Toda criação nasce de um instante raro em que a história parece suspender suas certezas. Arthur Koestler, em The Act of Creation, descreve esse momento como o encontro improvável entre planos distintos — quando experiências que não se tocavam passam a dialogar e algo novo emerge. A criação da Organização das Nações Unidas pertence a essa categoria de raridades: não foi fruto de rotina diplomática, mas de imaginação política em estado de urgência.
Em 1945, o mundo ainda respirava guerra. A ONU nasceu menos como instituição administrativa e mais como gesto civilizatório: a tentativa de transformar o trauma em regra, a força em contenção, a vitória em responsabilidade. Cada país presente à mesa de fundação levava consigo cicatrizes. O Brasil não chegou apenas com discursos.
A participação brasileira na Segunda Guerra Mundial conferiu ao país uma legitimidade que não se improvisa. A Força Expedicionária Brasileira cruzou o Atlântico para lutar na Itália, e foi em solo europeu — em batalhas como a de Montese — que o Brasil inscreveu seu nome no esforço coletivo contra o nazifascismo. Ali, entre o frio, a lama e os mortos, o país deixou de ser observador distante e passou a ser parte do acontecimento histórico.
Montese não foi apenas um episódio militar. Foi um rito de passagem. Soldados brasileiros combateram casa a casa, enterraram companheiros, aprenderam que o custo da ordem internacional não se mede apenas em tratados, mas em vidas. Essa experiência conferiu ao Brasil algo raro no cenário diplomático do pós-guerra: autoridade moral adquirida no campo, não apenas nos salões.
Foi nesse contexto que a possibilidade de o Brasil se tornar membro permanente do Conselho de Segurança da ONU deixou de ser hipótese exótica. Não se tratava de ambição vazia. Um país continental, sem tradição expansionista, com participação efetiva na guerra e vocação histórica para a mediação parecia reunir atributos compatíveis com o espírito fundador da nova organização. Era, nos termos de Koestler, uma bissociação promissora: força militar sem imperialismo, diplomacia sem cinismo, presença global sem vocação hegemônica.
O momento, porém, passou.
Como todo ato de criação, aquele instante exigia continuidade. O assento permanente não se perdeu em um único gesto, mas em uma sequência de acomodações, recuos e prioridades deslocadas. O Brasil manteve prestígio, mas não converteu plenamente sua experiência histórica em projeto duradouro de poder institucional. Tornou-se participante respeitado — e candidato recorrente.
A ONU também seguiu outro caminho. A instituição nascida da imaginação política do pós-guerra foi, aos poucos, absorvida pela lógica da contenção. O Conselho de Segurança cristalizou a fotografia de 1945 como se Montese, Hiroshima, Stalingrado e Auschwitz tivessem encerrado a história. O mundo mudou; o desenho do poder, não.
Hoje, quando se discute a reforma do Conselho, o Brasil retorna ao debate com razão histórica, mas com menor densidade simbólica do que naquele instante fundador. A memória da FEB permanece — inclusive em Montese, onde o sacrifício brasileiro é lembrado com mais nitidez do que no próprio país. Falta, talvez, não passado, mas persistência criativa.
Koestler lembra que criar é conectar o que o tempo tende a separar. Em 1945, o Brasil esteve próximo de ocupar um lugar central nessa conexão: entre guerra e paz, entre força e norma, entre o velho mundo em ruínas e um novo ainda incerto. O assento que quase foi não é nostalgia diplomática. É a lembrança de um momento em que a história abriu espaço — e exigiu coragem para ocupá-lo.
Desde então, o mundo seguiu administrando crises, e a ONU aprendeu a gerir o inevitável. Mas Montese permanece como lembrança incômoda: houve um tempo em que o Brasil esteve disposto a pagar o preço da criação. E criação, como ensina Koestler, não admite adiamentos longos. O instante passa. E raramente retorna nas mesmas condições.
Por Palmarí H. de Lucena