O Brasil e a política global da fome

O Brasil e a política global da fome

A influência internacional de um país nem sempre decorre de sua capacidade militar ou de seu peso econômico. Em alguns casos, ela nasce da força de suas ideias. O Brasil construiu parte de sua projeção externa justamente nesse terreno ao contribuir para uma mudança decisiva na forma como a fome passou a ser compreendida pela comunidade internacional.

Durante boa parte do século XX, a fome foi interpretada sobretudo como consequência da insuficiência da produção agrícola. A lógica era simples: ampliar a oferta significaria reduzir a escassez. Embora essa premissa preservasse parte da realidade, ela deixava de explicar um fato persistente. Países capazes de produzir alimentos em abundância continuavam convivendo com parcelas significativas da população submetidas à insegurança alimentar.

Foi contra essa simplificação que se destacou a obra de Josué de Castro. Sua principal contribuição consistiu em demonstrar que a fome não era um fenômeno determinado pela natureza, mas pelas estruturas econômicas e sociais. A privação alimentar resultava da desigualdade, da pobreza e da exclusão muito mais do que da incapacidade de produzir alimentos. Ao deslocar o problema para o campo da política e das instituições, Josué de Castro alterou profundamente o debate internacional sobre desenvolvimento.

As décadas seguintes reforçaram essa interpretação. O crescimento da produção mundial de alimentos superou o aumento da população, mas a fome permaneceu presente em diferentes regiões do planeta. Tornou-se evidente que disponibilidade não significa acesso. Segurança alimentar passou, então, a incorporar dimensões como renda, estabilidade do abastecimento, qualidade nutricional e sustentabilidade dos sistemas produtivos.

Foi nesse ambiente intelectual que a experiência brasileira adquiriu relevância internacional. As políticas públicas desenvolvidas no início do século XXI mostraram que o enfrentamento da fome depende da coordenação entre instrumentos distintos. Proteção social, fortalecimento da agricultura familiar, alimentação escolar, inclusão produtiva, crédito rural e desenvolvimento territorial revelaram-se mais eficazes quando concebidos como partes de uma estratégia comum, e não como iniciativas isoladas.

Essa abordagem também redefiniu a atuação internacional do país. Em vez de apresentar soluções universais, o Brasil passou a compartilhar experiências adaptáveis às diferentes realidades nacionais. A Cooperação Sul-Sul transformou-se em um importante mecanismo de intercâmbio institucional, permitindo que países com desafios semelhantes trocassem políticas públicas, conhecimento técnico e capacidade administrativa sem reproduzir relações tradicionais de dependência.

Essa trajetória encontrou expressão no debate multilateral sobre segurança alimentar. A defesa de uma agenda centrada no direito humano à alimentação adequada, na agricultura familiar e em sistemas alimentares inclusivos contribuiu para ampliar o papel das organizações internacionais. O objetivo deixou de ser apenas aumentar a produtividade agrícola. Passou a incluir a construção de políticas capazes de garantir acesso efetivo aos alimentos, especialmente para as populações mais vulneráveis.

As ideias defendidas por José Graziano da Silva consolidaram esse movimento. Sua principal contribuição consistiu em reafirmar que o combate à fome não deveria ser tratado como consequência automática do crescimento econômico. O desenvolvimento amplia oportunidades, mas não elimina, por si só, as desigualdades que restringem o acesso aos alimentos. A erradicação da fome exige instituições capazes de articular políticas agrícolas, sociais, econômicas e ambientais em torno de um objetivo comum.

Os desafios contemporâneos tornaram essa agenda ainda mais estratégica. Mudanças climáticas afetam a produtividade agrícola, conflitos armados interrompem cadeias de abastecimento e a instabilidade econômica amplia a vulnerabilidade de milhões de famílias. A segurança alimentar passou a integrar o debate sobre estabilidade internacional, aproximando agricultura, comércio, clima e geopolítica.

O Brasil reúne atributos que lhe permitem exercer papel relevante nessa discussão. Poucos países combinam elevada capacidade de produção de alimentos, domínio tecnológico em agricultura tropical, tradição diplomática e experiência na formulação de políticas públicas voltadas à redução da pobreza. Esses ativos conferem legitimidade para participar da construção de soluções globais.

Legitimidade, entretanto, não se sustenta apenas por realizações passadas. Ela depende da capacidade de preservar políticas consistentes, fortalecer instituições e enfrentar os próprios desafios internos. A autoridade de um país nas negociações internacionais costuma refletir a qualidade das escolhas realizadas dentro de suas fronteiras.

A contribuição brasileira para o combate à fome talvez possa ser sintetizada em uma ideia simples. O êxito de um sistema alimentar não deve ser medido exclusivamente pelo volume que produz, mas pela capacidade de assegurar que todas as pessoas tenham acesso regular, digno e permanente à alimentação adequada. Produção continua sendo condição necessária. Distribuição, inclusão e instituições eficazes transformam essa condição em realidade.

Essa perspectiva permanece atual porque responde ao principal paradoxo do século XXI. A humanidade já dispõe dos recursos, da tecnologia e do conhecimento necessários para alimentar sua população. O desafio deixou de ser essencialmente produtivo. Tornou-se um problema de governança, coordenação e vontade política.

A fome persiste não porque o mundo produz pouco, mas porque ainda produz sociedades incapazes de transformar abundância em acesso. É nessa fronteira, onde políticas públicas encontram instituições e compromisso político, que continuará sendo definido o futuro da segurança alimentar global.

Palmarí H. de Lucena