O Brasil Não Vai Mais Abaixar a Cabeça

O Brasil Não Vai Mais Abaixar a Cabeça

A partir de reportagem de Shannon Sims para a The New Yorker – 30.07.2025

Quando Donald Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras, como retaliação ao julgamento de Jair Bolsonaro, imaginava que dobraria o Brasil com um estalar de dedos. Errou feio. O que ele conseguiu, sem saber, foi tocar numa ferida antiga — o famigerado complexo de vira-lata — e provocar uma onda de resistência inédita. Em vez de submissão, encontrou indignação. Em vez de silêncio, escutou o rosnar de um país que já não abaixa a cabeça.

A expressão complexo de vira-lata foi cunhada por Nelson Rodrigues após a derrota do Brasil para o Uruguai, em 1950, na Copa do Mundo. Desde então, passou a representar o sentimento de inferioridade que acompanha parte da elite e do imaginário brasileiro: uma nação rica, vibrante e criativa, mas que ainda se vê como um cão vira-lata à margem da mesa dos poderosos. A busca por validação externa, sobretudo americana, virou padrão. Até agora.

A provocação da primeira-dama Janja — “Cadê meus vira-latas?” — não foi mero deboche. Foi uma chamada à consciência. Referia-se àqueles brasileiros que, encantados por Trump, projetaram nele a imagem de um salvador externo. Ao impor um tarifaço comparável a sanções, Trump escancarou sua lealdade não ao Brasil, mas a Bolsonaro. E em troca recebeu, como resposta nacional, uma inesperada coesão.

O Brasil de hoje não se parece com o de ontem. A resposta firme do Supremo Tribunal Federal à desinformação digital, o banimento temporário de Elon Musk da plataforma X, o prestígio internacional do filme Ainda Estou Aqui, estrelado por Fernanda Torres — tudo isso indica um país que começa a acreditar em si. E a atriz resumiu bem, ao receber um Globo de Ouro: “Não sei por que escolheram essa vira-lata que fala português, mas estou muito feliz.” Não como quem pede desculpas, mas como quem afirma, com orgulho, de onde veio.

O símbolo do vira-lata caramelo, antes marginalizado, tornou-se ícone nacional. E, segundo Carl Jung, reconhecer um complexo é o primeiro passo para vencê-lo. Como afirmou o junguiano Waldemar Magaldi, Trump está conseguindo o que nem a Copa consegue mais: unir o país.

Lula, desgastado por baixos índices de aprovação, foi brindado por Trump com o que analistas chamam de um “presente político”. Ao se vestir de defensor da pátria contra imposições externas, ganhou pontos preciosos. Usando um boné azul com os dizeres “O Brasil é dos brasileiros”, mandou um recado direto e simbólico: aqui não tem império. E a frase “Trump foi eleito para governar os EUA, não para ser imperador do mundo” entrou para os anais da diplomacia altiva.

Resta saber se essa guinada nacionalista e afirmativa se sustentará quando os efeitos econômicos da tarifa começarem a pesar. Os setores agrícolas, especialmente, sofrerão. Mas o dano simbólico já foi revertido: o Brasil não aceita mais ser tratado como quintal. E, ao contrário do que pensa Trump, o país aprendeu que dignidade não é artigo de luxo, nem depende de autorização estrangeira.

Como disse um amigo citado pela jornalista Shannon Sims:
“O vira-lata talvez não morda. Mas não vai mais ser chutado.”

Por Palmarí H. de Lucena