O Brasil no Espelho Quebrado de Nelson Rodrigues

O Brasil no Espelho Quebrado de Nelson Rodrigues

Se Nelson Rodrigues estivesse vivo, não precisaria mudar uma vírgula do seu repertório para compreender o Brasil de hoje. Bastaria trocar os figurinos. As obsessões permanecem as mesmas: o moralismo de fachada, a indignação seletiva, a paixão pelo escândalo e a dificuldade crônica de distinguir virtude de espetáculo.

O Brasil contemporâneo parece encenar, em tempo integral, uma de suas tragédias domésticas. A política tornou-se um drama de alcova exibido em praça pública, onde personagens proclamam valores que não praticam e denunciam pecados que conhecem intimamente. Não há inocentes — apenas intérpretes em busca de aplauso.

Nelson intuía que o brasileiro não teme o erro, mas o flagrante. O problema nunca foi o ato, e sim a revelação. Na conjuntura atual, essa lógica se amplificou: vive-se menos para agir corretamente do que para parecer correto diante de uma plateia digital permanentemente excitada. A ética cedeu lugar à performance, e a política, ao espetáculo.

O discurso moral voltou com força, mas não como valor civilizatório. Voltou como instrumento de poder. Em nome da família, relativizam-se direitos; em nome da fé, tolera-se a mentira; em nome da ordem, naturaliza-se o arbítrio. É o velho teatro rodrigueano: personagens que rezam em público e conspiram no bastidor.

Nesse cenário, ganha centralidade uma de nossas deformações mais persistentes: o patriotismo vira-lata travestido de civismo. Trata-se de um nacionalismo ruidoso, feito de símbolos ostentados e palavras de ordem vazias, que convive sem constrangimento com o desprezo pelo próprio país. Exalta-se a pátria enquanto se desqualifica o brasileiro; sacraliza-se a bandeira enquanto se desconfia das instituições nacionais; invoca-se o amor ao Brasil para justificar a recusa em assumir responsabilidades coletivas. Não se trata de compromisso com a coisa pública, mas de uma identidade negativa, construída mais contra inimigos internos do que a favor de um projeto nacional. É um patriotismo que terceiriza o fracasso histórico e idealiza soluções importadas, sempre pronto a declarar que “este país não tem jeito”.

Esse traço se conecta ao ressentimento, figura central no drama rodrigueano. Nelson sabia que o ressentido não busca justiça — busca compensação simbólica. Quer ver o outro cair, mesmo que o país afunde junto. A política recente foi fertilizada por essa pulsão: vota-se menos para construir e mais para punir, interditar ou humilhar. O adversário deixa de ser alguém a ser enfrentado no debate e passa a ser eliminado moralmente.

O resultado é um país emocionalmente exausto, moralmente confuso e institucionalmente tensionado. Tudo vira escândalo e, por isso, nada mais escandaliza. A exceção vira regra; a grosseria, linguagem; o exagero, método. O grotesco deixa de ser denúncia e passa a ser paisagem cotidiana.

Nelson Rodrigues sugeria, em essência, que o Brasil só amadureceria quando abandonasse a fantasia da pureza. Talvez seja preciso acrescentar: quando abandonar também o patriotismo de fachada que disfarça insegurança nacional como virtude. Enquanto insistirmos em heróis sem falhas, inimigos sem complexidade e slogans no lugar de políticas públicas, permaneceremos presos a um enredo infantil, incapaz de sustentar uma democracia adulta.

O espelho que Nelson nos ofereceu continua à nossa frente. Não é lisonjeiro. É rachado, incômodo, cruel. Mas é honesto. E talvez seja exatamente isso que mais nos falte hoje: menos encenação patriótica e mais compromisso silencioso com o país real — aquele que não cabe em palavras de ordem, mas exige responsabilidade, maturidade e trabalho continuado.

Por Palmarí H. de Lucena