Cheguei a Nova York em agosto de 1969, quando o futuro avançava depressa enquanto o velho mundo parecia desfazer-se nas esquinas. Dos bueiros subia um vapor quente misturado a gasolina, chuva antiga e pretzels queimados. Táxis amarelos riscavam Manhattan como insetos febris. As bancas de jornal anunciavam Vietnã, revoltas raciais e a promessa da chegada do homem à Lua.
Nova York não acolhia ninguém com suavidade. Ela absorvia. Era preciso aprender rapidamente a velocidade das esquinas, o silêncio desconfiado do metrô e a solidão escondida dentro das multidões. Em Greenwich Village, jovens discutiam revolução ao som de Bob Dylan. No Harlem, o jazz sobrevivia como oração noturna soprada por saxofones cansados. No Bronx, crianças brincavam entre hidrantes abertos e edifícios feridos pelo abandono urbano.
Foi naquele ambiente que surgiu o Projeto Portoriquenho, meu primeiro mergulho profundo na alma subterrânea da cidade. Nova York vivia então uma intensa migração vinda de Porto Rico. Famílias chegavam em aviões baratos trazendo malas leves, imagens de santos, fotografias amareladas e uma esperança silenciosa de recomeço. Instalavam-se sobretudo no Spanish Harlem, no South Bronx e em partes do Brooklyn, transformando bairros deteriorados em territórios vivos de memória e resistência.
Das janelas escapavam boleros, salsa e cheiro de arroz com feijão. O espanhol misturava-se ao inglês das ruas numa língua improvisada, carregada de saudade. Havia dignidade naquela comunidade: mães em fábricas têxteis, homens regressando exaustos dos turnos noturnos, crianças servindo de ponte entre os pais e o mundo americano.
Fomos encarregados de estruturar um amplo estudo que mais tarde se transformaria num projeto de desenvolvimento socioeconômico e cultural para comunidades hispânicas, sobretudo porto-riquenhas. Mais do que estatísticas, interessava compreender como aquelas populações preservavam identidade e solidariedade em meio à pobreza urbana. O programa propunha ações integradas de educação, cultura, habitação e organização comunitária.
O financiamento foi aprovado quase integralmente. Dali nasceram iniciativas que mais tarde se tornariam referências culturais da comunidade latina, como o Puerto Rican Travelling Theatre e o Puerto Rican Ballet. Mas o essencial já existia antes do dinheiro público: a energia comunitária. Reuniões aconteciam em igrejas, escolas e apartamentos pequenos demais para tanta esperança reunida. Assim surgiram cooperativas, grupos culturais e organizações concebidas pela própria cidadania porto-riquenha.
Como desdobramento natural daquele percurso, fui indicado para o cargo de assistant commissioner da Addiction Services Agency, durante a administração do prefeito Abraham Beame. A cidade atravessava uma crise múltipla: falência fiscal, violência urbana, colapso habitacional e epidemia de heroína.
A droga circulava entre veteranos traumatizados pelo Vietnã, jovens desempregados, imigrantes esmagados pela pobreza e adolescentes abandonados pela cidade. Nas esquinas, corpos inclinavam-se contra paredes como relógios quebrados. Famílias conviviam diariamente com overdoses, violência e um sentimento contínuo de impotência.
A abordagem tentava ultrapassar os limites da simples repressão policial. Falávamos de prevenção, acolhimento e reconstrução de vínculos humanos. Centros comunitários improvisavam atendimento psicológico, grupos de apoio e atividades culturais como alternativa ao vazio das ruas. Padres, artistas, assistentes sociais e ex-dependentes trabalhavam lado a lado, movidos mais pela urgência moral do que pela estrutura institucional.
Posteriormente fui integrado ao programa antidrogas do Estado de New York. Passamos então a ocupar escritórios no 69º andar da Segunda Torre do World Trade Center.
Todas as manhãs, o elevador subia em silêncio vertiginoso até aquele universo suspenso acima de Manhattan. Lá do alto, a cidade adquiria uma falsa aparência de harmonia. O Hudson refletia a luz metálica do amanhecer; barcos deslocavam-se lentamente como miniaturas.
Mas bastava descer às ruas para reencontrar outra paisagem: jovens destruídos pela heroína no South Bronx, famílias esmagadas pela pobreza e bairros inteiros abandonados pelo poder público.
As torres do World Trade Center erguiam-se sobre Manhattan como dois obeliscos financeiros. Dentro delas cruzavam-se banqueiros, advogados, operadores do mercado e funcionários públicos. Poucas milhas adiante, comunidades inteiras lutavam apenas para sobreviver.
Do alto do 69º andar, observei muitas vezes o entardecer cair sobre Brooklyn enquanto a Estátua da Liberdade adquiria uma cor de cobre queimado na névoa do porto. Parecia vigiar o destino dos milhões de estrangeiros que haviam chegado àquela cidade tentando reinventar a própria vida.
Pensava então na improvável convivência de mundos que Nova York produzia. Na mesma ilha conviviam astronautas celebrados, executivos milionários, artistas experimentais, imigrantes porto-riquenhos, homossexuais perseguidos e jovens abandonados pela dependência química.
Apesar de tudo, a vida insistia. Aos sábados, parques enchiam-se de música latina. Velhos dominicanos jogavam dominó em mesas improvisadas. Mulheres porto-riquenhas observavam o movimento das ruas sentadas nas escadarias dos prédios, como guardiãs involuntárias do bairro.
À noite, Times Square brilhava como algo prestes a desmoronar. Soldados recém-chegados do Vietnã cruzavam prostitutas cansadas, artistas fracassados, turistas fascinados e pregadores religiosos. Havia cinemas pornôs ao lado de teatros históricos, policiais violentos dividindo espaço com poetas bêbados e músicos de rua.
Pouco antes da minha chegada, Stonewall havia incendiado Greenwich Village e dado voz a uma geração cansada de viver escondida. Homens e mulheres caminhavam pelas ruas carregando o medo da violência policial e da rejeição pública, mas começavam a surgir pequenos gestos de coragem: mãos dadas rapidamente, bares clandestinos transformados em refúgios de liberdade, olhares de reconhecimento atravessando a madrugada.
Durante aqueles anos, a cultura brasileira atravessava Nova York como uma corrente quente vinda do sul. Assisti ao sucesso de Joy, espetáculo protagonizado por Sivuca e Oscar Brown Jr., onde o acordeão nordestino parecia conversar naturalmente com o jazz americano. Vi a passagem vigorosa de Arena Conta Zumbi e do musical Skidô, revelando um Brasil menos folclórico e mais urbano ao público nova-iorquino.
Em 1979, essas experiências desembocariam numa entrevista ao Fantástico, da TV Globo. O jornalista Hélio Costa entrevistou-me sobre o crescimento da crise das drogas em Nova York e o impacto humano da dependência química nas comunidades pobres da cidade.
Naquele momento, as imagens de jovens destruídos pelo vício no South Bronx, estações de metrô degradadas e violência cotidiana começavam a circular internacionalmente como sinais do esgotamento do sonho americano. A entrevista procurava explicar ao público brasileiro que o problema das drogas não era apenas policial, mas profundamente humano e social.
Recordo também a Copa do Mundo de 1970 transmitida em telões no Madison Square Garden. Quando o Brasil de Pelé conquistou o tricampeonato, Manhattan explodiu numa alegria improvisada. Pela primeira vez, muitos americanos percebiam que futebol podia ser arte.
Numa tarde qualquer, caminhando por Greenwich Village, próximo à Sheridan Square, deparei-me casualmente com John Lennon e Yoko Ono. Não havia multidão nem espetáculo. Apenas a estranha naturalidade nova-iorquina: duas figuras já míticas caminhando anonimamente entre estudantes, hippies, músicos e poetas do Village.
A cidade possuía a capacidade singular de dissolver o extraordinário dentro do cotidiano.
Entre minhas atividades comunitárias e o trabalho na administração pública, fui conhecendo outras faces de Nova York. Algumas subterrâneas e dolorosas; outras inesperadamente luminosas.
Lembro-me de um fim de tarde no heliporto da cidade. Os rotores do helicóptero diminuíram lentamente até o silêncio. Três homens desceram usando ternos escuros e passos precisos de antigos militares. Eram astronautas.
Os homens eram Wally Schirra, Donn Eisele e Walter Cunningham, tripulantes da Apollo 7. Na limusine rumo ao Carnegie Hall, Schirra comentou que havia estado no Brasil e declarou, separando teatralmente as sílabas:
— I love f-e-i-j-o-a-d-a brasileira.
Falamos de carnaval, Copacabana e de Yuri Gagarin. Ao chegarmos ao Carnegie Hall, Schirra despediu-se com uma gargalhada:
— Ah… f-e-i-j-o-a-d-a… Oh, boy!
Décadas depois, ao saber de sua morte, recordei uma frase sua que jamais esqueci:
“Deixei a Terra três vezes. Não encontrei nenhum outro lugar para ir. Por favor, cuidem da nave espacial Terra.”
Em meio às tensões sociais da cidade, havia também espaço para criação artística. Participei da fundação da Insieme, pequena companhia independente de produção cinematográfica. Desenvolvemos o piloto de It Takes a Small Step, programa infantil inspirado pela corrida espacial e pelo fascínio que a Lua exercia sobre as crianças americanas. Produzido com recursos mínimos e entusiasmo ilimitado, o projeto acabou transformando-se numa série exibida pela NBC durante duas temporadas.
Outra face inesperada da cidade revelou-se quando fui convidado a participar dos bastidores do Emmy Awards de 1970. Fui informado de que acompanharia Farrah Fawcett. O pagamento seria de 150 dólares.
Ao entrar na suíte do hotel, encontrei maquiadores, cabeleireiros e assessores circulando em ritmo frenético. O ambiente cheirava a laquê, perfume caro e ansiedade.
Então ela apareceu.
O cabelo dourado parecia desafiar a gravidade.
— “Hi! I’m Farrah. Farrah Fawcett.”
Horas depois, ao atravessarmos o lobby cercados por flashes, ouvi alguém perguntar:
— “Who’s the guy with Farrah Fawcett?”
Por alguns segundos, deixei de ser invisível.
Na limusine rumo ao Carnegie Hall, observando Manhattan deslizar pelas janelas iluminadas, pensei novamente no contraste daquela cidade. Durante o dia, eu transitava entre clínicas de recuperação e bairros devastados pela heroína. À noite, acompanhava estrelas de televisão sob tempestades de flashes.
Em julho de 1980, deixamos Nova York rumo à África, encerrando um ciclo que havia transformado profundamente nossas vidas. Partíamos em missão humanitária ligada à Igreja Católica, cumprindo uma promessa feita anos antes durante uma passagem por Senegal e Mali.
Nossos filhos ainda pequenos dormiam durante o voo.
Quando as últimas luzes da cidade desapareceram no horizonte, pensei que algumas cidades não terminam nunca. Permanecem acesas dentro da memória como letreiros de neon funcionando madrugada adentro.
Nova York ficou em mim desse modo: um ruído distante de sirenes, saxofones atravessando a noite, vapor subindo dos bueiros no inverno.
Enquanto o avião seguia sobre o Atlântico escuro, recordei uma velha canção que parecia resumir melhor do que qualquer fotografia o espírito daquela ilha inquieta:
And if I can make it there,
I’m gonna make it anywhere.
It’s up to you,
New York,
New York!
Lá embaixo, perdida na escuridão do Atlântico, a cidade continuava acordada.
Por Palmarí H. de Lucena