O Amor e Seus Dois Idiomas

O Amor e Seus Dois Idiomas

Toda época inventa uma maneira particular de fracassar no amor.

A contemporaneidade parece ter decidido que o problema está sempre na gramática das relações. Faltam ferramentas emocionais, sobram expectativas; faltam conversas difíceis, sobram diagnósticos. Nunca se falou tanto sobre vínculos afetivos e, paradoxalmente, talvez nunca se tenha acreditado tão pouco em sua permanência. O amor converteu-se em um projeto permanente de aperfeiçoamento, submetido aos mesmos critérios com que se avaliam carreiras, investimentos ou estilos de vida: quando deixa de produzir os resultados esperados, altera-se o método — ou substitui-se o parceiro.

Essa lógica se revela em uma afirmação recorrente, pronunciada quase sempre com a segurança de quem acredita encerrar uma discussão: “Você não sabe amar.”

A frase é reveladora. Não porque seja necessariamente falsa, mas porque pressupõe que amar seja, antes de tudo, uma habilidade.

Nesse ponto, Erich Fromm oferece uma das inflexões mais importantes do pensamento moderno sobre o amor. Em A Arte de Amar, desloca o tema do campo da emoção espontânea para o da disciplina. Amar não é um acontecimento reservado aos afortunados, mas uma capacidade desenvolvida por meio da atenção, da responsabilidade, do respeito e do conhecimento do outro. O sentimento, por si só, revela-se insuficiente. O amor deixa de ser um acidente da biografia para tornar-se uma prática da consciência.

A atualidade dessa reflexão permanece evidente. Em uma cultura fascinada pela intensidade das emoções, Fromm lembra que os relacionamentos raramente fracassam por falta de paixão; sucumbem, com mais frequência, à incapacidade de sustentar a convivência cotidiana. O amor não representa a negação da rotina. É aquilo que lhe confere significado.

Toda filosofia, entretanto, ilumina determinados aspectos da experiência humana enquanto deixa outros em segundo plano.

É nesse espaço que a contribuição de Tristão de Ataíde adquire especial relevância.

Também para ele o amor exige disciplina, responsabilidade e compromisso. A diferença encontra-se menos nas conclusões do que em seus fundamentos. Enquanto Fromm investiga o amor como expressão da maturidade humana, Tristão pergunta o que torna essa maturidade digna de ser buscada. A resposta desloca a reflexão da psicologia para a ética. O amor não constitui apenas uma competência adquirida; corresponde a uma vocação inscrita na própria condição humana. Aprende-se a amar porque o outro possui uma dignidade que antecede qualquer utilidade, reciprocidade ou conveniência.

Trata-se de uma distinção discreta, mas decisiva.

Em Fromm, a liberdade constitui a condição indispensável do amor. Apenas indivíduos capazes de preservar sua autonomia podem evitar transformar o outro em objeto de dependência ou posse.

Em Tristão, a liberdade alcança sua realização mais elevada quando aceita o compromisso. Não porque o compromisso limite a autonomia, mas porque impede que a autonomia se converta em autossuficiência. A liberdade deixa de significar a preservação indefinida de possibilidades e passa a significar a capacidade de assumir uma escolha de forma plena.

Essa divergência de perspectiva produz consequências que ultrapassam o campo da filosofia.

A cultura contemporânea assimilou com rapidez a valorização da autonomia e da autenticidade. Com muito menos entusiasmo acolheu a disciplina de que fala Fromm e, sobretudo, a linguagem da fidelidade, da permanência e da entrega presente em Tristão de Ataíde. A estabilidade afetiva passou, não raramente, a ser interpretada como limitação, enquanto a liberdade foi progressivamente confundida com a permanente possibilidade de recomeçar.

Talvez resida aí uma das tensões mais características do presente. Não se rejeita propriamente o amor; rejeitam-se, com frequência, as exigências que ele impõe.

A experiência cotidiana, contudo, relativiza qualquer construção teórica. Os grandes debates sobre liberdade, autonomia ou transcendência tornam-se quase invisíveis diante das pequenas circunstâncias que definem uma convivência: o silêncio prolongado, a palavra impensada, a renúncia discreta, a capacidade de pedir perdão ou de permanecer quando a novidade desaparece. É nessas situações ordinárias que o amor confirma — ou desmente — seus próprios discursos.

É justamente por isso que Fromm e Tristão permanecem atuais. Nenhum deles reduz o amor ao sentimento. Ambos recusam a ideia de que a intensidade emocional seja suficiente para sustentar uma vida em comum.

Fromm recorda que o amor precisa ser aprendido.

Tristão lembra que, mesmo aprendido, continua necessitando de um fundamento ético que lhe dê direção.

Mais do que duas teorias em oposição, suas reflexões podem ser compreendidas como dois idiomas para descrever a mesma realidade. Um explica a arquitetura do amor; o outro, seus alicerces.

Talvez a fragilidade de muitos relacionamentos contemporâneos decorra menos da ausência de sentimentos do que da dificuldade de reunir essas duas dimensões: a competência para amar e a disposição de conferir ao amor um sentido que ultrapasse a satisfação imediata.

Palmarí H. de Lucena