O Brasil raramente ocupa o centro das grandes disputas internacionais. Ao longo de sua história, construiu uma tradição diplomática baseada menos na confrontação do que na negociação e menos em alianças rígidas do que na capacidade de dialogar com diferentes centros de poder. Essa estratégia permitiu ao país atravessar profundas transformações da política mundial preservando relativa autonomia.
Durante muito tempo, essa posição funcionou. A distância geográfica dos principais focos de tensão, combinada com uma economia integrada ao comércio internacional, permitiu ao Brasil manter relações produtivas com parceiros diversos sem ser obrigado a fazer escolhas dramáticas. O país negociava com os Estados Unidos, ampliava negócios com a Europa, fortalecia vínculos com a Ásia e preservava considerável liberdade de ação.
Hoje, porém, esse equilíbrio tornou-se mais difícil.
O debate sobre tarifas norte-americanas aplicadas ou ameaçadas contra produtos brasileiros não deve ser interpretado apenas como uma disputa comercial. As tarifas são o aspecto mais visível de uma transformação mais ampla: a crescente utilização de instrumentos econômicos para alcançar objetivos políticos, estratégicos e tecnológicos.
Durante décadas, governos e empresas operaram sob a expectativa de que a integração econômica global continuaria avançando. Barreiras seriam reduzidas, mercados se tornariam mais interdependentes e o comércio funcionaria como elemento de estabilidade internacional. Embora essa visão nunca tenha se concretizado plenamente, ela orientou boa parte das decisões econômicas desde o fim da Guerra Fria.
Nos últimos anos, contudo, essa lógica perdeu força. A pandemia revelou fragilidades em cadeias produtivas globais. A disputa tecnológica entre Estados Unidos e China ampliou preocupações relacionadas à dependência de setores estratégicos. Energia, minerais, tecnologia e indústria passaram a ser vistos não apenas como ativos econômicos, mas também como componentes de segurança nacional.
Nesse ambiente, o comércio deixou de ser apenas uma questão de eficiência econômica. Tornou-se também um instrumento de influência.
As tarifas adotadas por Donald Trump devem ser compreendidas dentro dessa mudança mais ampla. Embora frequentemente associadas à sua personalidade política, elas refletem uma tendência que ultrapassa governos específicos: o uso crescente da política comercial como ferramenta de negociação e pressão.
A experiência brasileira ilustra essa transformação.
Durante o governo Jair Bolsonaro, a relação política entre Brasília e Washington alcançou um grau de proximidade incomum. A afinidade entre Bolsonaro e Trump produziu um alinhamento político raramente observado na história recente. Ainda assim, essa proximidade não eliminou divergências econômicas. Setores importantes da indústria brasileira continuaram sujeitos a medidas protecionistas americanas.
O episódio demonstrou uma realidade frequentemente esquecida: nas relações internacionais, afinidades políticas podem facilitar o diálogo, mas dificilmente substituem interesses nacionais.
Com a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva ao poder, a dinâmica mudou. A diplomacia brasileira retomou uma postura mais próxima de sua tradição histórica, buscando diversificar parcerias e evitar alinhamentos automáticos. Ao mesmo tempo, a importância da China para a economia brasileira tornou-se ainda mais evidente, consolidando-se como principal destino de exportações agrícolas, minerais e energéticas.
Essa mudança trouxe novos desafios.
O que antes era visto como uma vantagem — a capacidade de manter boas relações com diferentes parceiros — passou a exigir um equilíbrio mais delicado. Em um ambiente internacional marcado por rivalidades crescentes, preservar autonomia tornou-se mais complexo.
O Brasil ocupa uma posição singular. Não possui o peso econômico das grandes potências, mas também deixou de ser um ator periférico. Sua produção agrícola, suas reservas minerais, sua matriz energética e sua relevância ambiental transformaram o país em um parceiro estratégico para diferentes centros de poder.
Esse aumento de relevância produz um paradoxo. Quanto mais importante o Brasil se torna, maior tende a ser a pressão para que defina prioridades e esclareça posicionamentos. A autonomia que antes parecia natural passa a exigir esforço constante.
É nesse ponto que a discussão sobre tarifas adquire significado mais profundo. O tema não se resume aos impactos sobre determinados setores exportadores. O que está em jogo é a capacidade do país de preservar liberdade de ação em um cenário internacional cada vez mais competitivo.
Bolsonaro procurou aproximar-se dos Estados Unidos. Lula busca ampliar espaços de autonomia por meio da diversificação de parcerias. As estratégias são diferentes, mas o dilema central permanece o mesmo: como proteger interesses nacionais em um mundo onde economia, tecnologia e política se tornam cada vez mais interdependentes.
As tarifas podem desaparecer das manchetes. Novos acordos serão assinados e disputas específicas perderão relevância. O desafio mais duradouro, porém, continuará presente. O Brasil passou décadas beneficiando-se de uma ordem internacional relativamente aberta e previsível. Agora precisa aprender a atuar em um ambiente mais instável, onde interesses econômicos e estratégicos se entrelaçam de maneira crescente.
Talvez a questão mais importante não seja o valor de uma tarifa nem o resultado de uma negociação específica. A verdadeira pergunta diz respeito ao lugar que o Brasil pretende ocupar em um mundo em transformação. Durante muito tempo, o país pôde adiar essa discussão. É possível que esse período esteja chegando ao fim.
Palmar
Palmarí H. de Lucena