O aparelho esquecido

O aparelho esquecido

Ela chegou ao pilates sem o aparelho auditivo e disse que o havia esquecido em casa com a naturalidade de quem não pretende transformar um pequeno esquecimento em assunto. Afinal, esquecer alguma coisa faz parte da vida, embora a juventude tenha o privilégio de chamar seus esquecimentos de distração, enquanto na velhice quase todo lapso parece ganhar imediatamente a gravidade de um sinal.

A professora perguntou alguma coisa, ela sorriu; a professora repetiu, ela fez uma careta delicada, dessas que podem significar compreensão, dúvida ou simplesmente boa educação. Sem o aparelho, a conversa passou a depender de gestos, expressões e palavras repetidas, naquele idioma particular das pessoas que não ouvem bem e que muitas vezes preferem sorrir a admitir que não entenderam.

A sala estava clara, com seus aparelhos, colchonetes e bolas de tamanhos diferentes, tudo disposto para que os corpos obedecessem a uma ordem precisa. Havia ali uma espécie de promessa de juventude: se cada músculo fosse trabalhado no lugar certo, talvez o corpo aceitasse colaborar por mais algum tempo. Ela, entretanto, parecia ter chegado de outro acordo com o próprio corpo.

Sentou-se devagar, ajeitou a roupa, observou as outras e esperou. A professora aproximou-se, falou olhando diretamente para ela, articulando bem as palavras, mas a mulher acompanhava mais o rosto do que a voz. Sorria quando as outras sorriam, inclinava a cabeça quando percebia que era sua vez e, de vez em quando, olhava para os lados, procurando nos movimentos das outras a legenda de uma instrução que não conseguira ouvir.

Quando a professora pediu que levantasse a perna, ela levantou a errada. A correção veio com delicadeza. Ela tentou novamente, olhou para a própria perna e soltou um sorriso que parecia dizer que ambas estavam exagerando nas expectativas.

As outras continuaram. Uma levantava os braços, outra alongava a coluna, outra respirava profundamente. Ela fazia o que conseguia, interrompia quando queria, retomava quando julgava possível. Não havia exatamente recusa, mas também não havia entrega. Seu corpo parecia negociar cada ordem.

Quando a professora pedia mais uma repetição, ela fazia uma. Quando dizia para manter a posição, ela desfazia um pouco antes. Quando perguntava se estava tudo bem, respondia que sim, embora seu rosto dissesse outra coisa.

Depois vieram as queixas: a tontura, a dor, o mal-estar. Talvez fossem reais, e certamente eram. Mas havia também o desconforto de ser novamente colocada na posição de aprendiz, quando durante a maior parte da vida ela havia sido aquela que sabia onde estavam as coisas, conhecia a rotina da casa, sabia a hora do almoço e a quantidade de açúcar que o marido gostava no café.

Agora alguém lhe dizia como sentar, como respirar, como levantar a perna, como manter a coluna.

O médico havia recomendado exercício. O filho havia insistido. E ali estava ela.

No fim da aula, a professora perguntou se voltaria na semana seguinte.

Ela sorriu.

Não disse que sim, nem que não.

Ela não havia terminado os estudos. Contava que não completara o ginásio para se casar, em parte pela insistência do homem que amava. Nunca trabalhou fora de casa e foi dona de casa durante toda a vida. Estava casada havia sessenta anos, tempo suficiente para que o casamento se tornasse uma paisagem onde aprendera a caminhar.

Gostava da comida feita pelo marido e contava, com uma graça que não parecia pedir desculpas, que nunca aprendera a cozinhar. Havia nisso uma tranquilidade curiosa, como se certas coisas simplesmente tivessem encontrado seu lugar sem que fosse necessário explicá-las.

Ela nasceu nos anos 1940, quando a vida de muitas mulheres ainda seguia caminhos bastante previsíveis. O dela foi esse: casamento, casa, marido, filhos. Não sabemos quanto houve de escolha, quanto de circunstância e quanto simplesmente de costume. Depois de tantos anos, talvez nem ela tenha interesse em separar uma coisa da outra.

Agora havia tempo. Muito tempo.

Durante décadas, o dia fora dividido em tarefas. Havia sempre alguma coisa a lavar, arrumar, preparar, buscar, resolver ou esperar. Depois, aos poucos, as tarefas diminuem, os filhos crescem, a casa fica mais quieta e os amigos envelhecem junto conosco. Alguns se afastam, outros desaparecem.

A manhã fica longa. A tarde, comprida.

E nem sempre se sabe o que fazer com elas.

Ela também não parecia ter grande disposição para reinventar a própria vida. Talvez não quisesse. Talvez estivesse cansada. Talvez nunca tivesse cultivado o hábito de procurar novidades para si mesma. É fácil dizer que alguém deve sair mais, caminhar, fazer cursos, encontrar amigos. Mais difícil é perguntar se essa pessoa deseja tudo isso.

Foi talvez nesse espaço que o celular entrou.

Ele trouxe o mundo inteiro para dentro de casa. Bastava tocar na tela para aparecerem pessoas falando de saúde, alimentação, dores, sono, envelhecimento, vitaminas, tratamentos e tudo aquilo que pudesse oferecer uma resposta para o corpo que, depois de tantos anos, começava a apresentar suas próprias contas.

Ela seguia influenciadores médicos e, quando descobria alguma novidade, corria à farmácia. Havia algo de comovente nessa pressa, mas também algo de ingênuo. Ela queria acreditar. Talvez porque acreditar que existe alguma coisa a fazer seja uma maneira de não aceitar tão depressa aquilo que o tempo está dizendo.

A tela também fazia companhia.

Uma companhia fácil, que não exigia sair de casa, vestir-se, marcar encontro ou sustentar uma conversa. Podia-se passar horas acompanhando vidas alheias e terminar o dia sem ter conversado verdadeiramente com ninguém.

À noite, ela dormia durante o dia e não conseguia dormir. O celular iluminava o quarto, oferecendo sempre mais um vídeo, mais uma notícia, mais uma promessa. A tarde lhe dava o sono que a noite recusava, e a madrugada parecia não ter fim.

Assim, pouco a pouco, os dias e as noites trocavam de lugar.

Ela podia estar cercada pelo mundo e, ainda assim, não ter para quem contar uma coisa simples acontecida naquela manhã.

Talvez fosse isso que mais pesasse.

Não estar necessariamente sozinha, mas ter cada vez menos coisas que a arrancassem de si mesma.

Seria injusto olhar para ela apenas como alguém que não se exercita o suficiente, dorme na hora errada ou passa tempo demais no celular. Ela é também aquela menina que não terminou o ginásio, a mulher que se casou, a dona de casa que atravessou seis décadas de casamento, a pessoa que nunca aprendeu a cozinhar porque o marido fazia a comida de que ela gostava.

Há nela alguma acomodação, certamente. Há hábitos antigos, dependências que o tempo consolidou e talvez até uma certa resistência às mudanças que agora lhe são propostas. Mas não há necessidade de transformá-la em exemplo de nada.

Ela é apenas ela.

Uma mulher que envelheceu.

Uma mulher que ainda escolhe algumas coisas e já não escolhe outras.

Talvez seja por isso que eu continue pensando no aparelho auditivo.

Pode ter sido esquecimento.

Mas pode ter sido também uma pequena desobediência.

O médico recomendou exercício. O filho insistiu. A professora orientou. E ela foi. Fez os movimentos que conseguiu, reclamou das dores, sentiu tontura, sorriu.

Só não levou o aparelho.

Não é preciso transformar isso em gesto de emancipação. Talvez fosse apenas uma distração. Talvez ela tenha realmente esquecido. Mas gosto de pensar que, entre tantas vozes dizendo o que seria melhor para ela, restou uma decisão minúscula que ainda era sua.

Naquele dia, depois do pilates, ela provavelmente voltou para casa. Talvez tenha dormido durante a tarde. À noite, o celular voltou a iluminar o quarto.

E o aparelho auditivo continuava onde ela o deixara.

Talvez sobre a mesa de cabeceira, talvez junto das chaves, talvez num canto qualquer da casa.

Gosto de imaginar que ela o viu antes de dormir.

Talvez tenha pensado na professora, na perna levantada na hora errada, nas outras mulheres fazendo os exercícios, nas instruções que chegaram até ela pela metade.

Ou talvez não tenha pensado em nada.

Talvez apenas tenha deixado o aparelho onde estava.

No dia seguinte, poderia levá-lo.

Poderia esquecê-lo outra vez.

Poderia até desistir do pilates.

Nenhuma dessas possibilidades faria dela uma personagem melhor ou pior. Faria apenas dela aquilo que ela é: uma mulher velha, com uma história particular, feita de escolhas que já não podem ser refeitas e de pequenas escolhas que ainda podem.

O aparelho ficou em casa.

Por enquanto, isso basta.

Palmarí H. de Lucena