Durante muito tempo, o amanhã parecia ter endereço certo. Depois da Guerra Fria, a democracia liberal ganhou uma confiança difícil de abalar. Francis Fukuyama transformou essa sensação em uma pergunta que atravessou décadas: seria aquele o ponto de chegada das grandes disputas políticas? Hoje, essa certeza parece menos evidente. As democracias continuam de pé, mas enfrentam dúvidas, tensões e uma crescente cobrança por resultados.
Uma sociedade pode avançar e, ainda assim, deixar parte de seus cidadãos para trás. O crescimento econômico, a inovação e a expansão dos serviços não produzem necessariamente a mesma sensação de progresso para todos. Uma pessoa pode ter acesso a novas ferramentas, melhores informações e mais possibilidades e, ao mesmo tempo, sentir que pouco participa das decisões que afetam sua vida. Entre o avanço material e a percepção de pertencimento existe uma distância que a política nem sempre consegue preencher.
No Brasil, essa contradição aparece de maneira particularmente clara. O país convive há décadas com promessas de transformação. Em diferentes períodos políticos, surgem expectativas de crescimento, modernização e inclusão. Ao mesmo tempo, problemas antigos permanecem. Temos bancos digitais, comunicação instantânea, inteligência artificial e empresas integradas à economia global, enquanto milhões de brasileiros ainda enfrentam obstáculos para estudar, trabalhar, empreender ou ter acesso a serviços de qualidade.
Essa convivência entre avanços e carências ajuda a explicar parte da insatisfação política. O voto não representa apenas uma escolha entre candidatos ou programas. Pode também expressar esperança, descontentamento, identidade e desejo de reconhecimento. Pessoas que não se sentem representadas procuram outras formas de fazer sua voz aparecer. Isso não pertence exclusivamente a um lado do espectro político; pode atravessar diferentes grupos e posições.
As redes sociais ampliaram esse processo. O celular transformou-se em uma espécie de praça pública permanente, onde opiniões circulam com enorme velocidade. Essa nova esfera de participação trouxe benefícios evidentes, mas também tornou o debate mais imediato e, muitas vezes, mais polarizado. A divergência pode se transformar rapidamente em confronto, enquanto informações verdadeiras e falsas disputam a mesma atenção. Para a democracia, o desafio não é eliminar o conflito, mas preservar a possibilidade de diálogo dentro dele.
É nesse cenário que a reflexão de Yuval Noah Harari oferece outra perspectiva. Seus trabalhos sobre tecnologia, inteligência artificial e as transformações que podem atingir o trabalho e a vida social ajudam a pensar sobre mudanças que já começaram. Mas a questão brasileira exige uma pergunta adicional: como uma sociedade marcada por desigualdades distribuirá os benefícios e os custos dessas transformações?
Não há uma resposta simples. A tecnologia pode ampliar oportunidades, facilitar o acesso à informação e aumentar a produtividade. Também pode substituir determinadas tarefas, concentrar poder econômico e criar novas formas de exclusão. O resultado dependerá menos da tecnologia isoladamente do que das escolhas feitas por governos, empresas, instituições e cidadãos.
Com Fukuyama, a pergunta também permanece aberta. Sua reflexão sobre a trajetória da democracia liberal continua útil não como uma previsão definitiva, mas como ponto de partida para observar as mudanças do presente. A questão brasileira não é decidir se a História terminou ou se algum modelo político venceu para sempre. É compreender se nossas instituições conseguem manter legitimidade enquanto a sociedade muda, novas demandas surgem e parte dos cidadãos questiona sua capacidade de ser ouvida.
É nesse ponto que essas duas reflexões encontram uma realidade que não pode ser ignorada: a brasileira. Fukuyama nos ajuda a pensar a confiança nas instituições; Harari, o impacto das novas tecnologias sobre o trabalho, a informação e o poder. No Brasil, porém, essas questões se cruzam com uma desigualdade antiga. O país não enfrenta apenas o desafio de acompanhar as transformações. Precisa decidir quem terá condições de participar delas. O Brasil já entrou no futuro, mas nem todos os brasileiros entraram juntos.
Essa é a questão central. Não basta saber se nossas instituições sobreviverão às mudanças ou se a inteligência artificial transformará a sociedade. Precisamos perguntar se essas transformações serão capazes de melhorar a vida da maioria ou se apenas ampliarão as vantagens de quem já está na frente. Em um país tão desigual, progresso que não inclui deixa de ser promessa de mudança e passa a ser apenas uma nova forma de distância.
Essa discussão ultrapassa a disputa entre esquerda e direita e a escolha entre ser a favor ou contra a tecnologia. O que está em jogo é transformar inovação em oportunidade e modernização em inclusão. No Brasil, isso significa garantir que o cidadão não seja apenas espectador das mudanças, mas tenha condições de compreender e influenciar seus rumos.
O Brasil já entrou no futuro, mas ainda carrega desigualdades do passado. Seu desafio é fazer com que a modernização alcance mais pessoas. A verdadeira medida do progresso não está apenas na velocidade com que um país muda, mas em sua capacidade de não deixar ninguém para trás.
Palmarí H. de Lucena