, fiscalizamos políticas públicas e exigimos explicações sobre acordos que possam afetar o interesse coletivo. Continua quando respeitamos a diversidade de opiniões, rejeitamos a violência política e defendemos o funcionamento independente das instituições.

Ao recordar meu encontro com Lula, em 2004, volto à imagem de um Brasil que procurava ampliar sua voz nas Nações Unidas e contribuir para uma ordem internacional mais solidária. Não é a nostalgia de uma época que me move, mas a convicção de que o país deve preservar a capacidade de construir seu próprio projeto, com democracia, justiça social e independência.

O lema “Um outro mundo é possível” continua atual, desde que se traduza em oportunidades concretas, desenvolvimento inclusivo e relações internacionais baseadas no respeito mútuo. Um mundo mais justo não exige que as nações se isolem, mas que possam cooperar sem perder a liberdade de decisão.

Por isso, o compromisso democrático precisa ir além das palavras. Cabe a cada cidadão conhecer as propostas dos candidatos, conferir a veracidade das informações antes de compartilhá-las, acompanhar o trabalho de seus representantes e utilizar os instrumentos legítimos de participação e fiscalização. Cabe às instituições assegurar transparência, apurar responsabilidades com imparcialidade e garantir que divergências sejam resolvidas dentro da lei.

O Brasil não precisa se curvar para ser respeitado, nem se fechar para ser independente. Precisa de instituições sólidas, representantes responsáveis e cidadãos dispostos a exercer plenamente seus direitos e deveres.

A soberania pertence ao povo, e seu exercício não se encerra no voto: renova-se na participação, na fiscalização do poder e na defesa do interesse público. É assim que uma sociedade democrática protege sua liberdade de escolha e impede que decisões fundamentais sejam afastadas do debate coletivo.

Ao fim, é esse o sentido que atribuo à experiência de 2004: a lembrança de um país que buscava falar ao mundo sem deixar de falar por si mesmo. O desafio de hoje é preservar essa capacidade, reconhecendo os fatos, debatendo as diferenças e construindo soluções sem abrir mão da autonomia nacional.

O Brasil não precisa se curvar para ser respeitado, nem se isolar para ser independente. A democracia é o caminho, a soberania é um compromisso coletivo e a dignidade do povo brasileiro deve ser o horizonte de nossas escolhas. No segundo turno das eleições de 2026, os brasileiros terão novamente a responsabilidade de decidir, com liberdade, consciência e participação democrática, os rumos que desejam para o país. Mais do que escolher candidatos, trata-se de refletir sobre o futuro nacional, fortalecer as instituições e preservar o direito de o Brasil construir seu próprio destino, com autonomia, responsabilidade e respeito entre as nações.

Referências para conferência editorial

Discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na 59ª Assembleia Geral da ONU (21 de setembro de 2004): https://www.gov.br/secretariageral/pt-br/consea/noticias/discursos/discurso-do-presidente-da-republica-luiz-inacio-lula-da-silva-na-59a-assembleia-geral-da-onu

U.S. Department of the Treasury — comunicado sobre sanções anunciadas em 30 de julho de 2025: https://home.treasury.gov/news/press-releases/sb0211

The White House — ordem executiva sobre tarifas adicionais anunciada em 30 de julho de 2025: https://www.whitehouse.gov/presidential-actions/2025/07/addressing-threats-to-the-us/

Ministério de Minas e Energia — iniciativas para a cadeia de minerais críticos no Brasil: https://www.gov.br/mme/pt-br/assuntos/noticias/mme-destaca-acoes-para-impulsionar-a-cadeia-de-minerais-criticos-no-brasil-com-foco-em-sustentabilidade-e-seguranca-energetica

Palmarí H. de Lucena